quinta-feira, junho 10, 2010

Notas sobre o Mundial (3)

Espanha A propósito das expectativas que tenho para a selecção neste Mundial - e para a medição do grau de sucesso da participação -, dizia-me o infante que estas não devem ser tão baixas e que não deve ser uma Espanha que nos deve assustar, apontando, para o efeito e como exemplo, uma recente derrota dos campeões europeus contra os Estados Unidos em jogo oficial.

A minha dúvida perante esta ideia é se devemos olhar para essa derrota como o exemplo ou como a excepção, porque para encontrar a derrota anterior dos espanhóis em jogos oficiais é preciso recuar até Outubro de 2006, num jogo disputado na Suécia. Desde esse jogo, em 30 partidas oficiais, foram 26 vitórias, 3 empates (dos quais uma vitória por penalties e uma vitória num prolongamento) e uma derrota - essa mesmo com os Estados Unidas nas meias-finais da Taça das Confederações de 2009. É uma questão de ângulo.

Diz-me também o infante que, com esta bitola baixa, parece que me esqueci dos últimos 6 anos de sucessos da selecção nacional, antes desta gestão. Não, não me esqueci que na última campanha numa fase final - que foi a que precedeu a actual, com o que isso implica - fomos afastados logo na primeira eliminatória, com um saldo global de duas vitórias e duas derrotas (uma com a favorita Alemanha e outra com a Suíça).

master kodro

15 comentários:

Petinga disse...

"Não, não me esqueci que na última campanha numa fase final - que foi a que precedeu a actual, com o que isso implica - fomos afastados logo na primeira eliminatória"

Tou como o outro... deves achar que Portugal tem a melhor equipa da Europa, deves... Ser afastado nos 1/4 de final do Euro2008 contra a Alemanha (finalista vencida do certame) foi INCOMENSURAVELMENTE melhor do que aquilo que nos vai acontecer neste Campeonato do Mundo. Mark my words.

Quanto ao resto, faltou mencionar que o Sargentao percebia pouco de tactica mas sabia motivar as tropas como ninguem (quero la saber se os metodos eram ridiculos...). Ja o Carlitos Queiroz nao percebe mesmo nada de nada.

Infante disse...

Vamos lá a ver. É óbvio que a Espanha é favorita num possível confronto com Portugal nos oitavos de finais. É a campeã da Europa e isso diz tudo. E, para mim é mesmo a favorita a ganhar a competição.

Do que não gosto é dessa ideia que a passagem aos oitavos-de-final é uma "participação de sucesso". Não é sucesso coisa nenhuma; é a obrigação mínima. Seria sucesso para a Costa de Marfim ou Coreia, mas para Portugal não pode ser.

Achas mesmo que a diferença de qualidade entre Portugal e Espanha é assim tão esmagadora?

Eu não sou apoiante do Scolari, escusas de insinuar isso. Fiquei todo contente quando ele se foi embora, já não podia com o homem. Mas assim que o Queirós foi anunciado, pensei logo que, em termos de atitude, íamos voltar à "fabulosa ambição" dos anos 90, das vitorias morais, do "somos tão coitadinhos, deixem-nos lá ganhar um joguinho". Acho que apesar de tudo, Portugal tinha evoluído bastante nesse aspecto nos últimos anos, tanto a nível de clubes como de selecção.

Tu falas de Portugal ter sido eliminado pela Alemanha, mas a verdade é que essa derrota foi vista como um desastre, o Scolari e os jogadores foram atacados a torto e a direito e o Euro 2008 foi visto como um fracasso da nossa parte. Só o facto disso ter sido visto como um desastre mostra que, com todos os defeitos que podíamos ter, havia ambição a sério e expectativas altas.

