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quinta-feira, abril 12, 2012

Polícias e ladrões

Queria começar por admitir que já fiz muita merda na minha profissão. E bem arrependido estou, o que não me desculpa, naturalmente. Dito isto, é com tristeza que assisto à intromissão cada vez mais evidente de interesses comerciais e outros na esfera privada da relação entre o jornalista e os seus leitores. A pressão do circo mediático, das hierarquias e do próprio ego obriga os artistas a subir ao palco sucessivamente, mesmo quando nada têm para acrescentar. Mesmo quando nada sabem sobre o número que vão representar.

Vem isto a propósito do caso Cardinal-Sporting-PPC. Que começou por ser uma alegada denúncia do Sporting apoiada numa alegada vingança da suposta ex-mulher do árbitro. Agora olhe-se esta notícia da Lusa difundida pelo Expresso Online (aqui: http://expresso.sapo.pt/pj-suspeita-de-armadilha-a-arbitro=f718572). A agência pública e o jornal com maior reputação do país cavalgam um dos temas mais quentes do dia. Como? No primeiro parágrafo o Expresso Online cita a Lusa porque se limita a replicar o despacho que acaba de receber. No segundo, a notícia (da responsabilidade da agência pública) cita a SIC Notícias. No terceiro cita o Correio da Manhã. No quarto, quinto e sétimo -- de um texto com nove parágrafos -- cita o DN.

O que é que o Expresso e a Lusa acrescentam ao que nós já sabíamos? Nada. O próprio lead da notícia -- "A Polícia Judiciária (PJ) realizou hoje buscas na sede do Sporting" -- replica a informação que outros meios (nomeadamente a SIC Notícias e o DN) já haviam dado anteriormente.

É uma pescadinha de rabo na boca, sem que ninguém perceba o que se esconde atrás da cortina de fumo.

E de repente lembro-me do alegado encontro de Domingos com o FC Porto e da noite das últimas eleições em Alvalade.

kovacevic

quarta-feira, maio 05, 2010

A sério

Vou fazer de conta que não li a questão que o Record colocou hoje nos seus inquéritos online:

"É legítimo um eventual incentivo do Sp. Braga ao Rio Ave para ganhar na Luz?"

master kodro

sábado, março 27, 2010

Frases

Record: "Força Amigos - Craques do Barça e do Real deixam através de Record mensagem aos argentinos do Benfica."

Manuel Cajuda: "O Benfica vai ser campeão nacional, mas gostava de ver o Braga ganhar. As pessoas vão perguntar que raio de benfiquismo é este. Eu digo que é o meu"

Jorge Jesus, em Janeiro de 2009: "Tivemos uma equipa de arbitragem que validou um golo que não era, marcou uma grande penalidade que não era e não assinalou duas grandes penalidades contra o Benfica. Se me perguntam se o Braga pode lutar para o titulo digo que não. Os árbitro não deixam."

master kodro

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Braga 2 x 1 Marítimo

Mais uma vitória A décima quinta em dezanove jogos da Liga 2009/2010. Mais um notável ensaio de futebol paciente, justamente coroado com uma vitória a dez minutos do fim do jogo (golo de Luis Aguiar, o décito sétimo marcador de golos do plantel arsenalista). É óbvio que o futebol do Braga não foi brilhante como em jornadas anteriores, até porque a ausência de Márcio Mossoró faz-se notar no meio-campo ofensivo. Mas se olharmos ao futebol dos outros candidatos - se ainda acharmos que há mais do que um -, esta exibição do Braga nada fica a dever ao que se passou noutros campos.

