quarta-feira, março 25, 2009

O penalty falhado

O futebol português vive de excessos e de um moralismo insuportável. Exemplos do primeiro são às dezenas e estes últimos dias comprovam-no. Mas, no meio da confusão SLB-SCP-Taça da Liga, surge novo episódio curioso, com Pereirinha e Rui Pedro envolvidos numa peculiar tentativa de converter um penalty que saiu furada (podem ver o lance aqui). Reacções? Apesar de se tratar de um lance sem importância num jogo particular, que vencíamos por 2-0, o episódio foi interpretado como se o Armagedão tivesse enfim chegado.

Rui Caçador enxovalhou os jogadores na conferência de imprensa. "Não mais se repetirá esta falta de respeito". Queiroz ordenou que os jogadores fossem excluídos do torneio e suspensos da selecção. E os jornais crucificaram os jogadores na praça pública, lendo-se por exemplo no Record que se tratou de um "gesto sem perdão". Simplesmente absurdo.

Entendamo-nos: foi uma decisão errada, sobretudo porque não resultou. Mas disso está o futebol cheio. Ou vamos agora expulsar jogadores porque tentaram um chapéu quando deviam ter passado, ou criticar um atleta que cruzou de trivela quando se pedia um remate? O Quaresma que se ponha a pau...

A verdade é que se tivesse dado certo, as televisões abriam com o golo singular e os jornais faziam capa dos jovens heróis lusos. Como não deu, fala-se de desrespeito e irresponsabilidade. Porquê? Eu tenho uma teoriazinha: porque o adversário se chama Cabo Verde. Se fosse com a Holanda, a Itália ou o Brasil, era uma boa decisão, para mostrar aos fortes que nós, pequeninos, também somos espertos. Mas como foi contra os coitadinhos, ainda por cima uma antiga colónia, tem que ser tudo manejado com pinças. Recorda-me um célebre jogo contra Angola, com os adversários a distribuírem pancada (de tal forma que o encontro não chegou ao fim) e os dirigentes lusos, no final, a dizerem que era tudo normal e compreensível. A má-consciência tem destas coisas.

katanec

39 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Típica hipocrisia portuguesa!

Peyroteo disse...

A decisão de suspender os jogadores é vergonhosa! Não houve nenhuma falta de respeito, apenas tentaram fazer algo que Cruyff, Henry ou Pires já haviam feito. Saiu mal, paciência. Quanto muito o Pereirinha deixaria de marcar os futuros penaltys. Agora toda esta crucificação pública é absurda e ridícula.

nm disse...

A pequenez de espírito de alguns também se vê nestes momentos. E, claro, não me refiro ao Pereirinha e ao Rui Pedro

N. disse...

"A pequenez de espírito de alguns também se vê nestes momentos. E, claro, não me refiro ao Pereirinha e ao Rui Pedro."

Assino por baixo.

Jorge disse...

Eu nao acho que seja um gesto sem perdao mas e um gesto estupido que aumenta significativamente a probabilidade de falhar um lance facil e 'e um gesto que tambem demonstra que os jogadores estao no gozo, nao estao a levar o jogo a serio o que e uma falta de respeito para os colegas, o publico, o adversario e sobretudo o treinador que quando mandou o Pereirinha marcar o penalty nao estava a par da intencao dos jogadores de darem show na marcacao do penalty.
Porque o Pereirinha nao faz o mesmo num jogo decisivo do campeonato? Achariam isso uma opcao errada ou estupida?
Eu sinceramente achei ridiculo e espero que todos aprendam qualquer coisa com isso.

cp disse...

o cerne da questão é bastante simples:se fosse o cristianinho "prefiro perder a bola do que passa-la" ronaldo, as consequências teriam sido as mesmas?


http://incana.blogspot.com

Fredy disse...

mais incrivel que isto é a decisão da FPF de banir a equipa de juniores da naval por 2 anos só porque se atrasou 2 minutos!

o futebol portuguÊs no seu "melhor"!

luissm disse...

Obrigado katanec!

Finalmente de acordo contigo.

Em tudo, até no achar que a reacção está relacionada com "coitadinhismo".

E, Jorge, não me venhas com tangas. Sempre (sempre!) que um jogo está decidido quem o está a vencer tem uma atitude menos competitiva e mais virada para tentar fazer "coisas bonitas". ´

E ainda bem porque isso embeleza o futebol!

Infante disse...

Comparar aquilo com um "chapéu falhado", sinceramente...

