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segunda-feira, março 30, 2009

Bookmarks # 5 - Herman Melville (1819-1891)


Título: "Bartleby"

Original: "Bartleby the Scrivener: a Story of Wall Street" (1853)

Tradução: Gil de Carvalho

Editora: Assírio & Alvim, aqui


"- As cópias! As cópias! - exclamei eu, apressadamente. - Vamos conferi-las.
- Ali! E estendi-lhe uma quarta cópia.
- Preferia não o fazer - respondeu, desaparecendo calmamente por trás do biombo.
(...)
-Por que se recusa?
- Preferia não o fazer.
(...) Comecei a argumentar com ele.
- São as suas próprias cópias que vamos conferir. É trabalho que lhe poupamos, visto que bastará conferir uma vez. É prática comum. Todo o copista é obrigado a ajudar a conferir as suas próprias cópias. Não é assim? Mas não fala? Responda!
- Preferia não o fazer - respondeu numa voz aflautada. Pareceu-me que, enquanto eu lhe falava, ele ia considerando cuidadosamente tudo quanto eu dizia; apreendendo completamente o sentido; e sem poder negar a inevitável conclusão; mas, ao mesmo tempo, uma qualquer consideração suprema o levava a responder como tinha feito."

O que é que Carlos Queiroz pode fazer quando o melhor jogador do Mundo FIFA 2008 e melhor marcador da Premier League 2007/2008 (aquele rapaz modesto que usa a braçadeira de capitão e que acha que faz mais do que os outros), Hugo Almeida, Nani, Ricardo Quaresma, Simão Sabrosa, Danny e Nuno Gomes (todos os avançados utilizados neste período) não conseguem ter um rasgo decisivo que os leve a marcar um golo nos últimos três jogos de qualificação? O que fazer quando os avançados que o fazem há anos regularmente em todo o lado por onde passam, parecem preferir não o fazer apesar da quantidade e qualidade das oportunidades criadas? Desta vez, Danny, magistralmente isolado por Tiago, disparou para as núvens. Ronaldo, a meio metro da linha de golo, cabeceou por cima. Deco falhou o alvo por centímetros. O que fazer? Sinceramente, não sei.

Sei o que Queiroz não devia ter feito. Sei que não devia ter tirado Tiago do campo, precisamente quando este evidenciava ser o jogador mais inspirado para furar a muralha adversária. Sei que, quando o jogo de Portugal foi canalizado pelos laterais e extremos e acabou na maior parte das vezes com cruzamentos para a área (depois de jogadas muito bem trabalhadas), Danny não era o homem para terminar esse serviço. Sei que, com a lesão de Bosingwa, colocando Rolando em campo e Ricardo Carvalho à direita (quando havia Nélson para lançar), não podia haver a mesma intensidade ofensiva no flanco direito.

Sei também que era prudente tentar um plano B, que não se limitasse a trocar peça por peça sem abanar, de alguma forma, a estrutura. Queiroz fez uma abordagem tipicamente scolariana, perante um cenário de dificuldades, pelo que me custam a compreender algumas críticas quando acompanhadas de saudosismos.

Mas o que me interessa mais é que Portugal jogou bem contra a Suécia e isso é um bom sinal para o futuro. Defrontou uma selecção física e tacticamente forte - que não pensou duas vezes em colocar oito/nove jogadores dentro e em torno da área - e teve a paciência suficiente para trocar a bola criteriosamente e usar os flancos (muito bem Bosingwa e Duda) para criar algumas oportunidades de golo flagrantes (tal como acontecera contra os albaneses), suficientes para ganhar merecidamente. E jogou bem. Jogou bem e chegou a entusiasmar (embora tenha também apresentado períodos de um tédio incompreensível) como naquela jogada de entendimento entre Ronaldo, Danny (ou Tiago?) e Simão, nos passes longos de Meireles na primeira parte (à qual se seguiu uma exibição ofensiva desastrada na segunda), nos passes à Deco de Tiago (que o próprio Deco não conseguiu fazer, depois) ou em cada arrancada de Bosingwa na primeira parte.

