
Título: "Bartleby"
Original: "Bartleby the Scrivener: a Story of Wall Street" (1853)
Tradução: Gil de Carvalho
Editora: Assírio & Alvim, aqui
"- As cópias! As cópias! - exclamei eu, apressadamente. - Vamos conferi-las.
- Ali! E estendi-lhe uma quarta cópia.
- Preferia não o fazer - respondeu, desaparecendo calmamente por trás do biombo.
(...)
-Por que se recusa?
- Preferia não o fazer.
(...) Comecei a argumentar com ele.
- São as suas próprias cópias que vamos conferir. É trabalho que lhe poupamos, visto que bastará conferir uma vez. É prática comum. Todo o copista é obrigado a ajudar a conferir as suas próprias cópias. Não é assim? Mas não fala? Responda!
- Preferia não o fazer - respondeu numa voz aflautada. Pareceu-me que, enquanto eu lhe falava, ele ia considerando cuidadosamente tudo quanto eu dizia; apreendendo completamente o sentido; e sem poder negar a inevitável conclusão; mas, ao mesmo tempo, uma qualquer consideração suprema o levava a responder como tinha feito."
O que é que Carlos Queiroz pode fazer quando o melhor jogador do Mundo FIFA 2008 e melhor marcador da Premier League 2007/2008 (aquele rapaz modesto que usa a braçadeira de capitão e que acha que faz mais do que os outros), Hugo Almeida, Nani, Ricardo Quaresma, Simão Sabrosa, Danny e Nuno Gomes (todos os avançados utilizados neste período) não conseguem ter um rasgo decisivo que os leve a marcar um golo nos últimos três jogos de qualificação? O que fazer quando os avançados que o fazem há anos regularmente em todo o lado por onde passam, parecem preferir não o fazer apesar da quantidade e qualidade das oportunidades criadas? Desta vez, Danny, magistralmente isolado por Tiago, disparou para as núvens. Ronaldo, a meio metro da linha de golo, cabeceou por cima. Deco falhou o alvo por centímetros. O que fazer? Sinceramente, não sei.
Sei o que Queiroz não devia ter feito. Sei que não devia ter tirado Tiago do campo, precisamente quando este evidenciava ser o jogador mais inspirado para furar a muralha adversária. Sei que, quando o jogo de Portugal foi canalizado pelos laterais e extremos e acabou na maior parte das vezes com cruzamentos para a área (depois de jogadas muito bem trabalhadas), Danny não era o homem para terminar esse serviço. Sei que, com a lesão de Bosingwa, colocando Rolando em campo e Ricardo Carvalho à direita (quando havia Nélson para lançar), não podia haver a mesma intensidade ofensiva no flanco direito.
Sei também que era prudente tentar um plano B, que não se limitasse a trocar peça por peça sem abanar, de alguma forma, a estrutura. Queiroz fez uma abordagem tipicamente scolariana, perante um cenário de dificuldades, pelo que me custam a compreender algumas críticas quando acompanhadas de saudosismos.
Mas o que me interessa mais é que Portugal jogou bem contra a Suécia e isso é um bom sinal para o futuro. Defrontou uma selecção física e tacticamente forte - que não pensou duas vezes em colocar oito/nove jogadores dentro e em torno da área - e teve a paciência suficiente para trocar a bola criteriosamente e usar os flancos (muito bem Bosingwa e Duda) para criar algumas oportunidades de golo flagrantes (tal como acontecera contra os albaneses), suficientes para ganhar merecidamente. E jogou bem. Jogou bem e chegou a entusiasmar (embora tenha também apresentado períodos de um tédio incompreensível) como naquela jogada de entendimento entre Ronaldo, Danny (ou Tiago?) e Simão, nos passes longos de Meireles na primeira parte (à qual se seguiu uma exibição ofensiva desastrada na segunda), nos passes à Deco de Tiago (que o próprio Deco não conseguiu fazer, depois) ou em cada arrancada de Bosingwa na primeira parte.
Agora acabou a margem de erro. E acabou cedo, tal como na anterior qualificação (relembram-se os mais esquecidos que, ao fim de 10 jogos, na qualificação passada, Portugal estava atrás da Polónia e da Finlândia, a jogar miseravelmente mal, depois de empates com a Arménia, Polónia e Sérvia), face à incapacidade de ganhar às equipas mais fortes do grupo. Apesar do que se vai escrevendo, a qualificação ainda não acabou. E não é preciso assim tanto. Basta que prefiram fazê-lo.
master kodro



