Chegam de Londres, para matar saudades, com tons que viajam entre Massive Attack e Portishead, com escala em xx, numa harmonia boreal. Pray, a oração portista, na esperança crepuscular de um futuro que, se não der para ser melhor, pelo menos não seja pior do que com Marega, Suk e Varela no ataque a coisa nenhuma. Oremos.
Eu sou do tempo (foda-se, estou a ficar velho) em que conhecíamos música através de uma cassete, gravada de uma cassete, gravada de uma cassete que reproduzia fielmente os estalidos e arranhões do vinil original, até a fita magnética começar a enrolar-se na cabeça do leitor e termos de as separar com uma Bic e algodão embebido em álcool. Conhecíamos meia dúzia de bandas e éramos felizes assim. Hoje, é mais difícil sermos felizes. Temos acesso a dezenas, centenas, milhares de músicas e, ainda assim, não ficamos satisfeitos. Abençoada fartura. Abençoado acesso universal à cultura e ao conhecimento. Sem ironia, porque o defeito é nosso (ou meu, pelo menos) e não dos recursos que criamos e desperdiçamos.
Lembrei-me disto enquanto pensava na abundância de títulos que nós, portistas, estávamos habituados a festejar, até há bem pouco tempo. Nessa altura, ir à Avenida dos Aliados ou à Alameda do Dragão era já um ato quase mecânico, o mero cumprimento de uma formalidade. As vitórias do Porto tornaram-se uma banalidade. Pode ser que este jejum nos faça bem e nos ensine a sair dele de forma rejuvenescida e com sede redobrada. Enquanto isso não acontece, podemos sempre ver Vítor Pereira a ganhar na Grécia, Mourinho em Inglaterra e Villas-Boas na Rússia, consolar-nos com o facto de sermos a melhor escola de formação de treinadores em Portugal, ver um jogo do Sporting...
«It's a long way down from the top to the bottom
It's a long way back to a high from where I am»
Música: "Young Blood" Álbum: "A Flourish and a Spoil", 2015 Interpretação: The Districts
Enquanto o clássico não começa, ouve-se uma musiquinha, para relaxar, de uma banda que está a dar os primeiros passos mas que já tem a qualidade que eu espero ver nos pés deste Porto de consumo imediato e de digestão mais difícil do que se desejava. O Benfica não perde em casa, para o campeonato, desde que Maicon fez o 2x3, em Março de 2012 - o que impõe um certo respeito, até porque, desta vez, um golo de diferença mantém o campeonato nas mãos dos encarnados. Mas, quando a bola começar a rolar, isto valerá tanto como a improbabilidade de virar uma meia-final da Taça, depois de ter perdido 0x2 em casa. Portanto, o melhor é aguardar e, no final, logo se verá quem fica happy, happy.
Música: "Blush, 2013" Interpretação: Wolf Alice
PS - Entretanto, o sorteio da Champions ofereceu-nos a possibilidade de ver o duelo mais aguardado dos últimos tempos, entre um Bayern que parece ter conseguido conciliar as ideias que Guardiola trouxe da Catalunha com as características inatas do futebol alemão, e um Barcelona que terá menos bola do que está habituado a ter, mesmo com Luis Enrique, mas com capacidade para pôr Neymar e Suárez a fazer estragos nas costas do calcanhar de Aquiles dos alemães (e Messi a resolver de qualquer lado). Dois grandes jogos em perspetiva.
Eu sei que já foi há dois dias, mas estive tão entretido a saborear a vitória do Porto, que quase me esqueci do (side)show de bola, em Paris. Foi assim, desta forma descerrada e déjà vista, que Suárez fez a festa sozinho. O resto é história.
Música: "Nobody Really Cares If You Don't Go to the Party" Álbum: "Sometimes I Sit and Think, And Sometimes I Just Sit.", 2015 Interpretação: Courtney Barnett
Música: "Let's Take a Trip Together" Álbum: "Cure for Pain", 1993 Interpretação: Morphine
Voz, bateria, baixo e os campos, dançando melancolicamente ao som de um saxofone hipnótico - a música perfeita para ir, num dia de chuva. Uma viagem interior, nostálgica, uma chuva existencial, metafísica, uma estrada virtual, sem destino, sem nada que me lembre a rotina de mais um dia, os terreais cordões que terei de apertar algures, na hora marcada. Mas não agora, com este som tão perto, tão prestes a fechar-me os olhos e a levar-me para onde os sonhos ainda não tenham sido esmagados pelas contas da vida. Encosto a cabeça, preparo-me para desligar, mas eis que se ergue perante mim uma figura minúscula: primeiro os pés, em cima do banco, depois um braço, depois o outro, como quem quer voar, um sorriso que cresce de orelha a orelha, a boca achocolatada solta uma palavra longa, que não ouço mas reconheço, reconheço aquela energia, aquele entusiasmo de criança, aquela fração de tempo que se expande no espaço infinito e contagia toda a gente. Tiro os auscultadores. Foi golo do Brahimi. E, por instantes, o céu voltou a ser azul.
Música: "You Speak My Language" Álbum: "Good", 1992
Interpretação: Morphine
Ainda bandas como os Prodigy e os Chemical Brothers andavam de um tomate para o outro, a estudarem a melhor maneira de cozinharem os ouvidos das massas, com sonoridades químicas, e já estes suíços quase deitavam o Sá da Bandeira abaixo, com a potência musical que trouxeram cá. Alguém perguntava, já meio zonzo: «Ouço guitarras. Onde estão as guitarras?» Estavam no sampler de Al Comet, dez vezes mais poderosas. A bateria era brutal e quando se ouvia a voz de Franz Treichler, o som ficava completo.
Aquilo que vimos ontem, no Dragão, foi futebol completo. Mais uma amostra do potencial que Lopetegui tem entre mãos. Não houve cá futebol para os lados nem esperas para ver o que faria o adversário, porque o 1x1 já chegava. Para a frente era o caminho, com futebol apoiado ou direto, mas sempre com a baliza nos olhos. É certo que o Basileia podia ter marcado, teve mais hipóteses para o fazer cá do que na Suíça, mas seria sempre atropelado pelo poder ofensivo portista.
Uma excelente vitória e quatro grandes golos que garantem os quartos-de-final da Champions. Em suma, um jogo para saborear, calmamente, ao som de Gasoline Man, versão acústica, que já não tenho idade para moches e porque, depois daquele concerto, qualquer versão de estúdio me parece um mero soundcheck.
Música: "Gasoline Man" Álbum: "T.V. Sky", 1992 Interpretação: The Young Gods
Música: "Um Acordo Qualquer" Álbum: "Madrugada", 2010 Interpretação: Peixe:Avião
Supostamente proposto e recusado. Não negado. À moda de antigamente. Não vou ser moralista - tenho consciência de que este é, provavelmente, um entre muitos acordos e desacordos. Mas registo, sem surpresa, o silêncio de quem, noutras alturas, se mostrou sempre pronto para expor, em letras garrafais, os tentáculos do sistema. Para essa gente, se Pinto da Costa não faz parte da história, não há história, não aconteceu nada. Ou melhor, aconteceu: o Benfica esmagou o V. Setúbal, com três golos poderosos (e limpos).
Post-rock do Pai Natal, com os votos de Boas Festas. Para ouvir, de preferência, depois do bacalhau, de 2 ou 3 copos de verde (ou branco), das rabanadas, do bolo-rei, do queijo e de 1 ou 2 cálices de Porto (vinho, que já temos a barriga cheia de Lopetegui). Ou seja, na hora da reflexão. :)
Um dia destes, a meio de um daqueles zappings ruminantes, a fazer horas para uma coisa qualquer, dei comigo colado a um filme com um argumento tão discutível como algumas opções de Lopetegui, mas com uma excelente banda sonora. Uma das coisas que por lá tocavam era destes senhores de Manchester que, tal como o Porto dos últimos tempos, são capazes do melhor e do pior. Fica o melhor.
Música: "Asleep at the Wheel" Álbum: "Businessmen & Ghosts", 2007 Interpretação: Working for a Nuclear Free City
Uma torre no centro do Olival e Oliver foram as principais novidades no primeiro dia de trabalho do Porto de Lopetegui. O jovem médio chega por empréstimo, sem opção de compra, do Atlético de Madrid. Não sei se este será um caso isolado, eventualmente para satisfazer a vontade do treinador, se será uma forma de adoçar algum negócio futuro, ou se, não havendo dinheiro para comprar, se pede emprestado, o que seria uma mudança na política de aquisições da SAD portista. O que parece certo é que, independentemente do seu rendimento no Porto, Oliver regressará a casa, no fim da época. E, assim sendo, mais vale que deixe saudades.
Música: "Jealousy and I" Álbum: "Torres", 2013 Interpretação: Torres
Não, não estou a falar de Paulo Bento, até porque ele tem-no bem protegido, nem da peculiar preparação dos ganeses para o jogo que quase trazia o apuramento aos nossos bravos heróis. Falo de um dos primeiros jogos de Mundiais que eu vi, entre a Alemanha de Rummenigge e do meu primo Littbarski, e a Argélia de ninguém.
Foi em 1982, na Espanha, que a selecção africana surpreendeu o mundo ao vencer por 2x1, sendo que um dos golos foi marcado por um tal de Rabah Madjer, que mais tarde, com uma camisola mais bonita, haveria de compensar largamente o abalo que trouxe, nesse dia, aos olhos ingénuos de quem acreditava que o Littbarski ia pedir a bola ao Schumacher, fintar toda a gente (inclusivamente os companheiros de equipa) e marcar um golo que nem o Maradona se atreveria a tentar repetir. E ia fazê-lo pelo menos três vezes, para não deixar dúvidas a ninguém.
No próximo dia 30, quando um sol mais velho e sensato estiver prestes a deitar-se sobre o Guaíba, em Porto Alegre, estas duas selecções vão reencontrar-se. A Alemanha continuará a ser superfavorita, mas este tem sido um Mundial fértil em surpresas e em desilusões europeias (a Rússia foi só mais uma). E os alemães merecem ser castigados, por não terem dado 5 aos EUA, não merecem?
Música: "Kick in the Eye" Álbum: "Mask", 1981 Interpretação: Bauhaus
Ontem estive a rever o célebre Argentina 2 x 1 Inglaterra. Quando, aos 6 minutos da segunda parte, Maradona recebeu a bola, prestes a fazer história, lembrei-me de decisões certas e erradas, do talento colectivo acima do talento individual e de jogadores de momentos encarcerados num livro de rigores tácticos. Por instantes, receei que El Pibe lesse os meus pensamentos e desenhasse uma devolução recta de bola em vez do golo do século XX. Depois lembrei-me que aquele trajecto mágico já tinha sido percorrido inúmeras vezes, na televisão cá de casa. Então, larguei mentalmente o pause do controlo remoto e Dieguito avançou, livre, entre pernas torcidas e folhas rasgadas.
Não é a confiança cega de Paulo Fonseca (até porque essa não é fácil de bater), mas é uma confiança de se lhe tirar a trivela, a de Paulo Bento, na disponibilidade física de Nani e de Vieirinha. O Brasil é já ali à frente.
Música: "Confidence" Álbum: "Carrier", 2013 Interpretação: The Dodos