Agora acabou a margem de erro. E acabou cedo, tal como na anterior qualificação (relembram-se os mais esquecidos que, ao fim de 10 jogos, na qualificação passada, Portugal estava atrás da Polónia e da Finlândia, a jogar miseravelmente mal, depois de empates com a Arménia, Polónia e Sérvia), face à incapacidade de ganhar às equipas mais fortes do grupo. Apesar do que se vai escrevendo, a qualificação ainda não acabou. E não é preciso assim tanto. Basta que prefiram fazê-lo.

master kodro

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Bookmarks # 4 - Salman Rushdie (1947-)

Título: "Os Versículos Satânicos"

Original: "The Satanic Verses" (1988)

Tradução: Ana L. Faria /M. Serras Pereira

Editora: Dom Quixote, aqui, de onde foi desviada a capa


"Entre as palmeiras do oásis Gibreel aparecia ao Profeta e punha-se a despeja regras, regras, regras até os fiéis só terem vontade de dizer que já chegava de revelações, disse Salman, regras para tudo e mais alguma coisa, se um homem se peida deve voltar o rosto para o lado do vento, e havia também uma regra sobre a mão a utilizar para limpar o rabo (…) A revelação – a recitação – dizia aos fiéis quanto haviam de comer, com que profundidade haviam de dormir, que posições sexuais tinham recebido sanção divina, de forma que todos ficaram a saber que a sodomia e a posição dos missionários eram aprovadas pelo arcanjo, enquanto as figuras proibidas incluíam todas aquelas em que a fêmea ficasse por cima. Gibreel fez ainda uma lista dos temas autorizados e interditos de conversa, e assinalou as partes do corpo que não podiam ser coçadas por muito insuportável que fosse a comichão que aí se sentisse."

Para além das obras, que não espelham o mesmo objecto do Corão (como se pode ler no texto)mas que lhe captam a forma na totalidade (quem já passou os olhos pelo Corão pode confirmá-lo), Rushdie estendeu à realidade as suas críticas às actuais leituras literais da lei divina muçulmana, lançando a necessidade de uma interpretação à luz da actualidade das leis ditadas no século VII.

Em cima expostos no limite (ao contrário do que se segue), os perigos das leituras literais das leis e regulamentos - quando se põe um problema de interpretação, obviamente - aumentam quando o legislador é inábil e, como tanta vez sucede no nosso país (e garantidamente não é só no futebol), incompetente e desconhecedor da realidade prática. É por isso que há inúmeras rectificações, esclarecimentos, recomendações, interpretações jurídicas díspares, pareceres e adaptações. Vem isto a propósito da questão da Taça da Liga em que uma corrente de opinião quer fazer valer um conceito que caiu em desuso para uma expressão que tem um significado corrente distinto há mais de 30 anos, como aqui defendemos. Mas não só.

O problema também pode vir de quem interpreta as interpretações e das motivações de quem o faz. Aqui há uns tempos, tentei aqui discutir a lei que define quando é falta tocar a bola com a mão. A lei apenas foca a intenção. Imagino que terão existido recomendações - que desconheço, já as tentei procurar e não encontrei, nem ninguém mas conseguiu indicar - que envolvam conceitos como a posição natural (falou-se na altura sobre isso, embora seja um conceito bizarro, quase do domínio de limpar o rabo com a mão certa), ou a vantagem para quem joga com a mão - mas sem provas escritas para qualquer destes critérios secundários que ajudariam, na prática, a resolver as questões que são complexas, porque imediatas, dentro do campo.

Pedro Henriques, face ao coro de críticas generalizado, defendeu-se com o critério da vantagem evidente para o "prevaricador" por desvio fundamental da direcção da bola. Eu acho que se perdeu uma oportunidade para discutir a regra, porque este critério secundário (que presumo que não foi inventado), tem tudo para ser considerado como válido porque abarca todas as situações de que me consigo lembrar e acaba com a maior parte das dúvidas. Assim o queiram as pessoas, algo de que duvido, muito sinceramente.

Vou repetir-me quando defendo que não sei se as pessoas querem discutir a regra e todas as suas vertentes ou se preferem ter uma questão dúbia entre mãos para poderem utilizá-la a seu bel prazer conforme a ocasião se apresentar para as suas cores. Desde que vi alguém que se apresenta como advogado pegar no texto "O Belenenses está no seu direito de contestar o alinhamento das meias-finais da Taça da Liga. Não acho que tenha razão jurídica, mas não deixa de ter esse direito, com base na asneira efectuada." e retirar-lhe a parte que está a bold (que a enquadra e cuja omissão lhe muda o sentido por completo) para poder insultar o seu autor, já acredito em tudo e cada vez mais me convenço que há realidades que prefiro desprezar.

ps - Agradeço, novamente, a quem me chamou à atenção. Aqui não entram mais.

master kodro

quarta-feira, outubro 01, 2008

Bookmarks # 3 - Stefan Grabinski (1887-1936)


Título: "O demónio do movimento" (2003)