Deprimente Todo o espectáculo montado em torno da bola que saiu no segundo golo do Braga, que até teve direito a chamada de capa no Record. Procurei, em vão, uma nota semelhante após o Benfica 1 x 0 Porto, mas só encontrei grandes - e merecidos - elogios. Procurei, em vão, uma nota semelhante sobre o que se passou no Restelo, na jornada passada, mas também não encontrei. É uma pena que as vitórias do Braga sejam constantemente desvalorizadas e que o clube não possa beneficiar de um tratamento semelhante quando chega a hora de analisar questões de arbitragem. Até ouvi na RTP que o treinador do Marítimo se queixou da arbitragem, para depois o ouvir dizer que "o árbitro errou, acontece, somos todos humanos". Siga a festa.

master kodro

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

O Braga de Domingos

1. Alguma comunicação social desportiva continua a ignorar miseravelmente aquilo que o Braga está a fazer esta época. Bem sei que ganhar ao Sporting não é propriamente uma novidade nos tempos que correm (uma notícia de um facto foi desvalorizada em detrimento de algo que não tinha acontecido ainda), mas aquilo que o Braga fez na segunda-feira, no Restelo, merece mais, mesmo dentro dos critérios editoriais abomináveis de Record, do que uma chamada de capa tão estúpida como a que noticia que Jesus e Carvalhal estavam em blackout antes do jogo dessa competição fabulosa que é a Taça da Liga. A notícia deixa de ser o que aconteceu (o que aconteceu de fantástico e de raro), para passar a ser o que não foi dito, a propósito de um jogo que está por acontecer. Deviam ficar sem carteiras profissionais, no mínimo.

2. O Braga sobreviveu a um jogo em que ficou reduzido a 10 aos 15 minutos, num lance em que foi assinalada uma grande penalidade a favor do adversário e em que o árbitro viu dois lances de cartão amarelo para o mesmo jogador na mesma jogada. Nem vou discutir o lance, como é hábito, porque nem vale a pena. Pego nas palavras do kovacevic de ontem e repito: isto não é coisa que aconteça a todos. No mesmo jogo, e ainda sem discutir a validade das decisões do árbitro, mas analisando critérios, uma equipa não viu assinalada uma mão (aparentemente involuntária, face à curta distância do desvio que levou a bola à mão) na sua área, mas a outra viu uma mão assinalada (aparentemente involuntária, face à ainda mais curta distância do desvio que levou a bola à mão), que deixaria um jogador da sua equipa em excelente posição ofensiva. O Braga sobreviveu a isto graças a uma magnífica exibição de Eduardo e à frieza e arte dos seus jogadores que conseguiram marcar três golos fora de casa, nestas condições. Não é para todos.

3. O Braga de Domingos segue, com segurança, a pisar terrenos que muitos não admitem como podendo ser seus. O Braga de Domingos tem, à 18.º jornada, mais 16 pontos do que o excelente Braga de Jorge Jesus tinha. O Braga de Domingos vai alcançar a melhor classificação de sempre do clube. O Braga de Domingos tem 16 marcadores de golos esta época, depois do magnífico golo de Renteria, o que mostra que tem armas espalhadas pelo plantel, apesar dos castigos ou das vendas a clubes com maior disponibilidade financeira. O Braga de Domingos não tem medo, nem está nervoso, embora tenha fortes razões para isso. Mas há quem tenha, por ter muito mais a perder.

master kodro

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Também acho

"[...] Tomando como reais os valores divulgados, e contando também com os «trocos» gastos com o moçambicano Mexer, o Sporting já terá atingido a fasquia dos 9 milhões de euros em compras nesta reabertura do mercado. E há indicações de que não ficará por aqui, elevando o «investimento» para números que só serão melhor percebidos a 31 de janeiro.

Não está em causa, nem podia estar, o desejo legítimo do Sporting em reforçar o quadro de jogadores à disposição de Carvalhal. Só que esta nova abordagem destrói pela base o discurso oficial (e oficioso, também preferido por alguns opinadores) da contenção, da utilização dos meios proporcionados pela Academia, enfim, aquele discurso do orçamento remediado e nada parecido com os esbanjadores Benfica e FC Porto.

