quarta-feira, outubro 30, 2013

Converseta

Tem, de facto, uns olhos bonitos. O problema é que se calam, quando fala. Quer dizer, o problema é que ela fala demais. Ainda há pouco, sentámo-nos na esplanada e logo começou a disparar: que a irmã era parecidíssima com ela, em tudo... e em tudo; que Patusco, seu cão - um caniche rebelde e, supostamente, amoroso -, havia crescido e já não lhe fazia companhia nos dias mais solitários (teria perdido a paciência?); ainda, sobre as venturas e desventuras pelas discotecas mais badaladas da cidade (conhecia-as todas - um verdadeiro prodígio, a sua memória); e de mais não me lembro. Agora, gostava era de conhecer a irmã. Talvez tivesse uns olhos tão bonitos como a outra e talvez falasse menos. Sim, daríamos as mãos em silêncio e, quiçá, até uivássemos com os lobos, em noites de lua cheia. Mas palavras, nada; as palavras aborrecem. Quase tanto como as venturas e desventuras pelas discotecas da cidade. E, como eram parecidíssimas, suponho que a coisa lá fosse dar, mais volta, menos volta. Resta-me, portanto, o Patusco, embora não goste muito de cães, especialmente quando ladram muito. E, além do mais, Patusco é nome de gato. Sim, prefiro os gatos: ladram menos, gostam de pássaros e de peixes, e trazem no olhar o mistério de sete mares. Ou melhor, seis, pois que um deles é este aqui, já meio morto, fitando algo que ainda mexe ao longe (provavelmente, pensando: tens uns olhos tão lindos; se, pelo menos, te calasses).

Serve esta ladainha toda (um paradoxo, dizem, mas eu só acredito vendo), escrita muito antes da invasão à aldeia e de Blatter se entreter a imitar o comandante (o outro, o original é capitão do Porto), para falar, sem rodeios, de Goldfrapp, cuja carreira é uma mistura de melancolia, sensualidade e extravagância. Gosto da primeira parte. Da segunda, se vier acompanhada da primeira (como é o caso). Dispenso a terceira (como se comprova). Gosto da voz. A voz é os seus olhos. E tem, de facto, uns olhos bonitos.



Música: "Deer Stop"
Álbum: "Felt Mountain", 2000
Interpretação: Goldfrapp

2 comentários:

jose garcia disse...

Ainda andava a ruminar o Felt Mountain quando tive a sorte de os ver ao vivo no sudoeste. Aí, fez-se luz. Tudo passou a fazer sentido. Alison em palco é extraordinária...

Depois disso, um segundo álbum engraçado, mais um concerto simpático no coliseu, mas longe da magia vista no sudoeste.

Entretanto, perdi-lhes o rasto, e parece que fiz bem :)

littbarski disse...

Eu não conheço os álbuns todos, mas ouvi recentemente o último e há algumas músicas que voltam a mostrar a melhor faceta dela (ou, pelo menos, aquela que mais me agrada), numa versão mais acústica.

Alvar
Stranger