Aquilo foi um bocado triste e não tem nada a ver com "embelezar o futebol". Não é isto que vai ajudar as pessoas a apagarem a imagem de miúdos mimados sem nada na cabeça, que está associada (às vezes injustamente) às selecções jovens.

Se fosse contra uma potência, a imprensa não teria crucificado os dois tipos ? Talvez. Mas se calhar os jogadores também não o teriam feito. A minha teoriazinha é: estavam ali os pobrezitos cabo-verdianos, olha, vai já uma brincadeirinha, amanhã vamos ser heróis. Falhou, ainda bem.

Vindo de um jogador que ainda há uns tempos levou 12-1 numa competição europeia, isto é mesmo "cara de pau", é gozar até com os próprios sportinguistas. Já agora: e se o Klose ou o Toni tivessem marcado o lance assim, com o resultado em 12-1 ? Ah, o que não iamos ouvir e ler sobre a "arrogância germânica"...

katanec disse...

Jorge e Infante, mas porque é que este lance é humilhante? É legal, é ou pode ser bonito e eficaz. Qual é o problema? Em que é que isto humilha os adversários? Não percebo, a sério. Se um gajo isolado passar pelo guarda-redes, e voltar atrás para fintá-lo outra vez é humilhante? Se um tipo fizer um chapéu ao GR é humilhante? Se um gajo marcar um livre de trivela é humilhante? Se um tipo marcar com o rabo é humilhante? E com a pila, pode ser?

E já agora, sobre a "juventude" dos atletas: quando o Pires e o Henry tentaram isto em Inglaterra, ficou a dever-se a quê? Inexperiência e juventude?

Infante disse...

Continuas a comparar coisas incomparaveis, mas pronto...

"Se um gajo isolado passar pelo guarda-redes, e voltar atrás para fintá-lo outra vez é humilhante? "

Por acaso... sim, é. Por que raio é que alguém havia de fazer isso ? Comparas isso com chapéus ? O que é que tem a ver ?

Volto a dizer: eu se fosse sportinguista e visse um jogador a fazer isto, depois de ter levado 12-1, não ia gostar nada...

Nuno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno disse...

O mais absurdo de tudo é que este é o mesmo Queiroz que diz, em cada entrevista que dá, que o seu maior contributo para o futebol português se ficou a dever ao facto de ajudar a despertar a mentalidade do jogador português. Segundo Queirós, antes dele, Portugal tinha bons jogadores, mas com uma mentalidade pequena, que chegava aos grandes palcos e se sentia pequenino ao pé das grandes estrelas mundiais. Portanto, esta decisão de castrar a irreverência numa selecção já de si pouco irreverente não faz sentido nenhum. A fama de pedagogo de Queiroz é uma autêntica farsa. Mas a verdade é que a pequenez de espírito do homem se coaduna em tudo com a pequenez do país. Estão bem um para o outro.

Acerca deste tipo de lances, gostaria só de dizer uma coisa. Maior parte das pessoas acha que um penalty marcado assim ou marcado à Panenka são actos de habilidade, gestos despreocupados. Acho que um penalty batido assim ou batido à Panenka é uma forma tão válida de converter o lance como batê-lo de forma vulgar. Ou seja, isto é um recurso à disposição dos jogadores. Como é óbvio, é algo que só resulta se usado com pouca frequência. Mas não deixa de ser um recurso, como o são os lances de bola parada trabalhados. A época passada, em Huelva e em Roma, viu-se um canto diferente de tudo o que se tinha visto até aqui. Um jogador pisa a bola, finge trocar com outro, que vai lentamente para junto da bandeirola, e de lá arranca com a bola controlada, pois esta já estava em jogo. Com isto, surpreende a defesa. Parece um número de circo, mas é uma forma de iludir o adversário. E um jogo de futebol vive disso. Um lance destes é igual. Não é nem falta de respeito, nem relaxamento, nem vedetismo, nem arrogância. É um recurso. E ao contrário do que se pensa, não é usado apenas quando se está a ganhar por muitos. O jogador que bate assim não bate assim porque se está borrifando para o desfecho do lance. Bate assim porque pretende surpreender. E pode acontecer que o faça numa altura em que o resultado é incerto e a pressão é muita. Na final do Mundial de 2006, Zidane bateu-o assim. Era também por isso que era um génio. Portanto, condenar um jogador por fazer uma coisa destas é absurdo. Para se condenar isto, teria de se condenar um jogador que fizesse uma cueca a um adversário, um jogador que fingisse uma grande penalidade, um jogador que driblasse o adversário apenas por recriação. E levando ao extremo, teria de se condenar um jogador por ser mais rápido que o adversário, ou por ser mais alto, porque é evidente que temos de nos compadecer por aqueles que não são como nós. Que cambada de gente tacanha!

master kodro disse...

Eu acho que o Pereirinha tomou uma má decisão.

Jorge disse...

Katanec:

Quem e que usou a palavra "humilhante?"
Eu falei em falta de respeito.

O lance pode ser eficaz? Depende de como definires eficacia, mas o de ontem nao foi eficaz, e de certeza que nao e eficiente. Quanto a adicionar beleza ao jogo, nao vejo como e que um lance mal executado e mal pensado pode adicionar beleza.

Infante disse...

Vocês continuam a comparar coisas incomparaveis, Este agora fala em "cuecas"... não tem nada a ver. Eu o que não tenho paciência é para gente apocalíptica: "Oh, proibe-se estes penalties e onde é que vai parar ? Daqui a pouco acaba-se com os jogadores tecnicistas".

Deixem-se de tretas. E já agora, o que acham da "paradinha" que tanta polémica causa no Brasil ?

Se calhar são a favor. Também é cá de uma "beleza"...

ana disse...

ok, o infante queria era oportunidade para em dois comentários seguidos lembrar a liga dos campeões. Escusava de dizer "se eu fosse sportinguista", porque se percebeu logo que não era. Depois da merda que debitou, essa frase foi uma redundância. E escusa de dizer "eu, como benfiquista", porque também o será. Se a jogada tivesse saído bem, provavelmente seriam apontados como exemplos para os mais velhos, que não têm criatividade e estão sempre à espera dos coelhos saídos da cartola do Ronaldo. Como falhou, foi uma estupidez, foi uma tentativa de humilhar, etc. Lembro os senhores de um lance aqui há tempos, na cobrança de um livre, em que o Dani (o modelo, não o do Zenit) e outro jogador simulam que se desentendem, empurram-se, voltam as costas e, de repente, um deles volta para trás, cruza e outro marca o golo. Toda a gente achou piada, treinador inclusivé, que era o senhor Nelo Vingada. Se acoisa tivesse dado para o torto, não sei se o Nelo se tivesse lembrado dessa de SUSPENDER os jogadores da selecção! Mas se vocês acham bem...

Infante disse...

Adoro esta história do "se este critica o Sporting, deve ser benfiquista".

Não, não sou benfiquista, nem portista, nem sportinguista (ainda é permitido em Portugal não ser de nenhum destes três ?)

No resto, nem dou resposta.

Para completar o raciocinio de há bocado: aqui marcou-se um penalty. Num penalty o jogador que marca tem uns 90% de possibilidades de sucesso; é extraordinariamente desigual. Alargar mais esta margem com "experienciazinhas" é cobarde, venha de quem vier, Pereirinha, Henry ou Cruyff. É por isso que sou contra isto de ontem e contra a nojenta "paradinha" (cuja polémica deve estar aí a invadir Portugal a qualquer momento).

Para mim, a beleza de um penalty é precisamente o jogador contra o GR sozinhos naquele momento, sem invençõezinhas cobardes (e aqui não incluo o penalty à Panenka, que acho perfeitamente legitimo).

Comparar com cuecas e chapéus é ridiculo. São lances de futebol corrido em que a probabilidade do defesa/GR os interceptar é maior. E por isso são lances mais belos.

ana disse...

"No resto, nem dou resposta."

Obrigada. Fica-lhe bem. Típico de benfiquista.

luissm disse...

Tiraste-me o lance da boca, ana!

Mas aí era um menino bonito! Porque é que havia de ser castigado?

Ainda por cima era a irreverência própria dos génios...

Este castigo é tão estapafurdio que até mete dó.

pitons na boca disse...

Acho o castigo um bocado exagerado. Tirar a braçadeira de capitão talvez fosse o mais indicado, e mesmo assim talvez fosse demasiado.

Mas aproveito para fazer umas considerações:

- ir isolado, passar o GR, voltar atrás para o fintar outra vez não é gozar? Se fosse treinador e um jogador meu fizesse isso não era simplesmente substituído no segundo seguinte, era despedido e tenho quase a certeza que conseguiria justa causa na rescisão;

- não vi a jogada de Huelva que o Nuno fala, mas bem espero que a bola tenha percorrido todo o seu perimetro, se não estou enganado só assim se pode considerar a bola em jogo;

- o objectivo do futebol é marcar golos, só com eles se ganham os jogos. A grande penalidade é das oportunidades mais claras de marcar golo. Inventar rodriguinhos e florzinhas num penalty é estar a brincar com alguém (voces decidam se com os adversários, com o publico que quer ver a sua equipa marcar golos ou com o seu próprio treinador e colegas de equipa).