[...] talvez não seja tempo perdido teorizar sobre estas inflexões no trajecto de um clube/SAD que continua a tentar passar a mensagem da diferença e, até, da rectidão e pureza por oposição a outros eventualmente menos puros que por aí andam. Se quisermos, é só escolher qual dos aforismos melhor se aplica ao actual Sporting: «nunca digas desta água não beberei»; ou «pela boca morre o peixe»". Paulo Renato Soares, no Record.

katanec

quinta-feira, novembro 19, 2009

Adeus África (2)


Aqui está a beleza de capa de um pasquim patético, que decidiu, como a esmagadora maioria da imprensa neste país, enxovalhar um seleccionador apenas porque ele é pessoalmente a antítese de Scolari. Acho espantoso que ainda haja quem tenha dúvidas do que se procurou fazer nos últimos meses em Portugal, numa campanha - esta sim negra - de que não recordo igual. Ontem mesmo, depois de termos conseguido o apuramento com uma dupla vitória no play-off, ouvi ainda jornalistas criticarem Queiroz por ser "um homem amargurado", não deixando de sublinhar - e sublinhar, e sublinhar - como foi "sofrido" e "desnecessário" este "nervosismo". Mas é tudo uma enorme coincidência, obviamente.

O novo argumento é o dos "serviços mínimos", ou seja, a ideia de que o apuramento era "obrigatório" e que, não tendo sido alcançado de forma brilhante e inequívoca, é um "mau apuramento". Assim de repente, lembro-me da Suécia, Rep. Checa, Turquia, Croácia e Rússia. Vem-me também à memória um certo apuramento da Argentina e da França, por exemplo. Mas claro, o nosso caso é muito diferente.

katanec
P.S. Obrigado ao Sérgio pelo link para a capa do Jogo.

sexta-feira, outubro 16, 2009

442 Memória (3)

«Adeus África» (O Jogo), 29 de Março de 2009. E não, não era uma apreciação a este promissor filme, com Charles Dance e Greta Scacchi.

katanec

segunda-feira, agosto 17, 2009

Da reacção ao empate benfiquista

Enquando a discussão vai animada aqui em baixo (obrigado pela participação, já agora), assisto a uma curiosa reacção ao empate do Benfica. Por um lado, compreendo os comentários azuis e verdes - insistentes na mesma ideia: "o campeão anunciado já escorregou, é sempre a mesma coisa, tomem lá para aprender". Embora a maioria dos comentários venha de pessoas que nem viram o jogo, e que aguardavam apenas por um deslize (grande ou pequeno, justificável ou não) para provocar os benfiquistas, parece-me isto natural, estando associado à (saudável) rivalidade "brincalhona" entre adeptos.

Todavia, já me custa entender as reacções da imprensa, marcadas por uma hipocrisia pura. Os jornalistas fazem um jogo-duplo que me diverte, confesso: passam semanas a elogiar absurdamente uma equipa e a construir uma imagem de invencibilidade da mesma; anunciam títulos, fazem capas delirantes, promovem a euforia. Mas ao primeiro sinal contrário, logo surgem a denunciar os excessos - que eles próprios tinham criado, note-se - advertindo para os seus males e culpando-o pelo insucesso da equipa que antes haviam elogiado sem restrições.

É já um clássico da imprensa (nacional e não só): 1) jornalistas exageram e criam situação de euforia; 2) jornalistas criticam excesso de euforia; 3) jornalistas criam programa para discutir o perigo da euforia, num processo de auto-crítica; 4) jornalistas esquecem tudo o que sucedeu e voltam ao exagero e à situação de euforia; 5) o ciclo reinicia-se e prolonga-se ad infinitum.

katanec

quarta-feira, abril 15, 2009

Dragão sem chama

Por uma vez, percebi o que os não-benfiquistas passam quando o circo mediático eleva o clube encarnado a píncaros nunca vistos, atropelando a lógica e a razão do debate futebolístico. Foi uma semana como raras vezes assisti no jornalismo desportivo nacional. A exibição positiva em Old Trafford foi transformada em resultado épico (esquecendo por exemplo feitos semelhantes ou superiores de Benfica e Sporting em terras britânicas). Fernando e Hulk foram comparados aos melhores do mundo. E a qualidade magistral do Porto foi de súbito descoberta. Falou-se do "favoritismo portista". Descobriram-se estatísticas que garantiam o apuramento. Cheguei mesmo a ouvir que o Porto era agora um sério candidato a ganhar a Champions.