Agora há o quê? Pessoal a dizer que já será maravilhoso passar aos Oitavos, vamos jogar com a extra-terrestre e ultra-hiper poderosa Espanha, o nosso trabalho já está feito e só nos resta dignificar a camisola e rezar aos deuses. Acho que isto é um retrocesso tremendo! Portugal tem que entrar em jogo a pensar que é possível ganhar, que temos armas para isso, e que ficar pelos oitavos nunca pode ser um sucesso para uma selecção que teve uma final e umas Meias nos últimos 3 torneios. E uma derrota nos oitavos tem que ser sempre vista como uma desilusão. Lamento, mas não tenho saudades nenhumas dos anos 90.

Iá, pessoal, perdemos com Espanha? Ah, mas já foi uma "participação de sucesso", tudo ao Marquês festejar, iupi!!

master kodro disse...

Vou lembrar-me das tuas palavras, Petinga, mesmo se formos afastados na primeira eliminatória com Espanha (que ganhou essa final à Alemanha).

Infante, tu lês e interpretas os textos como quiseres, como é óbvio.

Eu escrevo que o que separa o sucesso do insucesso desta participação é uma linha ténue, que se traça entre ficar ou não à frente da Costa do Marfim. Tu escolhes pegar só na parte do sucesso. Ok.

Combates a minha ideia de que não temos obrigação de ganhar a Espanha (que foi o que escrevi no post anterior). Para o efeito apresentas uma derrota recente dos espanhóis. Foi uma nos últimos 30 jogos oficiais. Certo.

Hoje dizes que Espanha é favorita não só numa eliminatória com Portugal, mas também à vitória final do Campeonato.

Acrescentas que estamos a voltar aos anos 90 na mentalidade. Não. Estamos a voltar ao ano 2008. A mentalidade na boca do nosso seleccionador é chegar às meias-finais. A minha é mais realista, face à conjuntura. Se me dessem um grupo com México, Angola e Irão e um cruzamento com a Holanda (com quem sabe-se lá porquê ganhamos quase sempre, até o Oliveira os deixou pelo caminho na campanha 2002), o meu discurso seria diferente.

Mas lá está, é uma questão de ângulo. Tu escolhes falar em obrigação minima quando das tuas palavras decorre que para ti é igualmente a obrigação máxima chegar aos oitavos (porque depois jogaremos com a tua favorita à vitória final). A tal linha ténue entre o sucesso e o insucesso de que falei.

É uma questão de escolha de palavras.

Infante disse...

Tens razão, é uma questão de escolha de palavras. O que me faz impressão é a palavra "sucesso". no meio disso. Passar aos oitavos de final é o mínimo a exigir, nisso estamos de acordo. Onde não estamos de acordo é no que isso significa. Para ti, é "sucesso", para mim, é simplesmente o que há, paciência...

O facto de eu considerar a Espanha favorita não implica que os ache invencíveis, que é o que se deduz das palavras de muita gente. O que me incomoda é o discurso de que não há nada a fazer se Portugal apanhar Espanha; pronto, tá perdido à partida e que o "grande objectivo" é ficar à frente da Costa do Marfim. Sim, fabuloso objectivo, pá...

Um mundial para os anais da história!

master kodro disse...

Como já te disse, lês o que quiseres das minhas palavras. Eu escrevo não é exigível. Tu interpretas que são invencíveis e que está perdido à partida. Embora aches que são favoritos contra nós e para vencerem o Mundial.

Tu dizes que é o mínimo exigível. Eu digo que o mínimo exigível é o mesmo do que o máximo exigível. Daí a linha ténue que separa o sucesso do insucesso. Tu escolhes a palavra sucesso para discordar. Podias ter escolhido a palavra insucesso para discordar e dizer que perder com a Costa do Marfim, que, tal como nós, tem mais de meia equipa a jogar nos melhores clubes do mundo, não é um insucesso.

São só escolhas, palavras e interpretações. Com um bocado de sorte ganhamos ao Brasil e jogamos com o Chile ou a Suíça. Embora, novamente, julgue que não é exigível.

katanec disse...

