domingo, setembro 08, 2013

Kelvin, Quintero e os desequilíbrios

Tal como escrevi aqui, eu compreendo que, na hora de escolher, um treinador tenha de considerar factores como o equilíbrio táctico da equipa, a experiência e a capacidade de liderança dos jogadores. Percebo que, por vezes, é isso que faz a diferença entre a equipa vencedora e a que quis vencer. Simplesmente, acho que deve haver lugar para a criatividade, para a imprevisibilidade e para a irreverência. Porque, por vezes, outras vezes, só isto consegue desbloquear jogos que, de outra forma, continuariam bloqueados. Quando um treinador coloca Defour no lado esquerdo do ataque e deixa Atsu de fora, quando escolhe Izmailov em vez de Kelvin, quando senta Quintero no banco, está a evitar aquilo que não é previamente formatado, que não obedece a um padrão específico que ele pode prever e que, por isso, lhe agrada.

Um dos argumentos mais utilizados para banir a criatividade de uma equipa é o dos desequilíbrios. Não os causados na equipa adversária, mas na própria equipa, por via das bolas perdidas e de uma menor aptidão dos criativos para defenderem. Bem, por essa ordem de ideias, jogadores como Hulk e Quaresma nunca teriam jogado no Porto, Ronaldo veria os jogos do Real Madrid no banco e o Bayern jogaria sem Robben nem Ribéry. Com um jeitinho, nem Messi estaria a salvo, apesar de toda a formatação catalã. Eles jogam porque os seus pontos fortes, isto é, a capacidade de causarem danos na equipa adversária, superam largamente os seus pontos fracos.

Quando, por exemplo, Paulo Fonseca diz que Quintero está a assimilar ideias, há uma parte que eu percebo: o jogador deve compreender a forma de jogar dos companheiros e da equipa como um todo, adaptar-se a essa dinâmica, absorver a mística, a mentalidade vencedora do clube. Certo. Mas temo que esta seja apenas uma parte da história. A outra parte tem que ver com os tais desequilíbrios que não deixam os treinadores dormir de noite. Há que pedir a Quintero que corra atrás da bola, que feche linhas de passe e, se calhar (espero que não), que, em vez daquele passe arriscado que isolaria Jackson, faça um passe fácil de 2 metros, para que a equipa não corra o risco de ser apanhada em contrapé.

Mas os pontos fortes de Quintero não são esses. E rentabilizar Quintero (ou qualquer outro jogador) passa, com certeza, por trabalhar os seus pontos fracos, mas sobretudo por aproveitar os seus pontos fortes. A função principal de Quintero não deve ser correr atrás da bola, mas fazer os outros correrem atrás da bola; não deve ser fechar linhas de passe, mas encontrá-las onde os outros não as conseguem ver; não deve ser fazer passes de 2 metros, porque não é isso que distingue um construtor de jogo de um Fernando. A Fernando é que devem pedir-lhe para evitar passes com mais de 2 metros (porque mete água, em grande parte das vezes que os tenta fazer, com um risco bem mais elevado para a equipa, porque não há Fernando atrás de Fernando para compensar), que feche linhas de passe e que corra atrás de bolas perdidas. Porque estes são os pontos fortes de Fernando.

Cada jogador tem as suas características específicas. Rentabilizar o todo passa por reunir pontos comuns, mas também a diversidade das qualidades individuais que há para oferecer ao todo. Porque mais diversidade significa mais soluções para a resolução de problemas.

2 comentários:

miguel.ca disse...

Não podia estar mais de acordo.
E o que de facto me assusta é que PF resolva polir o Quintero com características mais conservadoras e lhe retire o brutal poder de explosão e irreverencia que ele ostenta caindo na mesma estupidez do Alex Fergunson que em prol desses tais equilíbrios tácticos transformou o Andersson num banalíssimo médio centro quando o miúdo tinha tudo para ser um dos melhores 10 do mundo.

Hugo disse...

De acordo. Nas camadas jovens infelizmente já se vai assistindo a isso, preferindo os "bisontes" de origem africana aos putos talentosos