Original: "Demon ruchu" (1919)

Tradução: Maria José Charchalis/Wojciech Charchalis

Ilustrações: Pawel Dunin-Wasowicz

Editora: Cavalo de Ferro, aqui, de onde saiu a foto


O que é que um livro de contos de um obscuro escritor polaco, ignorado pelos seus contemporâneos, poderá ter de relevante para a narração da real sova que o Porto levou ontem em Londres? Vamos, sem demoras, para a contra-capa:

"Quando o comboio apareceu e se popularizou como novo meio de transporte surgiram inúmeros tratados médico-científicos que discutiam a possibilidade de o ser humano não ser feito para as "velocidades estonteantes" que atingia... Essas velocidades podiam levar à loucura ou a doenças graves..."

No conto "Estranha estação", Grabinski volta a descrever a dinâmica exibida pelo Arsenal, em comparação com a do Porto:

"Assim corria o "Infernal" as costas mediterrâneas desde há cinco anos, isto é, desde o dia em que um globe-trotter londrino teve a ideia de pôr em movimento um comboio deste tipo (...) a tarefa era gigantesca porque, devido à anormal velocidade do futuro comboio, o seu trajecto não podia, em nenhum sítio, cruzar-se com o das linhas existentes"

Os contos que compõem este livro falam de comboios do futuro (atenção que estamos em 1919), mas também de grandes descarrilamentos e de comboios desaparecidos, como no conto "Sinais":

"-(...) Circula entre os ferroviários como a história de um comboio que desapareceu.
- Como desapareceu? Evaporou-se ou quê?
- Não é isso. Desapareceu - não quer dizer que deixou de existir. Desapareceu - quer dizer: não existe para o olho humano, aparentemente - na realidade existe; está algures; mas não se sabe onde."

Assim mais ou menos como o Porto das épocas anteriores. Está algures, mas não se sabe onde. Certamente que não é aquele que passou por Londres na última noite e que se tem exibido na nossa Liga. Mas o grande ponto em comum com esta realidade está logo a seguir, no mesmo conto, com a explicação para o sucedido, o misterioso desaparecimento:

"Este fenómeno viria a ser provocado pelo chefe de uma estação, um personagem estranho, talvez um bruxo. Conseguiu este feito graças à combinação de sinais que se sucediam. (...) Estava a brincar com os sinais que combinava em formas diversas, mudando a sua sequência e valor. Até que uma vez, depois de lançar uma série de sete sinais deste tipo, o comboio que entrava na estação a toda a velocidade, de repente levantou-se da linha vacilou umas tantas vezes no ar e, inclinando-se para um lado, desapareceu no espaço"

Jesualdo Ferreira (que de bruxo não tem nada), de facto, anda a experimentar combinações de sinais em demasia, brincando com uma estrutura que era sólida, mas que não sobrevive a grandes razias e muito menos à falta de qualidade de algumas peças da engrenagem. Se é que se pode falar de uma engrenagem (pelo menos oleada não está de certeza), porque depois de lançar uma série de sete novos jogadores para um jogo deste tipo (Sapunaru, Rolando, Benitez, Fernando, Guarin, Tomás Costa, Rodriguez), o mais difícil da época até ao momento, Jesualdo tinha que prever que um desaparecimento deste género poderia acontecer.

No conto, o ferroviário enlouqueceu e não mais se encontrou a chave de sinais inversa à original que tornaria o comboio visível. Veremos quanto tempo o presidente da (F)CP vai aguentar isto (e esperar que não recite Grabinski).

master kodro

quarta-feira, setembro 24, 2008

Bookmarks # 2 - Miguel de Cervantes (1547-1616)

Título: "Dom Quixote de la Mancha" (2005)

Original: "El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha" (1605/1615)

Tradução: Miguel Serras Pereira

Ilustrações: Salvador Dalí

Editora: Dom Quixote, aqui, de onde saiu a foto



"- Que gigantes? - disse Sancho Pança.
- Aqueles que ali vês - respondeu seu amo - com os braços compridos; que soem alguns tê-los de quase duas léguas.
-Olhe Vossa Mercê - respondeu Sancho - que aqueles que ali se mostram não são gigantes, mas sim moinhos de vento, e o que neles parecem braços são as aspas, que volteadas pelo vento, fazem andar a pedra do moinho.
- Bem parece - respondeu Dom Quixote - que não és versado nisto de aventuras: são gigantes
(...)
E dizendo isto (...) bem coberto com sua rodela, de lança em riste, arremeteu a todo o galope de Rocinante e investiu contra o primeiro moinho que lhe estava diante; e dando-lhe uma lançada na aspa, devolveu-lha o vento com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando atrás de si o cavalo e o cavaleiro, que foi rolando muito maltratado pelo campo."