Espero que estes comentários fiquem guardados por muito tempo... Para se perceberem certos critérios futuros, digo. É evidente que o contexto tem a maior importância, como sublinha o MK. Mas este grupo e o cruzamento previsível tem alguma comparação com 2006? Está tudo doido?

luissm disse...

Bem, até eu (que detesto o Queiroz desde o momento em que subsituiu o Paulo Torres pelo Capucho) acho que este campeonato foi muito condicionado pelo sorteio.

Somos a terceira equipa do ranking, temos a primeira no nosso grupo e cruzamo-nos com o grupo em que está a segunda logo nos oitavos de final. É preciso dizer mais alguma coisa?!

Vê-se bem que a NS do Caravaggio já não anda por aqui.

Infante disse...

Katanec, mas quais "critérios futuros"? Não vejam conspiração em tudo! Como toda a gente aqui (acho), eu quero ver a selecção em bom estado, seja com quem for. Que raio de mania de vocês fazerem tudo uma guerra Scolari-Queirós. Pá, eu não gosto de nenhum deles, deixem lá isso!

Sei que isto não é o mesmo grupo/previsão que em 2006 e concordo que a selecção não parece tão forte como nessa altura, os jogadores estão mais velhos e, à parte o CR, não parece haver grande renovação.

E é claro que não é "exigível" ganhar ao Brasil e Espanha. Mas não ser exigível não implica esse fatalismo todo. Acho que o problema aqui, mais uma vez é a atitude, pensei que tínhamos evoluído um bocadinho nesse aspecto. Gostava de ver comentários de adeptos de outras selecções menos cotadas até que Portugal, se calhar não apanhava tanto choradinho.

De qualquer modo, estar com tanta conversa antes de isto sequer ter começado...
Vamos ver mas é se conseguimos passar aos Oitavos (mas, ao que parece, até a Costa do Marfim deve ser muita areia para nós. :)

Férenc Meszaros disse...

O homem trocou o Paulo Torres pelo Pacheco, Luissm. Ainda hoje tenho pesadelos com isso.

O Capucho foi titular.

luissm disse...

Férenc, tens razão.

Mas quem foi (des)cobrir o flanco esquerdo foi o Capucho.

master kodro disse...

Ferenc, mas já estava a perder com o Paulo Torres em campo... Acho que a culpa foi mais do João Pinto do que do Queiroz.

Mr. Shankly disse...

kodro, estava a perder mas era recuperável. 2-6 é mais difícil :)

Acho que se precipitou, a substituição foi demasiado cedo.

Férenc Meszaros disse...

É verdade que estava a perder 3-2 mas o jogo estava equilibrado. O primeiro e segundo golos do Benfica foram quase fortuitos. Com essa substituição o homem abriu uma auto-estrada para o Vitor Paneira e João Pinto e os restantes golos sairam todos do lado direito do Benfica.
Quem caía para (des)tapar o lado esquerdo era o Paulo Sousa (Normalmente é com esta revelação que qualquer tentativa de desculpar o Prof. Queiroz cai por terra) Infelizmente sei isto porque tenho este jogo gravado na memória. Já tentei hipnose e marretadas com martelos de orelhas. Nada resulta.

Ricardo disse...

" Acho que a culpa foi mais do João Pinto do que do Queiroz."

Completamente. O Queiroz anda a ser perseguido há 16 anos por uma decisão que, aceito, não foi a mais brilhante mas que está, esteve, longe de ser a principal razão para a derrota do Sporting. A principal razão foi uma equipa que estava do outro lado, que quando engrenava fazia um futebol de grande qualidade e tão-só isso. É mais uma forma de desculpa, essa da substituição errada do Queiroz. É mais uma forma de não darem valor a quem, de facto, o teve: o Benfica e, especialmente, esse jogador genial que nunca teve a consagração que merecia: João Vieira Pinto.

