segunda-feira, janeiro 26, 2009

Bookmarks # 4 - Salman Rushdie (1947-)

Título: "Os Versículos Satânicos"

Original: "The Satanic Verses" (1988)

Tradução: Ana L. Faria /M. Serras Pereira

Editora: Dom Quixote, aqui, de onde foi desviada a capa


"Entre as palmeiras do oásis Gibreel aparecia ao Profeta e punha-se a despeja regras, regras, regras até os fiéis só terem vontade de dizer que já chegava de revelações, disse Salman, regras para tudo e mais alguma coisa, se um homem se peida deve voltar o rosto para o lado do vento, e havia também uma regra sobre a mão a utilizar para limpar o rabo (…) A revelação – a recitação – dizia aos fiéis quanto haviam de comer, com que profundidade haviam de dormir, que posições sexuais tinham recebido sanção divina, de forma que todos ficaram a saber que a sodomia e a posição dos missionários eram aprovadas pelo arcanjo, enquanto as figuras proibidas incluíam todas aquelas em que a fêmea ficasse por cima. Gibreel fez ainda uma lista dos temas autorizados e interditos de conversa, e assinalou as partes do corpo que não podiam ser coçadas por muito insuportável que fosse a comichão que aí se sentisse."

Para além das obras, que não espelham o mesmo objecto do Corão (como se pode ler no texto)mas que lhe captam a forma na totalidade (quem já passou os olhos pelo Corão pode confirmá-lo), Rushdie estendeu à realidade as suas críticas às actuais leituras literais da lei divina muçulmana, lançando a necessidade de uma interpretação à luz da actualidade das leis ditadas no século VII.

Em cima expostos no limite (ao contrário do que se segue), os perigos das leituras literais das leis e regulamentos - quando se põe um problema de interpretação, obviamente - aumentam quando o legislador é inábil e, como tanta vez sucede no nosso país (e garantidamente não é só no futebol), incompetente e desconhecedor da realidade prática. É por isso que há inúmeras rectificações, esclarecimentos, recomendações, interpretações jurídicas díspares, pareceres e adaptações. Vem isto a propósito da questão da Taça da Liga em que uma corrente de opinião quer fazer valer um conceito que caiu em desuso para uma expressão que tem um significado corrente distinto há mais de 30 anos, como aqui defendemos. Mas não só.

O problema também pode vir de quem interpreta as interpretações e das motivações de quem o faz. Aqui há uns tempos, tentei aqui discutir a lei que define quando é falta tocar a bola com a mão. A lei apenas foca a intenção. Imagino que terão existido recomendações - que desconheço, já as tentei procurar e não encontrei, nem ninguém mas conseguiu indicar - que envolvam conceitos como a posição natural (falou-se na altura sobre isso, embora seja um conceito bizarro, quase do domínio de limpar o rabo com a mão certa), ou a vantagem para quem joga com a mão - mas sem provas escritas para qualquer destes critérios secundários que ajudariam, na prática, a resolver as questões que são complexas, porque imediatas, dentro do campo.

Pedro Henriques, face ao coro de críticas generalizado, defendeu-se com o critério da vantagem evidente para o "prevaricador" por desvio fundamental da direcção da bola. Eu acho que se perdeu uma oportunidade para discutir a regra, porque este critério secundário (que presumo que não foi inventado), tem tudo para ser considerado como válido porque abarca todas as situações de que me consigo lembrar e acaba com a maior parte das dúvidas. Assim o queiram as pessoas, algo de que duvido, muito sinceramente.

Vou repetir-me quando defendo que não sei se as pessoas querem discutir a regra e todas as suas vertentes ou se preferem ter uma questão dúbia entre mãos para poderem utilizá-la a seu bel prazer conforme a ocasião se apresentar para as suas cores. Desde que vi alguém que se apresenta como advogado pegar no texto "O Belenenses está no seu direito de contestar o alinhamento das meias-finais da Taça da Liga. Não acho que tenha razão jurídica, mas não deixa de ter esse direito, com base na asneira efectuada." e retirar-lhe a parte que está a bold (que a enquadra e cuja omissão lhe muda o sentido por completo) para poder insultar o seu autor, já acredito em tudo e cada vez mais me convenço que há realidades que prefiro desprezar.

ps - Agradeço, novamente, a quem me chamou à atenção. Aqui não entram mais.

master kodro

20 comentários:

galvao99 disse...

Não há país no mundo onde mais oportunidades tenham existido para se criar jurisprudência na área da arbitragem.

Podemos falar dos atrasos para o guarda-redes (com a célebre interpretação dada pelo presidente dos árbitros, e entretanto banida);

Podemos falar dos processos sumarissimos (com tantas cambalhotas de aplicaçao ao longo dos ultimos anos que já ninguem sabe qual o regime actualmente vigente);

Podemos falar do contacto dos avançados com o guarda-redes na pequena área (que antes exigia mais do que contacto e que agora parece que já nem contacto exige);

Podemos falar dos agarroes e encostos dentro das áreas, alguns punidos com grande penalidade, outros nem por isso apesar de na jogada o avançado acabar com um traumatismo craniano resultado de uma cabeçada precedida de uma cotovelada nas costas);

Podemos falar das entradas por trás à cabeçada e pontapé, pisoes e cotoveladas, normalmente levadas a cabo pelos mesmos jagunços, e com a generalidade dos comentadores com a frase tipica "nao houve intencionalidade" como se todos fossemos idiotas e descerebrados;

Ou seja, os que sao beneficiados calam-se ou nem por isso; os concorrentes directos dos beneficiados falam por falar, para fazer o choradinho do quem nao chora nao mama; e siga a banda que a culpa é so de árbitros e de fiscais de linha.