O ponto de vista apresentado pelo infante é bem elucidativo (apesar da ana não ter gostado por motivos óbvios).
Então eu vou colocar de outra forma: no ultimo Brasil - Portugal se tivesse sido assinalado um penalty contra Portugal e os brasileiros tentassem fazer aquilo, das duas uma: ou ficava a rir alto e bom som e a chamar nomes a eles da figura de parvos por falharem; ou chamava todos os nomes por marcarem daquela forma e gozarem dos pobres portugueses que estavam a levar na pá forte e feio e ainda estavam a ser gozados.

Acho que há por aí muita gente a confundir irreverencia com estupidez, arrogância e vedetismo.

Para que conste, Nuno, bem espero que não sejas treinador. Repugna-me a ideia de treinadores (e há, infelizmente) que gostam que os seus jogadores finjam penaltis (ou faltas). E sim, os jogadores devem ser "condenados" por isso.


Posto isto, espero que alguém comece a marcar penaltis com a cabeça, e voltarei cá para ver os vossos aplausos. ;)

luissm disse...

"Eu acho que o Pereirinha tomou uma má decisão."

mk,

E da do Queiroz, o que é que achas?

Hugo Viseu disse...

Absolutamente ridícula a atitude do Queiroz.
É querer mostrar alguma coisa depois dos resultados ainda mais ridículos que tem obtido. É uma maneira fácil de dizer "estou aqui e sou um profissional sério". Vá aprender a treinar séniores, porque até agora o seu currículo é desastroso.
Quantos treinadores se poderão "orgulhar" de deixar uma selecção do top 10 mundial fora do Campeonato do Mundo?
No lugar destes dois jogadores, se me voltassem a chamar, mandava-os passear. Há de haver clubes que preferem jogadores que não são chamados pelas selecções.

Mr. Shankly disse...

"Não, não sou benfiquista, nem portista, nem sportinguista "

"Obrigada. Fica-lhe bem. Típico de benfiquista."

POrquê de benfiquista?

Nuno disse...

infante diz: "Num penalty o jogador que marca tem uns 90% de possibilidades de sucesso; é extraordinariamente desigual. Alargar mais esta margem com "experienciazinhas" é cobarde, venha de quem vier, Pereirinha, Henry ou Cruyff. É por isso que sou contra isto de ontem e contra a nojenta "paradinha" (cuja polémica deve estar aí a invadir Portugal a qualquer momento)."

Infante, segundo o teu raciocínio, em lances extraordinariamente desiguais, o jogador deve ter respeito pelo adversário e não alargar ainda mais essa desigualdade, certo? Então num lance de 2 jogadores isolados para o guarda-redes, é falta de respeito um jogador assistir o colega que fica com a baliza escancarada? Nessas condições um gajo tem de ter respeito pelo facto de estar frente a frente com o guarda-redes e concluir o lance de forma a não aumentar essa desvantagem para o guarda-redes? Não faz qualquer sentido. As regras existem e permitem este tipo de lances. No desempate por grandes penalidades, por exemplo, isso já não acontece. Aí sim, trata-se de um duelo entre um jogador de campo e um guarda-redes. Num penalty durante um jogo não. O avançado até pode chutar deliberadamente ao poste para um colega fazer a recarga. O que tu não pareces entender é que o futebol é um jogo de circunstâncias desiguais. Se assim não fosse, um aleijado poderia jogar à bola. Perante um coxo, um avançado está a faltar ao respeito se o ultrapassar em velocidade? Não está. Está a fazer valer a sua velocidade, coisa que o outro não tem. Em todos os lances, os jogadores fazem valer as suas características. A capacidade de improviso é uma dessas características. Inventar coisas novas, fazer coisas surpreendentes é uma forma de enganar o adversário. E no futebol isso é não só legítimo como perfeitamente normal. Um lance de bola parada trabalhado "à Camacho", como se usou dizer, é uma forma de enganar o adversário. Este tipo de penalty é uma forma de enganar o adversário. Aumenta a desigualdade? Claro. Mas uma equipa deve sempre tentar aumentar a desigualdade. E não te esqueças que um lance destes comporta riscos, como ficou visível. Portanto, não é só fazer aquilo e já está.

