quarta-feira, outubro 01, 2008

Bookmarks # 3 - Stefan Grabinski (1887-1936)


Título: "O demónio do movimento" (2003)

Original: "Demon ruchu" (1919)

Tradução: Maria José Charchalis/Wojciech Charchalis

Ilustrações: Pawel Dunin-Wasowicz

Editora: Cavalo de Ferro, aqui, de onde saiu a foto


O que é que um livro de contos de um obscuro escritor polaco, ignorado pelos seus contemporâneos, poderá ter de relevante para a narração da real sova que o Porto levou ontem em Londres? Vamos, sem demoras, para a contra-capa:

"Quando o comboio apareceu e se popularizou como novo meio de transporte surgiram inúmeros tratados médico-científicos que discutiam a possibilidade de o ser humano não ser feito para as "velocidades estonteantes" que atingia... Essas velocidades podiam levar à loucura ou a doenças graves..."

No conto "Estranha estação", Grabinski volta a descrever a dinâmica exibida pelo Arsenal, em comparação com a do Porto:

"Assim corria o "Infernal" as costas mediterrâneas desde há cinco anos, isto é, desde o dia em que um globe-trotter londrino teve a ideia de pôr em movimento um comboio deste tipo (...) a tarefa era gigantesca porque, devido à anormal velocidade do futuro comboio, o seu trajecto não podia, em nenhum sítio, cruzar-se com o das linhas existentes"

Os contos que compõem este livro falam de comboios do futuro (atenção que estamos em 1919), mas também de grandes descarrilamentos e de comboios desaparecidos, como no conto "Sinais":

"-(...) Circula entre os ferroviários como a história de um comboio que desapareceu.
- Como desapareceu? Evaporou-se ou quê?
- Não é isso. Desapareceu - não quer dizer que deixou de existir. Desapareceu - quer dizer: não existe para o olho humano, aparentemente - na realidade existe; está algures; mas não se sabe onde."

Assim mais ou menos como o Porto das épocas anteriores. Está algures, mas não se sabe onde. Certamente que não é aquele que passou por Londres na última noite e que se tem exibido na nossa Liga. Mas o grande ponto em comum com esta realidade está logo a seguir, no mesmo conto, com a explicação para o sucedido, o misterioso desaparecimento:

"Este fenómeno viria a ser provocado pelo chefe de uma estação, um personagem estranho, talvez um bruxo. Conseguiu este feito graças à combinação de sinais que se sucediam. (...) Estava a brincar com os sinais que combinava em formas diversas, mudando a sua sequência e valor. Até que uma vez, depois de lançar uma série de sete sinais deste tipo, o comboio que entrava na estação a toda a velocidade, de repente levantou-se da linha vacilou umas tantas vezes no ar e, inclinando-se para um lado, desapareceu no espaço"

Jesualdo Ferreira (que de bruxo não tem nada), de facto, anda a experimentar combinações de sinais em demasia, brincando com uma estrutura que era sólida, mas que não sobrevive a grandes razias e muito menos à falta de qualidade de algumas peças da engrenagem. Se é que se pode falar de uma engrenagem (pelo menos oleada não está de certeza), porque depois de lançar uma série de sete novos jogadores para um jogo deste tipo (Sapunaru, Rolando, Benitez, Fernando, Guarin, Tomás Costa, Rodriguez), o mais difícil da época até ao momento, Jesualdo tinha que prever que um desaparecimento deste género poderia acontecer.

No conto, o ferroviário enlouqueceu e não mais se encontrou a chave de sinais inversa à original que tornaria o comboio visível. Veremos quanto tempo o presidente da (F)CP vai aguentar isto (e esperar que não recite Grabinski).

master kodro

14 comentários:

galvao99 disse...

Uma fase, inicio do Séc. XX, de afirmação da ciência (consequência do Positivismo) e em que o sobrenatural, personificado pelo bruxo, e os medos da evolução, personificados pelos médicos e suas teorias, representavam o passado e as mentalidades caducas.

Hoje, em inicios do Séc.XXI, talvez ainda seja cedo para o dizer, mas pode ser que venhamos a ter de concluír que é a Ciência, neste período da História, neste novo milénio, o grande obstáculo à evolução do Homem para um novo estádio evolutivo.

O comboio do Arsenal é mais do que uma máquina. Há ali arte (Fabregas), estética (Van Persie), natureza em estado puro (Walcott) e espirito assassino (Adebayour). No fundo, tudo o que faltou ao FCP.

Bruno Pinto disse...

"porque depois de lançar uma série de sete novos jogadores para um jogo deste tipo (Sapunaru, Rolando, Benitez, Fernando, Guarin, Tomás Costa, Rodriguez), o mais difícil da época até ao momento, Jesualdo tinha que prever que um desaparecimento deste género poderia acontecer."

Havia alternativa?

Bruno Ribeiro disse...

"Havia alternativa?"

Bem, há um gajo chamado Fucile na equipa que até agora serviu sempre para remendar a falta de laterais-esquerdos de qualidade. Como continua a não haver um lateral-esquerdo de qualidade, seria de esperar que o 'remendo' fosse usado.

