quarta-feira, maio 16, 2012

A convocatória de Paulo Bento

Chegámos ao ponto - temido por mim - de quase não existir discussão em torno dos nomes escolhidos para a selecção nacional num elenco de 23 futebolistas. Pode discutir-se, aqui e ali, um nome ou outro, mas o essencial é indiscutível, porque não há mais. E as coisas não tendem a melhorar com a política dos clubes com responsabilidades nesta matéria (e dos seleccionadores que teimam em só ver futebol dos 3-4 clubes dominantes).

Podemos perguntar como é que os 90 minutos de Eduardo na última liga chegam para ir ao Europeu; como é que os 626 minutos de Miguel Lopes pelo Braga valem mais do que os 1211 de Nélson no Bétis (principalmente quando é invocada a possibilidade de se jogar também pela esquerda); como é que o potencial de remate de Hugo Viana é posto de parte (principalmente em torneios deste género); ou como é que os 390 minutos de Nélson Oliveira no campeonato valem uma convocatória para uma fase final (aqui já a Nike e o BES, patrocinadores oficiais da selecção, o tinham convocado para campanhas publicitárias). E podemos conseguir respostas lógicas para quase todos eles (especialmente no caso do avançado que é um dos maiores talentos mundiais na sua idade). Até porque não é determinante.

Importa apenas que Paulo Bento consiga montar uma equipa que ultrapasse os enormes obstáculos que tem pela frente na fase de grupos, para manter a bitola a que nos temos habituado no contexto europeu nos últimos anos:

2004 - segunda selecção europeia (perdendo para a Grécia)
2006 - quarta selecção europeia (perdendo com França e Alemanha)
2008 - quinta selecção europeia oficiosa e igualada (perdendo com a Alemanha)
2010 - quarta selecção europeia oficiosa e igualada (perdendo com Espanha)

E se não o conseguir não há qualquer drama.

master kodro

14 comentários:

Mr. Shankly disse...

"porque não há mais".
Há, o Bosingwa e o Ricardo Carvalho. Dois jogadores de top que seriam titulares na selecção. Não sei PB tem ou não razão, mas num mundo perfeito eram convocados.
Concordo em relação ao Eduardo,ao Miguel Lopes e ao Nelson Oliveira. O Hugo Viana para mim ia de caras e era candidato ao onze. Ver o Micael ir no luga dele é de partir o coração.

Em relação às expectativas, dependem de Ronaldo. Passar a 1a fase seria um êxito num grupo infernal. Como dizes, não é drama nenhum se não passarem, esta já não é a selecção de Figo, Rui Costa, Deco, Sousa, Maniche, Pauleta, Couto, Carvalho, JVP. È uma boa selecção, com o melhor jogador do torneio.

Jorge disse...

Os clubes nao teem responsabilidade nesta materia.
Nao e da responsabilidade dos clubes em formarem e prepararem jogadores para a seleccao.
Se e do interesse nacional ter uma seleccao nacional de futebol competitiva (e nao vejo porque e que isso sera verdade) entao o pais (e nao os clubes) atraves da federacao e outras entidades devera desenvolver um programa de formacao, mas nem sequer ha consenso no desenvolvimento de um "farm system" atraves das equipas Bs que possibilite a transicao para os niveis profissionais de jogadores formados pelos clubes.

Jorge disse...

Alias ainda esta manha estive a ler comentarios sobre a convocatoria da Inglaterra e pareceu-me que sofrem do mesmo problema apesar de ser um pais muito maior.
Acho que estas competicoes de seleccoes estao a ficar cada vez mais um side show e eu nem me importo. A qualidade futebolistica nunca foi grande (e dificil dada a falta de treinos o que beneficia as equipas que tenham mais jogadores com entrosamento adquirido nos clubes), e a parte emocional esta sempre muito ligada a sentimentos nacionalistas que nem sempre sao saudaveis.

Jorge disse...

Quanto as convocatorias.
O PB explicou a nao chamada do Hugo Viana. O seleccionador olha para o grupo define estrategias que seram melhores para esse grupo e selecciona mais um ou outro jogador dentro dessas estrategias, tendo em conta que nao tera muito tempo para adaptar jogadores.
Acho que a inclusao de um jogador como o Hugo Viana deveria implicar grandes mudancas na forma como a equipa joga... o Ruben insere-se mais facilmente no meio campo da seleccao.

Hugo Viseu disse...