A realidade, claro, é mais crua. Este Porto é a melhor equipa nacional, mas ainda lhe falta "um bocadinho assim" para eliminar formações com outros argumentos. No jogo mais importante do ano, não foi capaz de criar uma única oportunidade clara de golo frente a um adversário matreiro, e muito inteligente no modo como geriu a sua vantagem. Foi eliminado com justiça, numa eliminatória que honra os portistas, mas que serve também para mostrar as limitações do plantel. Hulk é bom, mas ainda não é excelente. Fernando ainda precisa de crescer. Cissokho promete, mas falta-lhe objectividade. E com franqueza, vejo alguns problemas ao nível de banco para estas andanças (repare-se que o Man Utd nem sequer usou Tevez, por exemplo).

Nada disto anula uma boa prestação global dos azuis na Champions. Mas, por favor, não queira o Porto reclamar um falso pedestal. Durante anos os adeptos criticaram o endeusamento de que o Benfica era alvo na imprensa. Por ironia do destino, repetem-se os mesmos hábitos, apenas com nomes diferentes. O resultado é negativo para toda a gente: para os jornalistas, divorciados da realidade; para os adeptos, iludidos pelas parangonas que lhes servem; e para os observadores, confusos pelo circo que os rodeia.

katanec

quinta-feira, abril 02, 2009

Quem disse que o futebol era complexo?

As discussões sobre o estado da selecção multiplicam-se por blogues, jornais, televisão e afins. Debatem-se os maus resultados e as diversas causas dos problemas. Infelizmente, descubro agora que tudo isto é em vão. José António Saraiva falou. E afinal isto arruma-se em meia dúzia de linhas:

"Qual é o problema da equipa de Carlos Queiroz? Para o percebermos, é necessário compará-la com a de Scolari. O brasileiro seguiu duas regras básicas: formar um grupo e criar uma mística. Pegou em 16 jogadores e disse-lhes: «Vocês são a Seleção, desenvolvam essa mentalidade». Por isso Scolari era tão avesso a mudanças. Aquele era o grupo dele. Os jogadores criaram rotinas dentro e fora do campo. E, dado não jogarem todo o ano juntos, esse conhecimento mútuo era fundamental."

"Scolari criou também uma mística de Seleção. Que envolvia os jogadores e os portugueses em geral, gerando um ambiente próprio à volta da equipa. «Um grupo e uma mística» - é isto que explica os êxitos de Scolari. Ora Queiroz destruiu ambas as coisas. Convocando hoje uns jogadores e amanhã outros, não criou um espírito de grupo; e o seu discurso soit disant «científico» não chega ao coração das pessoas".

Grupo. Mística. Metam isso na cabeça. Pois...

O que é um treinador de futebol? Uma espécie de leitor d"O Segredo" misturado com aqueles senhores de abdominais tonificados do TV Shop a impingirem-nos o "Butterfly Abs". O que interessa é acreditar. Essa coisa da táctica e dos discursos científicos são um aborrecimento de todo o tamanho.

katanec

domingo, março 29, 2009

Portugal 0 x Suécia 0

Custa sempre não ganhar, mas custa muito mais quando se rubrica uma boa exibição contra uma equipa de indiscutível qualidade como a Suécia (mesmo sem Ibrahimovic). Portugal foi competente na defesa e empenhado no ataque, gozando de uma série de boas oportunidades. Chegou mesmo a vulgarizar o adversário e, convenhamos, merecia ter vencido com tranquilidade.

Por que não ganhou? Ao contrário do que se lê por aí, não há uma resposta fácil. O problema da finalização é central. Uma equipa que dispõe de três ocasiões flagrantes não pode chegar a zeros ao fim do jogo. As perdidas de Ronaldo e Danny são particularmente inaceitáveis quando falamos de dois jogadores com dezenas de golos nos seus currículos. Por outro lado, Portugal tem hoje em emoção o que lhe falta em cinismo. Os ataques são feitos talvez de maneira demasiado sôfrega, sempre com coração mas com pouca objectividade. Não defendo um futebol “frio”, mas esta selecção precisa de ser mais incisiva nos seus movimentos atacantes.