Há um outro chamado Pedro Emanuel que, mais baixo e menos rápido que Rolando, tem aquilo que se chama experiência. Mas apesar de tudo Rolando até foi dos menos maus.

Uma outra coisa que podia ter feito era, sei lá digo eu, não ter encostado os médios à defesa, dando com isso espaço ao Arsenal e deixado o Lisandro e o Rodríguez lá na frente a lutar sozinhos contra a defesa dos Gunners quando algum dos colegas mandava um charuto.

Se calhar, e sou só eu a especular, se não tivesse ido uma vez mais a Londres cheio de medo do Arsenal não tinha passado vergonha. Até podia ter perdido, e até podia ter levado 4, mas pelo menos não tinham o comportamento de uma equipa 2ª divisão quando tem a sorte de na Taça visitar um Grande. Alguém podia ter perdido tempo a mostrar ao Jesualdo a diferença em termos de currículo europeu entre o FC Porto e o Arsenal. A diferença orçamental explica a diferença de qualidade entre as opções disponíveis para cada clube, mas não explica a falta de ambição.

joaoscp78 disse...

ahahaha
Grande post, Kova!!!!

Costureirinha Maravilha disse...

Mas onde é que tu vais desencantar estas coisas?!
Leste o livro e guardaste para uma ocasião especial?! LOL!
Muito bom!

Zezé disse...

nao desculpo com o q quer q seja a vergonha da noite d ontem. os mais experientes (Lisandro, meireles), tentaram colmatar o que faltava aos restantes.não chegam para tudo.muito menos contra uma equipa como o arsenal.

como disse no meu blog, o problema não é de qualidade, mas sim d mentalidade. gritante. uma equipa é a cara do seu treinador.e jesualdo, bem, jesualdo é um treinador "cagao", que insiste em mudar nos jogos complicados, com os resultados que se vêem.

abraços

www.sao90minutos.blogspot.com

Pedro Santos disse...

Só gostava de saber porque é que um tal de Benítez é titular no Porto. E, já agora, um tal de Guarín. Mistério...

Bruno Pinto disse...

Bruno Ribeiro,

Fucile, está com problemas físicos, não sei se é verdade ou não, mas é o que se diz. Se está com problemas, não joga! Viste o Lucho?

Pedro Emanuel. Agora é muito fácil dizer que devia ter jogado. O Rolando tem merecido rasgados elogios de todos e é óbvio que só ele podia ter sido titular. Imagina que tinha jogado o Emanuel e levávamos 4 na mesma... O que se iria dizer? Que o Jesualdo tinha inventado e o Rolando é que é...

O resto são considerações tácticas, não acerca de jogadores, que era aquilo que eu estava a focar.

Repito, em termos de onze, havia alternativa? Se calhar, estou a especular demais... Não sei, digo eu...

Pedro Santos disse...

O Lino, por muitas dificuldades defensivas que tenha, põe o Benítez a um canto.

Filipe disse...

As estatística do jogo não deixam de ser surpreendentes. O Porto fez seis faltas no jogo todo.

Zezé disse...

pois se nem a cheirou! nem cortes com sucesso foi capaz de fazer!

quando vejo guarin a fazer um passe a 2 metros de um colega,a medo, resolvi ver o telejornal ;)

abraços

Bruno Ribeiro disse...

bruno pinto,

o Fucile não está coisa nenhuma com problemas físicos. Quanto muito está com problemas disciplinares. Em relação ao Pedro Emanuel não é preciso ser-se bruxo para saber que seria essencial num jogo destes pela sua experiência. Se a desculpa da falta de experiência dos jogadores serviu ante o Fenerbahçe, um treinador inteligente só tem de tentar compensar esse problema e não agravá-lo.

É um facto que o Rolando tem estado bem e que merece jogar. Nada contra. Mas um treinador tem que ter em conta todos os pormenores. Colocar uma defesa sem experiência na Champions à excepção de 1 jogador e colocar 1 meio-campo sem experiência na Champions à excepção de um jogador tendo alternativas para, pelo menos, corrigir um dos sectores é ser parvo.

Também não é preciso ser bruxo para se saber quando se coloca Benitez com o apoio de Guarín a cobrir Walcott e Sagna dá asneira. Bastava ter colocado Meireles na esquerda e o colombiano no centro para tapar a auto-estrada que Jesualdo criou.

Dumbo disse...

Fui só eu que tive a impressão que o Porto parecia a Naval ?

Bruno Pinto disse...

Bruno Ribeiro,

Obrigado pelas sábias dicas. Vou começar a jogar no totobola à segunda-feira, tal como tu fazes. És uma achado. Manda o currículum vitae para a SAD, um gajo como tu não pode perder tempo a escrever em blogs.

O problema não foi o Guarín jogar na meia-esquerda em vez do Meireles coisa nenhuma. O problema foi o Rodríguez ter jogado na frente, em vez de jogar na faixa esquerda, a tapar as subidas do Sagna. O FC Porto entrou em 4-1-3-2, quando deveria ter entrado em 4-1-4-1, como o fez na Luz.