Quanto à paradinha, ainda é mais estúpido. É uma forma de evitar que o guarda-redes sintonize o seu tempo de salto com o tempo de chegada à bola do jogador. Não há ilegitimidade nenhuma nisso e nem sequer há regras concretas sobre isso. Fazer uma paradinha é tão legítimo quanto correr aos "s's", como bater de pé ao lado, como marcar como o Romagnoli, que vai muito devagar e depois dá dois passos rápidos para evitar que o guarda-redes tenha tempo de perceber o momento em que ele vai chegar à bola. E tu estás a falar como se só os avançados tivessem estas artimanhas. Se queres manter a pureza do penalty, terias de controlar (sempre) o avanço dos guarda-redes na altura do remate. Em 99% dos penalties os guarda-redes avançam um metro ou dois antes do avançado chutar. O que estão eles a fazer se não a encurtar a desvantagem que naturalmente têm num lance daquele tipo? É a forma deles tentarem ser bem sucedidos. Outra coisa que não percebo é o porquê de rejeitares paradinhas e outras coisas do género e não rejeitares penalties à Panenka, que são uma forma de iludir o guarda-redes. O penalty à Panenka consiste em chutar devagar, ou em fazer a bola percorrer uma trajectória maior (um arco) de modo a demorar mais tempo a chegar à baliza, quando se esperava um remate com força. Isto serve para enganar deliberadamente o opositor, para escapar às expectativas do guarda-redes. É igual, nesse sentido, a um penalty como o do Pereirinha. Se a diferença está no facto de manter o duelo individual entre avançado e guarda-redes, posso alegar que a paradinha também o faz. Se a diferença está no facto de não desacelerar a corrida (a paradinha nunca pode ser interromper por completo a corrida), tudo bem, mas então também não podes aceitar 90% dos penalties que se marcam, porque maior parte dos jogadores não corre de forma contínua para a bola. Enfim, é um chorrilho de incoerências.

pitons na boca diz: "não vi a jogada de Huelva que o Nuno fala, mas bem espero que a bola tenha percorrido todo o seu perimetro, se não estou enganado só assim se pode considerar a bola em jogo;"

O lance do Huelva não vi, ouvi apenas falar. Mas na mesma semana aconteceu em Roma e esse vi. A bola não percorreu todo o seu perímetro porque não precisa de fazê-lo; basta que seja tocada por um jogador para estar em jogo. O lance foi polémico porque o jogador da Roma que entretanto foi buscar a bola cruzou para a área e o Totti fez golo. Estavam todos desatentos de tal maneira que nem o árbitro se apercebeu do lance e invalidou o golo. Mais tarde, veio a dar-se razão aos jogadores da Roma, pois a bola estava, de facto, em jogo.

"Inventar rodriguinhos e florzinhas num penalty é estar a brincar com alguém"

Por que é que é isso e não é uma forma de enganar o adversário, que está à espera de uma coisa mais banal?

"no ultimo Brasil - Portugal se tivesse sido assinalado um penalty contra Portugal e os brasileiros tentassem fazer aquilo, das duas uma: ou ficava a rir alto e bom som e a chamar nomes a eles da figura de parvos por falharem; ou chamava todos os nomes por marcarem daquela forma e gozarem dos pobres portugueses que estavam a levar na pá forte e feio e ainda estavam a ser gozados."

Bom, há aqui uma coisa que eu não percebo, pitons. Dizes que "objectivo do futebol é marcar golos, só com eles se ganham os jogos." Se o objectivo é marcar golos e mais nada, humilhação é sofrer golos e mais nada. Se o objectivo do futebol são só os golos, não podes achar que uma equipa possa ser humilhada de outra forma que não sofrendo golos. Logo, o Brasil marcar assim ou marcar de outra maneira seria uma humilhação igual. Pá, o futebol é um jogo entre a nossa equipa e um adversário. Compete à nossa equipa jogar o melhor possível de modo a não ser gozada. Se o resultado estava desfavorável ao ponto de sermos gozados, temos de baixar a bolinha e aceitar essa tentativa de humilhação como uma consequência natural do facto de estarmos a ser claramente inferiores ao adversário.

"Nuno, bem espero que não sejas treinador. Repugna-me a ideia de treinadores (e há, infelizmente) que gostam que os seus jogadores finjam penaltis (ou faltas). E sim, os jogadores devem ser "condenados" por isso."