Queirós cometeu todavia vários erros. Se o objectivo era colocar Danny a tabelar com os médios entre os centrais suecos (como aconteceu na segunda parte), então era preferível ter convocado Nuno Gomes, que desempenha muito melhor esse papel. Critico também a saída de Tiago, então um dos melhores jogadores, para a entrada de Deco. Queirós podia ter substituído o incipiente Meireles e arriscar a utilização simultânea dos dois criativos portugueses. Por fim, a gestão do problema do lateral-direito foi simplesmente néscia. Portugal já tinha três centrais em campo, pelo que a presença de Nélson no banco era fundamental para o caso de Bosingwa se ter lesionado (como sucedeu). Fazer entrar Rolando (e que mal jogou) e descair Carvalho para a direita foi uma solução então necessária, mas que resultou de uma má decisão inicial.

Ninguém pode estar contente com esta fase de qualificação. Dois pontos caseiros em três jogos é péssimo. Uma vitória em cinco jogos é ridículo. Porém, observo com verdadeiro nojo a campanha que decorre na imprensa contra Queirós. Desde o primeiro dia, aliás. Criticam-se todas as opções, mesmo quando funcionam (é o caso das felizes adaptações de Pepe e Duda), recordam-se eras pseudo-douradas com Scolari e traçam-se cenários catastróficos completamente a despropósito. A má-fé é tão evidente que o comentador Manuel Queirós dizia ontem na TVI que o jogo tinha sido "equilibrado"...

Atentem bem: eu acho que Portugal tem agora poucas hipóteses de chegar ao primeiro lugar e o apuramento será sempre difícil. Mas o que hoje li, vi e ouvi é vergonhoso. A imprensa afirma EXPLICITAMENTE que Portugal já foi eliminado (“Adeus África”, titula O Jogo) ou que seria necessário um milagre para nos apurarmos quando Portugal tem possibilidades matemáticas de vencer o grupo, podendo até chegar ao play-off mesmo sem ganhar todos os jogos. É isto mau jornalismo? Não tenho dúvidas. É isto uma forma de pressão indecorosa – que nos tem feito muito mal – com o objectivo de chutar Queirós e apelar ao breve regresso do salvador Scolari? Idem.

katanec

quarta-feira, março 25, 2009

O penalty falhado

O futebol português vive de excessos e de um moralismo insuportável. Exemplos do primeiro são às dezenas e estes últimos dias comprovam-no. Mas, no meio da confusão SLB-SCP-Taça da Liga, surge novo episódio curioso, com Pereirinha e Rui Pedro envolvidos numa peculiar tentativa de converter um penalty que saiu furada (podem ver o lance aqui). Reacções? Apesar de se tratar de um lance sem importância num jogo particular, que vencíamos por 2-0, o episódio foi interpretado como se o Armagedão tivesse enfim chegado.

Rui Caçador enxovalhou os jogadores na conferência de imprensa. "Não mais se repetirá esta falta de respeito". Queiroz ordenou que os jogadores fossem excluídos do torneio e suspensos da selecção. E os jornais crucificaram os jogadores na praça pública, lendo-se por exemplo no Record que se tratou de um "gesto sem perdão". Simplesmente absurdo.

Entendamo-nos: foi uma decisão errada, sobretudo porque não resultou. Mas disso está o futebol cheio. Ou vamos agora expulsar jogadores porque tentaram um chapéu quando deviam ter passado, ou criticar um atleta que cruzou de trivela quando se pedia um remate? O Quaresma que se ponha a pau...

