domingo, junho 20, 2010

Em estágio

Três sul-africanos com quem falei adoram a selecção portuguesa e dizem
que está cada vez melhor. Como estava no meu terceiro Merlot estas
ideias peregrinas não me incomodaram e fui tão indulgente com os
comentários como com a gorjeta. Falámos dos velhos e saudosos tempos
do colonialismo e mantivemos o apartheid funcional que nunca acarreta
conflitos: eu tinha rands, eu era o cliente e, portanto, tinha sempre
razão. A saber: Madaíl é um boer que tem de ser despojado do seu
sistema feudal, Carlos Queiroz é um Bicko de obra para o futebol
português. Mandela essa última bebida e esqueça a hora de fecho, ia
regorgitando, após treze horas de viagem que me forçaram a conhecer,
durante duas horas inteirinhas, depois de uma escala técnica, o Gabão
profundo. Os sul-africanos com quem falei foram acenando de mansinho,
na esperança que eu abandonasse a mesa ou o balcão. Eu, do outro lado,
como português desesperançado com o nosso Portugal, azedo com a nossa
selecção e miserabilista perante esta espécie de futebol que mesmo
assim nos faz voar entre continentes, arrastei-me dali para fora antes
que chegasse um daqueles fotógrafos desportivos ou cameramans manhosos
da TVI que só atraem desgraças e, triste com o empate do Gana, vou ao
bar do hotel onde ainda me desconhecem. Acredito que o meu espírito
missionário expurgue destas cabeças sul-africanas a peregrina ideia de
que os portugueses ainda conseguem encontrar na Cidade do Cabo algo
simbólico que devolva a esperança neste Mundial.

Amanhã vou fazer provas de vinho o dia inteiro. Fica algures o vinhedo
e só sei que tenho de me levantar a hora madrugadora que a primeira
videira desperta ainda húmida do orvalho. Peço desculpa aos meus
patrocinadores, mas será certamente melhor que assistir a treinos e
trazer informação inútil desportiva.

da Cidade do Cabo, o anti-adepto, em exclusivo para o 442.

Sem comentários: