quinta-feira, abril 02, 2009

Quem disse que o futebol era complexo?

As discussões sobre o estado da selecção multiplicam-se por blogues, jornais, televisão e afins. Debatem-se os maus resultados e as diversas causas dos problemas. Infelizmente, descubro agora que tudo isto é em vão. José António Saraiva falou. E afinal isto arruma-se em meia dúzia de linhas:

"Qual é o problema da equipa de Carlos Queiroz? Para o percebermos, é necessário compará-la com a de Scolari. O brasileiro seguiu duas regras básicas: formar um grupo e criar uma mística. Pegou em 16 jogadores e disse-lhes: «Vocês são a Seleção, desenvolvam essa mentalidade». Por isso Scolari era tão avesso a mudanças. Aquele era o grupo dele. Os jogadores criaram rotinas dentro e fora do campo. E, dado não jogarem todo o ano juntos, esse conhecimento mútuo era fundamental."

"Scolari criou também uma mística de Seleção. Que envolvia os jogadores e os portugueses em geral, gerando um ambiente próprio à volta da equipa. «Um grupo e uma mística» - é isto que explica os êxitos de Scolari. Ora Queiroz destruiu ambas as coisas. Convocando hoje uns jogadores e amanhã outros, não criou um espírito de grupo; e o seu discurso soit disant «científico» não chega ao coração das pessoas".

Grupo. Mística. Metam isso na cabeça. Pois...

O que é um treinador de futebol? Uma espécie de leitor d"O Segredo" misturado com aqueles senhores de abdominais tonificados do TV Shop a impingirem-nos o "Butterfly Abs". O que interessa é acreditar. Essa coisa da táctica e dos discursos científicos são um aborrecimento de todo o tamanho.

katanec

5 comentários:

Saulo disse...

José António Saraiva esqueceu-se da substituição da Nossa Senhora de Caravaggio pela do King Camp Gillete como divindade. As rezas e preces deram lugar aos cortes(ou não!) das pilosidades faciais.

Em relação à coisa da táctica e dos discursos científicos, é verdade que são um aborrecimento de todo o tamanho quando os resultados não são os esperados/desejados.

A história do futebol é fértil em exemplos de treinadores de sucesso sem coisas ou discursos de qualquer tipo. Porque isso do científico é uma treta recente inventada por quem se dedica mais à retórica do que ao futebol.

Pedro disse...

"formar um grupo e criar uma mística"

É errado? Não é por aí que deve começar o trabalho de um seleccionador?

Um seleccionador tem trabalho diferente de um treinador de um clube.

Zé Luís disse...

katanec, só para acentuar como concordo contigo a 100%, o que creio ser a primeira vez. O último parágrafo está divinal e serve de carapuça aos saraivas que encharcam o País de "modelos" e "reflexões". Para quê as reflexões? É tão simples, de facto, que os ignaros da bola nem discutem. Apocalipse Now!

luis disse...

Katanec,

O significado atribuido a "grupo" é bem mais complexo do que aparenta - duvido que não o saibas.

Neste momento, na Selecção, não temos um grupo, temos um amontoado de jogadores. Há que ter capacidade para criar um "grupo", na verdadeira acepção da palavra. CQ não o tem feito.

O conceito de mística, em especial no contexto do mundo da bola, "ganha jogos". Com CQ, esse sentimento, claramente não existe.

Eu não tenho interesse em discutir a comparação entre CQ e Scolari. O que interessa, para mim, são os resultados. CQ tem o seu trabalho internacionalmente reconhecido, não precisa que digamos bem dele.

Está a falhar, claramente. Isso, infelizmente para ele e para nós, é o que interessa.

João disse...

Há uma questão que parece que ainda ninguém se lembrou, mas que para mim é a principal causa do estado actual da selecção portuguesa: a "geração de ouro" já era. E com isso creio que Portugal está a entrar num normal processo de decadência, que atinge normalmente todos os países pequenos que a certa altura conseguem misturar-se com os grandes (lembremo-nos da Hungria, da Bélgica, da Polónia, da Bulgária, etc). Portugal continua a ter jogadores interessantes, mas já não tem aquelas personalidades que teve até há pouco tempo. Como se viu na foleiríssima boca que o pseudo-líder Ronaldo mandou há uns dias. Por isso penso que este processo de decadência é perfeitamente normal, com Scolari, Queiroz ou outro qualquer e Portugal será em breve aquilo que era nos anos 80, uma selecção recheada de jogadores talentosos, mas sem a mesma disponibilidade psicológica que marcou a geração de Figo e companhia.