A verdade é que se tivesse dado certo, as televisões abriam com o golo singular e os jornais faziam capa dos jovens heróis lusos. Como não deu, fala-se de desrespeito e irresponsabilidade. Porquê? Eu tenho uma teoriazinha: porque o adversário se chama Cabo Verde. Se fosse com a Holanda, a Itália ou o Brasil, era uma boa decisão, para mostrar aos fortes que nós, pequeninos, também somos espertos. Mas como foi contra os coitadinhos, ainda por cima uma antiga colónia, tem que ser tudo manejado com pinças. Recorda-me um célebre jogo contra Angola, com os adversários a distribuírem pancada (de tal forma que o encontro não chegou ao fim) e os dirigentes lusos, no final, a dizerem que era tudo normal e compreensível. A má-consciência tem destas coisas.

katanec

terça-feira, março 10, 2009

Sempre a inovar

A capa de hoje de Record "Veloso arma-se em vítima" é uma nova forma de fazer jornalismo desportivo em Portugal. Se calhar não era só impressão nossa.

master kodro

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Paços de Ferreira 0 x 2 Porto

Sim, parece que foi Hulk que marcou e que foi Hulk que sofreu o penalty que deu o 2x0 (Bruno Alves marcou). O Paços deu alguma luta mas a maior parte do perigo que criou foi de fora da área (uma na barra). Do outro lado, o destaque para a passagem de Lucho e Rodriguez pelo banco e para o regresso consistente de Lisandro à atitude que o fez brilhar no passado (pontaria à parte). Depois houve aquele rapaz que tem mais força e velocidade do que os outros. Vale a pena dizer mais alguma coisa?

ps - Por acaso, vale. A atitude do jornalista da RTP1 foi extremamente interessante ao longo do jogo. Houve quatro lances discutíveis durante a partida, três na área do Paços, um na área do Porto, os dois primeiros foram assinalados de acordo com as pretensões do Paços, os dois últimos foram assinalados a favor das pretensões do Porto. O jornalista viu quatro lances que deviam ter sido assinalados a favor do Paços. Tem direito à sua opinião, como qualquer outra pessoa que veja os lances. O que já é mais difícil de explicar é que as duas primeiras decisões tivessem ficado "para os especialistas comentarem" até porque "estes lances agora dão discussão para uma semana" e os dois últimos foram "lances polémicos", três ou quatro vezes cada um, até ao fim do jogo. Eu já tenho dificuldades para suportar coisas destas em blogs, quanto mais na televisão.

master kodro

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Uma espécie de jornalismo

Título: Pedro Proença frustrado

Conteúdo: "Um sentimento de 'enorme frustração'. Terá sido isto que Pedro Proença sentiu ao ver as imagens do clássico, sobretudo na análise ao lance entre Yebda e Lisandro, do qual resultou a grande penalidade, que deu o empate ao FC Porto. Caso o árbitro tenha constatado que decidiu de forma errada, o seu estado de espírito não pode ser outro, como aqui explicam Duarte Gomes, Olegário Benquerença e Bruno Paixão três árbitros internacionais, condição que também tem o lisboeta."

Não é preciso entrar no campo da discussão de lances para definir estas passagens desta peça como absolutamente ridículas.

master kodro

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Benfica 2 x Guimarães 1

Segunda parte menos conseguida, sobretudo nos primeiros quinze minutos. Valeu um autogolo prodigioso e o primeiro tento de Aimar com a camisola encarnada (belo passe de Katsouranis). Dois factos negativos a registar, porém: a tremideira nos últimos minutos (vista e revista durante esta temporada) e a convicção de que Quique é um homem estranho: como explicar que Mantorras não tenha jogado depois do sucedido no sábado? Como explicar a troca de Cardozo por Di Maria com o resultado em 0-0? Como explicar a insistência no trapalhão e inconsequente David Luiz na esquerda? Demasiados erros...

Uma nota final para Paulo Garcia e Jorge Baptista, que continuaram na sua onda anti-benfiquista, ora encontrando foras-de-jogo onde eles não existiam (o caso do golo de Aimar), ora prosseguindo com a sua estranhíssima narrativa do "encontro equilibrado". Estou a implicar com os senhores jornalistas? Pois fico-me apenas com a última intervenção de Paulo Garcia: "Estão pois apurados os dois finalistas desta Taça. Vamos ter um Benfica-Sporting. Ou um Sporting-Benfica, para não ferir susceptibilidades...". Um brilhante exercício de auto-referência, meus caros.

katanec

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Goal average? Nunca ouvi falar disso

Mais do que confirmado o erro na utilização da expressão, materializado na letra da lei, discute-se agora o espírito da lei invocado pela Liga para a utilização errada da expressão. Erguem-se vozes indignadas perante tamanha aberração linguística, nunca antes ouvida ou utilizada (eu sempre disse goal difference, parecem querer dizer quase todos os opinadores).

Nunca ouvimos ou lemos essa expressão, nem aqui, nem aqui, nem aqui, nem aqui, nem aqui, nem aqui, nem aqui, nem aqui, nem aqui, nem aqui, todas nos últimos três anos. Mas isso é coisa de jornalistas portugueses ignorantes, pelo que é impossível que esta maleita colectiva tipicamente lusa tenha galgado fronteiras e contaminado gentes mais letradas. Por isso é pouco provável que o caro leitor encontre algo neste sentido neste artigo, ou neste, ou neste, ou neste, ou neste, ou neste, todos desde 2008.

Pronto, é coisa de jornalistas, pelo que se nos afigura como improvável que homens do futebol utilizassem uma expressão tão ignóbil. Não é provável que pessoas como José Peseiro a tenham utilizado em discurso directo, "Mas praticamente a qualificação está assegurada, em função do 'goal-average". Está bem, é o Peseiro que tinha aqueles comportamentos afectivos públicos com Eduardinho. Mas temos dúvidas que um ser com o estatuto de Johann Cruijff tenha alguma vez expressado, "O Valencia está a 10 pontos e o Real Madrid a 14, tendo em conta o ‘goal average" (até porque Cruijff não fala português).

Trata-se, portanto, de uma alucinação colectiva, esta que presenciamos, esta que leva à utilização generalizada e errada do termo goal average (é errado não haja dúvidas relativamente a isto). Daí a dizer-se que quem fez (erradamente) o regulamento da Taça da Liga queria mesmo referir-se ao termo goal average (à divisão de golos marcados por golos sofridos), uma forma de desempate que deixou de ser utilizada no Mundial de 1970 e na liga inglesa em 1976/77, vai uma distância muito grande.

Meus amigos, acreditem no que quiserem, mas não me queiram obrigar a acreditar que quem fez o regulamento da Taça da Liga estava impregnado do espírito de incluir um critério de desempate que dividisse golos marcados e sofridos, porque eu só acredito no que quero e no que seja, ao mesmo tempo, razoável. Até porque acho que já existem exemplos suficientes aqui em cima que mostram que todos nós sempre utilizámos (embora quase ninguém o assuma) o termo goal average tão erradamente como no sentido de falarmos em golos marcados menos golos sofridos.

Vejam quão disseminada a coisa está que até o insuspeito perfeccionista Rui Cartaxana a usava em 2005, "As regras para estas classificações provisórias das equipas são, por ordem: 1) número de pontos entre elas; 2) se têm os mesmos pontos, a) valem os resultados entre as equipas empatadas; b) se o empate se mantém, vale a diferença de golos (goal average) entre elas". Claro que ele queria dizer quociente e não diferença, não é? Não, não é. E João Gobern aqui. E António Pedro Vasconcelos aqui. Mas o contributo mais importante para esta discussão do espírito da expressão (e da lei no caso presente) vem novamente de Rui Cartaxana, um ano antes, que admite, como provedor dos leitores, a adaptação e generalização do termo goal average, fazendo um paralelo com o termo hat-trick, em resposta à indignação de um leitor.

"PL: Tem razão, em grande parte. A expressão "hat-trick" vem do cricket e traduz a marcação de três pontos seguidos pelo mesmo jogador. Só que com a sua banalização, no futebol, passou a designar, por extensão, a marcação de três golos seguidos pelo mesmo jogador, no mesmo jogo. Estas "adaptações" são frequentes no futebol, como aconteceu com a expressão "goal-average" e outras. "

Adaptação, frequente, banalização. Mas acreditem no que quiserem e se quiserem mesmo muito acreditem que quem fez o regulamento da Taça da Liga quis mesmo propôr o quociente.

ps - Só uma nota para desejar boa sorte ao Luciano e as rápidas melhoras. E se tiverem que ir mesmo vocês às meias-finais, que ganhem a competição, é o que desejo sinceramente.

master kodro