quarta-feira, janeiro 16, 2013

Play It Again, Sam # 119 - St. Vicent

Não, não vou falar dos novos mesmos hábitos de Maxi Pereira nem da encarnada imunidade diplomática de que eles gozam, até porque hoje há violinos a dançar na rua e é um daqueles dias em que apetece ficar na cama, a ouvir a chuva a cantar na janela, enquanto se come umas torradas e vê o Cirque du Soleil, ou se sonha mais um bocadinho com a Scarlett Johansson.

Claro que nem sempre foram estas as prioridades. Recordo, por exemplo, um dia tão cinzento como o de hoje, mas insuficiente para quebrar o entusiasmo de onze primaveras - porque nessa altura era sempre primavera - acabadas de fazer. O importante era aquela coisa quadrada, longe da geometria da vida, pousada por baixo das escadas.

O miúdo estremeceu. Não lhe parecia nada aquilo que tinha pedido. Rasgou o papel, abriu a caixa e lá estava ela, redonda, desafiante, pronta para ser estreada. A outra estava velha, dava para pegar pelas orelhas de couro descosido. Esta era novinha em folha e brilhava quase tanto como os seus olhos de criança.

Vestiu a camisola azul e branca e saiu para o pátio, imaginando estar a entrar naquele majestoso estádio azul que o tio lhe tinha mostrado algumas semanas antes, durante um jogo que o Porto acabaria por perder para o Benfica. De pronto, marcou um golo na baliza imaginária que ficava entre a pia e o enésimo vaso que, pacientemente, alguém tinha colocado naquele ponto estratégico.

Quando somos pequenos, tudo nos aparece ampliado. Depois, lentamente, há coisas que vão mingando: as vitórias do Benfica no Porto, os sonhos, com a Scarlett e os outros - aqueles que se sentam à mesa connosco -, a camisola deixa de nos dar pelos joelhos e passa a ter as cores que o trabalho exige, e o pátio passa a ser apenas o pátio, com o seu exacto tamanho, embora um pouco mais desgastado e já sem o tanque de lavar a roupa.

Mas há outras coisas que permanecem enormes, imunes ao desgaste do tempo, como aquela bola petulante que, nesse mesmo dia, haveria de entrar, com estrondo, pela janela do vizinho benfiquista.

Música: "Just the Same But Brand New"
Álbum: "Actor", 2009
Interpretação: St. Vicent



2 comentários:

Rui Coelho disse...

tshhh brilhante.

Joao disse...

Clap! Clap! Clap!

E esta Anne Clark é qualquer coisa...

Abraço