Com a ponta de uma lança se iniciou mais um combate contra moinhos de vento, também aqui. Não seria mais prudente questionar a razão por que um ponta-de-lança joga numa ponta e não ao meio, até porque, partindo da mesma fonte, a wikipédia, isto é uma lança e não um tridente (ora aí está outra adaptação feliz do futebolês de Portugal), e muito menos as suas pontas... Mas este, apesar de ser o ponto de partida, não é o modelo, porque este acabou exemplarmente.

Mas e os outros combates contra moinhos de vento que dilaceram lanças? Ontem voltei a ler que o meu clube foi prejudicado porque se aliou ao Benfica e Miguel Sousa Tavares "avisou" que o Vitória ia pagar por isso, o que é extraordinário porque veio não de um adepto do meu clube mas de um adepto de outro. Feliz de quem, como eu, tem um companheiro de clube que pensa como eu, aqui, e que escreve coisas como "Expulsões provocadas por agressões, sem bola, a adversários em lances de meio-campo são uma falta de respeito para com o clube e os adeptos. Nestas alturas, o clube tem de ter mão pesada para com os prevaricadores. Quanto aos adeptos, é curioso que depois de uma exibição paupérrima do Vitória tenham libertado a sua "fúria" para com a equipa... de arbitragem."

Esta teoria da conspiração (tal como a outra da "vingança da UEFA", quando, em 3 jogos europeus, o Vitória já beneficiou de 2 penalties) sofre de um problema de base. É que, seguindo o modelo preconizado, o Benfica teria que ser o primeiro prejudicado pelas arbitragens, da mesma forma que o Vitória o teria sido, este fim-de-semana, segundo os defensores da teoria. O problema é que, este fim-de-semana, até há lances semelhantes para análise e sabemos como foram julgados, não sabemos?

Não estarão a escolher mal os combates? E a gastar lanças?

master kodro

terça-feira, julho 22, 2008

Bookmarks # 1 - Albert Cossery (1913-2008)


Título
: "A Violência e o Escárnio"

Original: "La Violence et la Dérision" (1964)

Tradução: Júlio Henriques (1999)

Editora: Antígona, aqui, de onde saiu a foto


Deixando o 'infame' de parte, e com a ajuda de textos como este, tentem descobrir, nestas palavras do grande Cossery, alguma semelhança com a actualidade do futebol nacional:

"As servis bajulações dos jornais a respeito do governador ultrapassavam tudo quanto fora feito até então no domínio da baixeza e do servilismo. Graças à imprensa, toda a cidade cantava loas ao infame. Por todo o lado, só se ouvia falar das suas iniciativas e da sua vontade de vencer. Até a sua qualidade de antigo general era posta em evidência como se a cidade fosse um campo de batalha onde o governador movia uma guerra vitoriosa. Foi esta situação que Heikal decidiu explorar. A astúcia consistia em ir seguindo o movimento, ultrapassando na sua parvoíce os mais excitados acólitos do governador."

Confessamos que a nossa intenção, com o Rui Costa Report, era a de seguir a estratégia descrita. Contudo, concedemos que não conseguimos sequer acompanhar - quanto mais ultrapassar - a bajulice dos media portugueses relativamente à figura do grande Maestro, dado que ficamos muito aquém da astúcia de Heikal. Ou da parvoíce dos media.

Vítima da sua vaidade (como único grande defeito conhecido, não é cruz grave), Rui - eu sei que ele não se importa - vai servindo, de bolsos natalícia e estranhamente cheios, de escudo para um presidente que continua a sua patética caminhada pelo futebol português, como tão bem aqui o expressa Luís Sobral. Já eu prefiro escudar-me nas palavras magníficas do mestre do escárnio e da indolência - uma frase por dia, um livro a cada nove anos - para observar o 'governador' (agora) Vieira, através dos olhos de Heikal:

"Heikal via-se de tal modo subjugado pela insolente estupidez do homem que acabou por ter por ele uma inegável paixão. Aquele ser atingia um tal grau de trágico disparate que uma pessoa se via obrigada a respeitá-lo. Sozinho, representava de forma magistral a parvoíce dirigente do mundo inteiro. O interesse quase sádico que Heikal mostrava por este espécime chegava a assustá-lo, parecendo-lhe que o homem fora nomeado governador para sua satisfação pessoal."

master kodro