Dizia-me alguém que era uma fatalidade, um destino traçado pelo acórdão Bosman e que o caso português era apenas um exemplo de vários por toda a Europa, em que a qualidade é mais importante para todos do que as ligações naturais (incluindo adaptação e continuidade). O exemplo português era o seguinte:
os três primeiros classificados da liga portuguesa, nas primeiras 15 jornadas, usaram, em conjunto, 2 jogadores portugueses sub-23 (Nélson Oliveira, 13 minutos, e Pizzi, 178 minutos); em 15 jogos, o Benfica utilizou 2 jogadores portugueses (Oliveira e Amorim), o Porto usou 4 (Rolando, Moutinho, Micael e Varela) e o Braga utilizou 7 (Quim, Nuno André Coelho, Custódio, Viana, Barbosa, Nuno Gomes e Pizzi). E os primeiros do resto da Europa? Temos que ver como se comportam pois são os clubes que podem comprar quem quiserem no planeta.
Serie A Em Itália, confirma-se a tendência de não se apostar em jovens italianos. Os três primeiros, Juventus, Milan e Udinese deram, em conjunto, como os clubes portugueses, utilizações secundárias, ridículas, apenas a 3 jogadores sub-23 italianos, Marrone, Battochio e Fabbrini. No entanto, quando chega a hora da utilização de jogadores italianos, as coisas são um pouco diferentes: a Juventus usou 16 italianos, o Milan utilizou 13 e a Udinese 7.
Premier League Um dos exemplos usado para ilustrar o fim do jogador local foi o Tottenham (estranhamente, dado que se trata de um regular fornecedor da selecção inglesa, mesmo quando esta passou tempos duros por não haver base de recrutamento a jogar ao mais alto nível). O "exemplo" usou até agora, na liga inglesa, 10 jogadores ingleses, 3 deles sub-23 ingleses (Kyle Walker, que é titular indiscutível, Jake Livermore e Danny Rose), e qualquer deles jogou mais tempo do que Pizzi e Nélson Oliveira juntos. O Manchester City que compra tudo o que mexe, às dezenas de milhões de euros de cada vez, usou 8 ingleses, sendo um deles sub-23, o titular Micah Richards. O United usou 14 jogadores ingleses, sendo 7 destes sub-23 (Jones, Evans, Welbeck, Smalling, Cleverly, Fryers e Keane). Portanto nos três primeiros classificados foram utilizados 11 ingleses sub-23, que fizeram, em conjunto, 122 jogos, sendo que 6 são utilizados com enorme regularidade.
Ligue 1 Em França optei por retirar todos os jogadores com dupla nacionalidade (porque não queria perder tempo a ver em que selecção jogavam). Do universo dos 3 primeiros, PSG, Montpellier e Lille, tirei mais de 5 jogadores, muitos deles sub-23. Qual foi o resultado final, mesmo assim? O PSG utilizou 12 jogadores franceses (sendo 2 deles sub-23, Sakho e Bahebeck, durante 1006 minutos). O Montpellier usou 15 franceses, 7 deles sub-23 (Yanga-Mbiwa, Bocaly, Cabella, Stambouli, Tinhan, Fana e Fodé Koita), dando a estes últimos 2849 minutos. Por fim, o Lille quase ignora o sub-23 francês (deu apenas 96 minutos de utilização a Rodelin), mas utilizou 9 franceses.
La Liga É a melhor liga do mundo. Não choca dizer que tem as duas melhores equipas do mundo. Muita gente defende mesmo que tem a melhor equipa da história do futebol. O que é que faz, garantidamente, uma das melhores equipas da história do futebol? Usa 13 espanhóis, 5 dos quais sub-23, um chama-se Busquets (os outros Cuenca, Fontas, Thiago Alcântara e Deulofeu). Todos juntos fizeram 2534 minutos. O Real, provavelmente para combater isto (e falhar até agora), porque não costuma ser assim, não usou sub-23 espanhóis. Mas usou 7 espanhóis (mais do que Porto e Benfica juntos relativamente aos portugueses). O Valência, terceiro, para além de usar 13 espanhóis, deu 3088 minutos a 6 jogadores sub-23 que podem representar a selecção: Jordi Alba, Alcacer, Bernat, Canales, Parejo e Victor Ruiz.
Bundesliga Para terminar, o verdadeiro exemplo. Estava há pouco a discutir na caixa de comentários se o Caetano era bom ou não para jogar no Paços. Se os portugueses são ou não são bons. Na dúvida nãos e utilizam e ficamos sem saber. Na Alemanha, na dúvida, utilizam-se os jogadores alemães, os jovens jogadores alemães e ganham-se fornadas atrás de fornadas de selecções de topo mundial. Muitos já são estrelas do futebol mundial. Porquê? Só porque são todos muito bons? Porque são melhores do que os outros? Não. Porque jogam. É impressionante: no Bayern, jogaram 8 alemães, 6 dos quais sub-23 a quem se deram 5638 minutos (Boateng, Contento, Badstuber, Thomas Muller, Kroos, Petersen); no Moenchengladbach jogaram 9 alemães, 7 dos quais sub-23, a quem foi possível jogar 7200 minutos (Stegen, Zimmerman, Jantschke, Herrmann, Rupp, Marco Reus e Neustadter); no Dortmund jogaram 11 alemães, dos quais 8 sub-23, que jogaram 7293 minutos (Hummels, Lowe, Schmelzer, Leitner, Gotze, Grosskreutz, Gundogan e Bender). Como a jornada ia a meio e podia não ficar com os 3 primeiros, fiz também o Schalke: 9 alemães, dos quais 7 sub-23, com 5813 minutos.
Os exemplos Resumindo, os três primeiros de Portugal usaram 13 portugueses. Os de Itália usaram 36, os de Inglaterra 32, os de França 36, os de Espanha 33 e os da Alemanha 28. Quanto aos sub-23 locais, 2 em Portugal, 3 em Itália, 11 em Inglaterra, 10 em França, 11 em Espanha, 21 na Alemanha. São campeonatos menos competitivos ou com menos qualidade do que o português? Bosman?
O acórdão sobre jogadores comunitários (que quase não temos)? Experimentem todas as outras perguntas agora. Juntem-lhe os valores crescentes dos passivos e dos emprésimos bancários das maiores SAD, as fases finais de juniores jogadas por estrangeiros e vão ver como isto vai ser lindo.
master kodro