No fundo, nao ha interesse em mudar nada de fundo. Só pela rama, para aproveitar as circunstancias.

Mas tambem é por isso que em Inglaterra os estádios estao cheios e cá é o que se vê. O contrário é que nao faria sentido.

Luciano Rodrigues disse...

MK, sabes que historicamente um dos motivos do atraso de Portugal é a elevada litigância social? Está-nos no sangue.

A lei deveria, na minha opinião de leigo, ser o mais objectiva possível. Em Portugal fazem-se leis subjectivas para que se possa sempre litigar. Não há pachorra.

piazzanuova disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luís Mota disse...

Português=conflituoso. No fundo é bastante simples.

Kaiser disse...

Interpretações jurídicas díspares e interpretações jurídicas disparatadas não são a mesma coisa...

Abraço,
Kaiser

master kodro disse...

É mesmo isso, galvão, a lei só serve para proveito próprio mediante as circunstâncias e não para enquadrar devidamente os potenciais focos de conflito como o Luciano tão bem defende.

O direito de contestar, mesmo sem razão jurídica, e o direito a algo sem razão jurídica também não são a mesma coisa, Kaiser, e é uma pena que não fales sobre isso. Mas já vi que escolheste um caminho.

É como escrever abraço num lado e asnos de Guimarães noutro. São caminhos que se escolhem que eu tenho que respeitar mas de que não tenho que gostar.

Jorge disse...

Luciano:

Es bens capaz de ter razao.
Naqueles dias em que me da para acreditar em teorias de conspiracao tambem chego a pensar que os arbitros cometem erros em todos os jogos para mostrarem que sao incompetentes e poderem cometer erros sistematicos a favor de uma ou outra equipa, tendo a "desculpa" de incompetencia e nao serem acusados de deshonestidade.

master kodro disse...

Ah, Kaiser: não tenho que gostar, nem tenho que repetir, porque escolho não o fazer.

Kaiser disse...

O "Abraço" faz parte da cortesia social, que não olha a asnos nem a não asnos.

Quanto à questão jurídica, a minha veia positivista não actualista é, efectivamente, forte.

Abraço,
Kaiser

master kodro disse...

Mais uma vez preferiste não comentar a parte da omissão, da mentira e do insulto. É uma escolha, lá está.

inespugnabile disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
inespugnabile disse...
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master kodro disse...

Vou apagar este comentário, mas quem apagou o primeiro foi quem o escreveu. Está lá escrito. Têm que pensar nas coisas antes de as fazerem.

Podem mentir quantas vezes quiserem. É problema vosso.

master kodro disse...

Vês a diferença? Nem para mentir servem.

ilustre.anonimo disse...

"...mas que lhe captam a forma na totalidade (quem já passou os olhos pelo Corão pode confirmá-lo)..."

Pode??? Alguma vez o fizeste? Ou como a maioria dos ocidentais, ouviste dizer? Tens,como todos os outros, de o ler. 'Passar os olhos' é isso mesmo,... Ler custa, perceber ainda mais...!

master kodro disse...

Já, ilustre. Dedico-te uma passagem, o último versículo, sob o título "disposições sobre as mulheres":

"Diz às crentes que baixem os olhos, ocultem as suas partes e não mostrem mais do que aquilo que se deve ver. Cubram o seu peito com o véu! Não mostrem os seus encantos a não ser aos seus esposos. Que estas não meneiem os pés de maneira a deixarem ver o que entre os seus adornos ocultam."

Sabes tu mais do que os outros ocidentais, presumo...

master kodro disse...

Queres mais ou já estás satisfeito sobre a questão que te faz escrever tantos pontos de interrogação?

Kaiser disse...

Não dou por qualquer omissão, mentira e muito menos insulto.

O regulamento é claro e dá razão (mesmo ao nível jurídico, por incrível que pareça) ao Belenenses.

Sendo eu um positivista acutalista (reforço esta passagem, porque parece que não a compreendeste - cfr. um qualquer manual de introdução ao direito).

Sem abraço, para não ferir susceptibilidades,
Kaiser

PS: já estou como um bom amigo meu costuma dizer: Será que o gajo é o meu melhor amigo e eu não sei?

master kodro disse...

Duas coisas, Kaiser:

1. O teu parceiro pegou numa frase minha omitindo a anterior que a enquadrava, partindo daí para uma série de insultos e tu não o comentaste.

2. Sendo tu um positivista, convido-te a fazeres um post (podes mandar para o nosso e-mail que eu publico-o) a contestares a posição de Cunha Leal e da Liga relativamente ao caso da inscrição de Ricardo Rocha, com o mesmo fervor que defendes com que o Belenenses deve seguir para as meias-finais da Taça da Liga.

Kaiser disse...

Eia! O Ricardo Rocha! Onde é que isto já vai!

Se calhar é melhor fazer sobre a contratação do Eusébio!

Qual fervor? Eu nem gramo o clube dos pastéis...