"Quem caía para (des)tapar o lado esquerdo era o Paulo Sousa (Normalmente é com esta revelação que qualquer tentativa de desculpar o Prof. Queiroz cai por terra)"

O Paulo Sousa, tanto no Benfica, como no Sporting, como na Juve, como no Borrusia, muitas vezes servia de apoio ao lateral. Isto não acontecia, como queres fazer crer, por uma decisão propositada do(s) treinador(es), mas pela forma como ele próprio lia o jogo. O Paulo Sousa sempre esteve um passo à frente na visão e leitura de jogo que tinha; isso fazia com que muitas vezes dobrasse os centrais, os laterais ou os médios-ala. Nesse jogo de Alvalade não era ele quem, de forma táctica, caía naquele lado, mas, sim, ele caía naquele lado como caía no outro porque como jogador essa era uma das suas características - nunca foi um jogador de 5 metros quadrados de terreno. Mas o que me espanta nessa afirmação é o que deixas implícito, como se o Paulo Sousa fosse incapaz de cair na zona do lateral por, imagino que seja esta a tua ideia, ser lento. A ideia do Queiroz passava por deixar o flanco ao Pacheco e ao Capucho. Podemos criticá-lo mas pelo menos quis mexer com a equipa e o Pacheco no Benfica muitas vezes servia para isso mesmo: espevitar o flanco, dar-lhe mais velocidade e imprevisibilidade. O jogo estava aberto (5 golos na primeira parte), havia que fazer qualquer coisa. Só que do outro lado, para mal dos pecados dos sportinguistas, estava um enorme Benfica. E é só. Deixem o Queiroz em paz. 16 anos já é pena bastante.

Férenc Meszaros disse...

Criticar o Queiroz retira mérito ao Benfica (que depreendo ser esse o teu problema)? Não. Pelo contrário. Uma das chaves do sucesso em futebol é ser capaz aproveitar os erros dos outros. E parece-me incontestável que o prof. Queiroz errou e o Benfica aproveitou.

Aproveitou porque não eram toscos nem burros a jogar à bola, certo, mas na minha opinião nem eram superiores à equipa do Sporting. Recorda-te que o grande favorito era o Sporting. Só passou a haver ‘enorme Benfica’ depois do Prof. Queiroz facilitar porque até então tinha só havido ‘enorme JVP’. Foi claramente a substituição que desequilibrou totalmente a equipa e, por consequência, o jogo. Ora repara na relação:

- Na 1ª parte nenhum golo do Benfica foi pelo lado esquerdo do Sporting. A não ser que se conte com um golo a partir de um livre indirecto próximo da esquina da área, com cruzamento, já dentro da área, do lado direito;

- Todos os 3 golos da 2a parte nascem do lado onde não havia lateral e onde estava, na sua vez, um médio centro que descaía quando a equipa não tinha a bola e apanhava, sozinho, com 2 e 3 jogadores.

- Todos os 3 golos da 2a parte foram em contra-ataque, com o Paulo Sousa sempre mal posicionado (a culpa não era do rapaz porque não era ele o lateral esquerdo da equipa – ninguém era - nem podia ser omnipresente)

- Em todos os 3 golos da 2ª parte só acaba por lá estar o Paulo Sousa (que é papado em todos, duas das vezes em velocidade, uma por displicência). Nada contra o Paulo Sousa, que foi mais vítima que culpado, apesar de ter falhado no 4º golo. Não insinuei nada a respeito da velocidade do Paulo Sousa (apesar de não ser a sua característica mais famosa) mas o Paneira parecia que ia de mota.

- Na 2a parte, acaba por ser o Paneira (extremo direito) a ser mais decisivo com 2 assistências. A outra assistência é do JVP, também do lado direito.

Ou seja: A história da substituição não é desculpa. O homem tem inegavelmente responsabilidades no resultado. Quem não quiser ver a relação directa entre a saída do lateral esquerdo (e a sua deficiente compensação) e os 3 golos da 2ª parte, apenas para puxar os galões da grande equipa ‘que quando engrenava fazia um futebol de grande qualidade’, não veja.