Pitons, mas há algum treinador no mundo que condene um jogador seu por fingir um penalty? E há algum jogador que finja um penalty e depois se arrependa? O engano faz parte do jogo. É certamente reprovável defender um jogador que o faça sistematicamente, mas não deixa de ser estúpido condenar quem o faz. Enquanto não se perceber que enganar o adversário é uma das armas mais usadas no futebol, não vamos lá. É que metade do sucesso de uma equipa depende da forma como esta consegue enganar o adversário. Condenar isto é absolutamente parvo.

Nuno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno disse...

Só mais um exemplo. Se não houvesse lei do fora-de-jogo, era "falta de respeito" colocar jogadores entre o último defesa e o guarda-redes? Claro que não, porque as regras contemplariam essa possibilidade. Isso aumentaria bastante as possibilidades de sucesso da equipa que ataca e aumentaria a desvantagem para quem defende. Mas seria legítimo. Recusar-se a aproveitar essa possibilidade porque isso tornaria o duelo de forças desigual é parvo. É como estar a jogar xadrez e chegar com um peão à última casa e não o querer trocar por uma rainha porque jogar com duas rainhas torna o duelo desfavorável para o adversário.

Bruno Ribeiro disse...

Dois erros estúpidos:

1) dos jogadores por quererem marcar a grande penalidade daquela forma, ainda por cima com total displicência;

2) do seleccionador por castigá-los por tomarem uma má decisão.

Pessoalmente acho que este tipo de lances não deveria ser permitido na marcação de uma grande penalidade. Como é permitido, não vejo problema nenhum em fazê-lo.

Quanto à paradinha, essa sim não é permitida e a sua execução dá origem à repetição da grande penalidade. Não há dúvidas aqui. A única dúvida consiste no critério usado por cada árbitro para classificar um movimento como paradinha.

Nuno disse...

Bruno, a regra é interromper a corrida. Agora, parece-me, dificilmente se chegará a consenso no que significa "interromper". E aqueles que batem sem balanço, como o faziam o Signori e o Claudio Lopez, por exemplo? Conta como paradinha? É que eles, no momento anterior ao remate, estão parados.

pitons na boca disse...

Ainda voltando ao lance do canto, apenas referi aquilo porque sei que no pontapé de saída do jogo é obrigatório a bola percorrer o seu perimetro para estar em jogo (ou pelo menso era). Sinceramente não me recordo se o mesmo é para os livres e cantos. :)

Sobre a arte de fingir penaltis e faltas, estamos em desacordo. Lembro-me bem do Robbie Fowler simular uma queda na area, o arbitro marcar penalty e o próprio Robbie Fowler ficar uns 2 minutos a tentar convencer o arbitro de que não tinha sido penalty. Como o arbitro não voltou atrás com a decisão, o próprio Fowler falhou propositadamente o penalty. Mentalidades diferentes. Duvido que por cá alguem se dignasse a ter consciencia para fazer uma coisa dessas. Eu aplaudo pessoas com caracter, tu pelos vistos achas parvo, são opiniões.

Confundes humilhação de marcar muitos golos com humilhação de faltar ao respeito com os outros, e quanto a isso não há nada a fazer. Não se trata de um jogador ser mais rápido que o outro, por isso não se pode comparar uma situação com outra.

Já agora, dar o toque para o lado naquele penalty não implica obrigatóriamente aumentar as probabilidades de golo, pode até diminuir: dá mais tempo ao GR para reagir e dar mais um ou dois passos à frente encurtando o espaço da baliza em relação ao adversário (e se for numa das situações dos 99% que falaste, então estamos conversados).

Acreditando nas estatisticas que foram apresentadas aí em cima, 90% dos penaltis acabam em golo. Quantos casos de penaltis conheces marcados como este que falamos? Eu conheço 3: um deu golo, os outros dois não. Se fizeres as contas dá 33,3% (apesar da amostragem ser evidentemente curta, dá para pensar se é boa ideia ou não). ;)

Uma coisa é certa, para alguem que se farta de dizer que o Liedson normalmente decide mal o que fazer com a bola, acho que neste caso poderias dizer o mesmo e não soar a contradição. :)

Mas continuo a dizer, o castigo aplicado é estupido e exagerado. Um "puxão de orelhas" (mesmo que em publico) e o retirar da braçadeira de capitão por 2 ou 3 joguinhos era mais que suficiente.

Nuno disse...

Sobre isso da bola ter de percorrer o seu perímetro, não sei se te lembras, mas há uns anos houve um polémica sobre isso em Portugal. Num livre indirecto dentro da área, o Simão apenas pisou a bola e o Miccoli (acho que era ele) rematou e fez golo. O árbitro anulou o lance, mas mais tarde veio-se a confirmar que o mesmo era legal, bastando que o jogador toque na bola para que esta esteja em jogo.

"Lembro-me bem do Robbie Fowler simular uma queda na area, o arbitro marcar penalty e o próprio Robbie Fowler ficar uns 2 minutos a tentar convencer o arbitro de que não tinha sido penalty."

Isto não é verdade. Ele não simula coisíssima nenhuma. O árbitro entende que é penalty e ele diz que não é. É muito diferente. Ele nunca teve intenção de enganar.

"Mentalidades diferentes. Duvido que por cá alguem se dignasse a ter consciencia para fazer uma coisa dessas. Eu aplaudo pessoas com caracter, tu pelos vistos achas parvo, são opiniões."

Lá está, a típica aversão à mentalidade portuguesa. Provincianismo no seu melhor. Os outros é que são bons e tal. Pá, eu também aplaudo demonstrações de carácter, mas não estou a avaliar jogadores pela sua boa conduta ou pelo cheiro a suor. Estou a falar do jogo em si. E no jogo o engano é uma estratégia. E uma das mais usadas. Em qualquer jogo, aliás. Não estou a dizer que um jogador que simule um penalty deva ser recompensado por ter tentado enganar o árbitro. Estou a dizer que essa é uma possibilidade do jogo. E eu não vejo ninguém a condenar um jogador que engane ostensivamente o árbitro e consiga um penalty dessa forma. Nunca aconteceu. Não é bonito, certamente, ganhar assim. Mas é possível. É só isto que estou a dizer. Moralmente reprovável ou não, é um recurso à disposição dos jogadores. E ninguém castiga jogadores por o fazerem. Um penalty marcado assim também é um recurso. Na minha opinião, perder com um penalty assim não é tão humilhante para uma equipa quanto empatar um jogo graças a um penalty inventado pelo Jardel a dois metros dos defesas do Benfica. Alguém condenou o Jardel por aquela simulação, por aquela falta de carácter? Então por que razão se haveria de condenar esta suposta "falta de carácter"? Faz parte do jogo. É assim. É como o golo com a mão do Maradona à Inglaterra. O que é que interessa se foi falta de carácter? Deu golo e ajudou a Argentina a vencer os ingleses. Alguém veio a condenar o Maradona por aquilo? Não, claro que não. Porquê? Porque faz parte do jogo. Quantos benfiquistas é que haverá que acham que não deveriam ter passado à final da Taça dos Campeões em 90, uma vez que o golo que deu essa passagem foi marcado com o braço? Nenhum. Porquê? Porque são benfiquistas, claro. Mas também porque aquilo faz parte do jogo. O Porto é campeão europeu em 87 graças a um lance em que o Madjer entra em campo quando ninguém estava à espera e cria um desequilíbrio decisivo. O futebol é feito de enganos. O engano faz parte do jogo e não tem de ser criticado. Pode e deve ser punido, mas haverá sempre a possibilidade de se enganar.

"Confundes humilhação de marcar muitos golos com humilhação de faltar ao respeito com os outros"

Não, não sou eu que confundo. És tu. Tu é que disseste que o objectivo do jogo era ganhar, era marcar golos. Logo, se dizes isto, só se pode ser humilhado sofrendo golos. Logo, é indiferente que o sejamos com golos normais ou com golos a desprezo.

"Já agora, dar o toque para o lado naquele penalty não implica obrigatóriamente aumentar as probabilidades de golo, pode até diminuir: dá mais tempo ao GR para reagir e dar mais um ou dois passos à frente encurtando o espaço da baliza em relação ao adversário (e se for numa das situações dos 99% que falaste, então estamos conversados)."

Sim, pode diminuir. Mas também pode aumentar. O efeito surpresa conta bastante.

"Uma coisa é certa, para alguem que se farta de dizer que o Liedson normalmente decide mal o que fazer com a bola, acho que neste caso poderias dizer o mesmo e não soar a contradição. :)"

Pá, não tem nada a ver tomar decisões em lances corridos ou tomar decisões em livres, cantos, penaltys, etc.

"Mas continuo a dizer, o castigo aplicado é estupido e exagerado. Um "puxão de orelhas" (mesmo que em publico) e o retirar da braçadeira de capitão por 2 ou 3 joguinhos era mais que suficiente."

O que é estúpido não é o castigo ter sido exagerado. O que é estúpido é haver pessoas que acham que há motivos para castigo.

