sexta-feira, janeiro 02, 2009

A ficção supera a realidade

Uma das piores características do jornalismo desportivo português é a primazia conferida ao nacionalismo em detrimento da informação objectiva. As notícias referentes a treinadores e atletas lusitanos que actuam no estrangeiro estão repletas de elogios grandiloquentes e descrições de feitos épicos. Desde o Horácio que entrou aos 85 minutos para comandar a reviravolta no Panionios 2-Ionikos 1, até ao Manuel Silva, que conquistou a "Sushi Cup" ao serviço do FC Osaka, todos os portugueses "lá fora" são verdadeiros heróis.

Claro que neste oceano de panegíricos fáceis, a isenção e a objectividade saem muito mal tratadas - mesmo quando se referem a personalidades de primeira linha. Aqui há dias o "Record" publicou uma inenarrável reportagem sobre Cristiano Ronaldo, onde só não se apelava à canonização do madeirense. Não me interpretem mal: Ronaldo foi o melhor jogador do ano (embora não seja o melhor do mundo). Mas é insuportável ler textos onde se refere que o "CR7" (expressão pavorosa) ocupa um "lugar inimitável na história do futebol mundial". Sim, leram bem. A julgar pelo "Record", Pélé, Maradona, Beckenbauer e Zidane não chegam aos pés do nosso Ronaldo.

E não se julgue que esta excitação parva se restringe aos jornais desportivos. Hoje mesmo o "Público" apresenta uma fascinante análise sobre o ano civil de 2008, com o título: "O ano em que o Porto foi campeão em Portugal e Mourinho/Scolari em Inglaterra". Passando pela referência tão óbvia quanto inútil sobre o caso português, detenhamo-nos nesta curiosa menção ao trabalho do "Special One" em terras de Sua Majestade durante o ano de 2008, na qual se descobre que, mesmo depois de despedido (em Setembro de 2007), Mourinho continuou a orientar o Chelsea a partir de Setúbal - certamente com a ajuda preciosa de Mestre Alves e do Professor Karamba - levando-a à final da Champions e ao título virtual de "campeão do ano civil". Definitivamente, Mourinho há só um.

katanec

10 comentários:

Mário Rui Ventura disse...

Em relação a Mourinho até entendo...

Quanto ao resto, tens toda a razão... mas não é esta a imprensa que todos nos queixamos?

Veja-se por exemplo as capas de 'Record' e 'A Bola' que, pasme-se, fizeram uma capa idêntica com 48 horas de diferença e mudando apenas os protagonistas, sem nunca mudar a cor: Suazo e Reyes, a brindar ao Benfica campeão.

Zé Luís disse...

Ano Novo, Velhos Hábitos e assim vivem os monges.

Zé Luís disse...

Já agora, é comprar o berreiro por Pedro Henriques no Benfica-Nacional, na última partida da Liga de 2008, com a acalmia por Pedro Henriques após o Nacional-FC Porto que fechou o ano de 2007 (com um penálti clamoroso sobre Mariano, que ninguém duvidou, ainda com 0-0 e o Porto até perdeu).

galvao99 disse...

zé luis,

E basta comparar a nota do árbitro que validou o golo com a mão de Ronny há uns anos e a de Pedro Henriques agora, relativamente a um lance que por altura dessa mão de Ronny custou vários penaltys ao SCP sem que a imprensa viesse colocar-se do lado da "verdade desportiva". Isso sim era interessante comparar. Mas o jornalismo nao serve para isso, pois nao?

katanec disse...

Caro Mário Rui, "em relação a Mourinho até entendo". Entende como? O homem não esteve no Chelsea em 2008. Vai dizer-me que as vitórias alcançadas pelo clube devem ser atribuídas a um treinador que foi despedido - de tal modo que ele seria considerado o "vencedor do ano"? Isto faz sentido?

Mário Rui Ventura disse...

Caro katanec,
se a memória não me falha Mourinho fez parte da época 2007/2008 no Chelsea, logo parte dos (poucos) louros que a equipa tem dessa época têm de ser partilhados entre Mourinho e Avram Grant.

Foi só neste aspecto que entendi a referência a Mourinho, como também compreendo perfeitamente a tentativa de associação do dito jornalista do Público, ao falar em Mourinho/Scolari.

katanec disse...

Mas a ironia, caro Mário Rui, está no facto de a reportagem ser sobre o ano civil de 2008 (e não sobre a época 07/08) - ano esse no qual Mourinho não treinou nenhuma equipa a não ser o Inter. Note-se aliás que Mourinho abandonou o Chelsea em Setembro! - e não em Novembro ou Dezembro...

E qual é a relação Mourinho/Scolari? Ambos treinaram o Chelsea? Então e que tal dizer que o Benfica de Quique/Camacho lidera o campeonato. Parece-lhe normal?

Fredy disse...

galvão, custou varios penaltys?? deve ter sido para comepnsar aqueles que tiveram a mais na epoca dos 643894369 mil penaltys a favor lol

nm disse...

Basta ler o artigo para perceber que a referência a Mourinho é totalmente despropositada. Aliás, se se queriam referir ao ano civil, deviam ter escrito Grant/Scolari. Por acaso, o autor do artigo até é um dos bons jornalistas a escrever sobre desporto em Portugal.

Zé Luís disse...

"no blogue 442 o ano abriu com uma crítica contundente ao jornalismo desportivo que se faz em Portugal, mais concretamente à "primazia conferida ao nacionalismo em detrimento da informação objectiva". Neste blogue, onde um dos "redactores" trabalha para um dos jornais da Cofina..."

in finta&remata, por mário rui ventura