Só mais uma pergunta. E penalties à Djalminha? Ele corria muito rapidamente para a bola e depois batia tão devagar que conseguia ir a correr e entrar praticamente ao mesmo tempo que a bola na baliza. Também são reprováveis? É que ele ao bater corria logo para ir buscar a bola dentro da baliza, revelando uma certeza na sua concretização que roçava a arrogância. Isto também é menosprezar o adversário? Também é falta de respeito?

Jorge disse...

Nuno

A razao pela qual eu como treinador castigaria os jogadores e simples.
A escolha dos marcadores dos penalties deve ser feita baseada na forma como os jogadores marcam penalties nos treinos e jogos. Ao escolher um jogador em detrimento de outro o treinador espera que o jogador tente marcar o penalty da mesma forma que o faz nessas observacoes. Admite-se espaco para variacoes mas o que aconteceu foi uma mudanca radical que pode nao ser considerada admissivel.
O caso do canto nao me parece ser uma boa comparacao, ja que e uma jogada que foi estudada no treino.
Um exemplo de comportamento espontaneo semelhante seria talvez o do guarda-redes sair da baliza para ir tentar marcar num lance de bola corrida quando o resultado esta 2-0 para a sua equipa.

Infante disse...

Nuno, definitivamente não estamos na mesma sintonia.

Tu continuas a comparar casos incomparáveis. Agora até falas em jogadores isolados perante o GR. Mas tem alguma coisa a ver ? Para o jogador ficar isolado, é porque trabalhou por isso, através da velocidade ou de desmarcação e combinação com um colega. Explica lá em que é que isto tem a ver com um caso de penalty ?

Concordo contigo na forma de enganar o adversário como sendo parte do jogo. Não creio que seja justo num lance tão especifico como o penalty.

Já agora, tu sabes o que é uma paradinha ? Vai ao Youtube e procura. É fazer uma simulação antes de rematar e assim saber para que o lado o GR vai. Isto é o cúmulo da cobardia no futebol. Para mim, é o equivalente de amarrar o GR a um dos postes. Não consigo conceber que um amante de futebol seja a favor da paradinha.

O penalty à Panenka é diferente. Não há tentativa de engano no momento do remate, simplesmente uma maneira diferente de marcar (que diga-se, até é mais difícil, e de piores resultados que o penalty normal). O que interessa aqui é o momento do remate.

Bruno Ribeiro, infelizmente no Brasil a paradinha é permitida, pelo menos tenho a visto muito. Esta polémica está aí a chegar, assim que um jogador brasileiro a importar para cá. Espero que não aconteça num jogo de Benfica, Porto ou Sporting, senão não se vai poder discutir sem as nojentas acusações de ser do rival.

Jorge disse...

Acho que o Robinho fez a paradinha no ultimo penalty que marcou... mas falhou.

Gabriel disse...

A regra diz que a bola só está em jogo depois de percorrer o seu diâmetro.

Luciano Rodrigues disse...

Essa do Simão com o Miccoli, se não me engano, foi golo e validado.

pitons na boca disse...

Obrigado, Gabriel.
Estava a confundir diâmetro com perímetro... "geografia" nunca foi o meu forte. :)

Jorge disse...

Nas leis do jogo da FIFA, que devem ser as mesmas, dizem que "The ball is in play when it is kicked and moves" acrescentando "forward" no caso do penalty e do recomeco do jogo com bola ao centro.

E ja agora tambem pode ser util "The ball must be placed inside the corner arc and is in play when it is kicked, therefore the ball does not need to leave the corner arc to be in play."

Nuno disse...

Luciano, foi invalidado, apesar de ter dado golo. E salvo erro nem sequer deu direito a repetição, tendo o árbitro interpretado como livre directo. O Simão até se veio queixar a dizer que eles sabiam perfeitamente que as regras vigentes diziam que a bola passava a estar em jogo ao mínimo toque, não necessitando de percorrer o seu diâmetro como na lei antiga.

Gabriel, estás equivocado.

Infante, esse tipo de paradinha, em que o jogador interrompe totalmente a corrida, parando ao pé da bola para esperar que o guarda-redes se atire, não é permitido. O que é permitido é, por exemplo, aquilo que o Simão faz. É uma espécie de paradinha, mas além de ser antes do momento do remate, não interrompe totalmente a corrida. Serve essencialmente para desconcentrar o guarda-redes, que está concentrado na marcha contínua do avançado para tentar atirar-se no momento certo. Esse tipo de coisas acho legítimo, embora seja muito difícil de dizer com certeza se o jogador interrompe a corrida ou não.