Somos tão pouco favoritos que até podemos fazer qualquer coisa. Aquele lugar no ranking da FIFA é qualquer coisa de arcano... Não nos qualificamos à frente da Dinamarca, mas somos melhores que o Brasil!
E sim, não há muito por onde escolher.
Eu sei que não é uma opinião popular, mas... e o Liedson?
Eu teria levado o Viana em vez do Micael, e sim, eventualmente o Nélson em vez do Miguel Lopes. Mas aceita-se. Pelo menos não houve grandes escândalos tipo não levar o Moutinho só porque ainda não jogava pelo clube certo.
Dependendo do resultado do Holanda - Alemanha, ou fase de grupos ou meias finais. Se passamos o grupo e perdemos com qualquer equipa do grupo A nos 1/4s ficarei MUITO desiludido...

Infante disse...

"E as coisas não tendem a melhorar com a política dos clubes com responsabilidades nesta matéria (e dos seleccionadores que teimam em só ver futebol dos 3-4 clubes dominantes)."


De acordo, mas isto acaba por ser também uma faca de dois legumes, como dizia o "génio". Se o seleccionador se pusesse a convocar jogadores dos clubes de meio da tabela de Portugal, aposto que ia levar logo pancada dos comentadores e dos adeptos (que, também eles, só se interessam pelos 3-4 clubes e o resto é para abater). "O quê? um jogador da Olhanense/Rio Ave no Europeu? Mas que m*** é esta??"

E, verdade seja dita, não sei se há muitos jogadores dos pequenos/médios portugueses a justificarem chamadas à seleccção neste momento. Por um lado, porque, como assinalaste, têm poucas oportunidades de brilhar; mas, por outro, porque também não estão a jogar a um nível assim tão elevado que justifique uma chamada a uma fase final (se fosse uma chamada a um amigável, a coisa seria diferente).

Dou o exemplo do Éderzito que muita gente andava, na primeira metade da época, a dizer que merecia ir à selecção, quando na verdade o tipo não fez nada de especial: 5 golos no campeonato, 2 na Taça, apenas um contra uma das melhores equipas (Sporting), enfim nada de maravilhoso.

Acho que, mais que tudo, os seleccionadores têm é de andar atentos aos meios da tabela dos principais campeonatos, onde há alguns portugueses a brilhar, e, no geral, jogando a um nivel mais elevado que os Olhanenses e Rio Aves.

master kodro disse...

Shankly, já nem falo desses dois, porque não vale a pena... E se passarmos a primeira fase temos um jogo acessível (comparado com os anteriores, pelo menos).

Jorge, a transição de que jogadores? Vai ver as equipas de juniores do Porto, Sporting e Benfica dos últimos três anos. Os ingleses sofrem de um problema semelhante e já lhes valeu não irem a uma fase final. E nós, por este caminho, lá chegaremos de novo.

Sobre o Viana, não o colocaria a titular, mas serviria para resolver questões mais complicadas à bomba em caso de necessidade.

Sobre o Moutinho em 2010, estamos a falar dos mesmos de hoje mais o Tiago e o Deco (e o Pepe contava como médio). Havia escolha, Hugo. Mais ou menos discutível, mas havia escolha, pelo menos nesse terreno.

O exercício perfeito para ver isto é tentar fazer um onze dos que ficaram de fora nas últimas 5 competições. E é assim que se vê bem o que se passa.

Infante, acredito que comessem o seleccionador vivo. Mas eu estou um bocadinho farto de ver jogadores a brilhar em clubes médios que mal põem o pé num dos 3G e são jogadores de selecção, quando antes nunca a cheiraram sequer. É uma evolução imediata.

master kodro disse...

Olha, se o Hugo Viana jogasse num 3G (como já jogou), não falhava uma convocatória. E o Braga não tem feito menos do que o Sporting nem muito menos do que o Benfica nos últimos 3 anos.

Infante disse...

OK, quando falaste no post em "3-4 clubes dominantes" parti do principio que já estavas a incluir o Braga. Sim, concordo que o Hugo Viana iria á selecção se estivesse num 3G, mas o Braga meteu lá 2 jogadores, tantos como o Sporting, e Benfica e menos um que o FCP. Acho que já podemos colocar o Braga nesse grupo em termos de fornecimento à selecção.

master kodro disse...

Ainda duvido, Infante. Continuo a achar que o Braga só teve direito a essa benesse porque não havia mesmo mais. Tirando o Carriço, talvez. Repara:

- Este ano o Porto usou 4 portugueses e estão lá todos.

- O português mais utilizado do Benfica foi o Nelson Oliveira... seguido pelo Ruben Amorim, que desde que foi para Braga não voltou à selecção (mas ainda foi enquanto jogador do Benfica esta época).

- o Sporting tem mais usados mas estão lá os titulares. O terceiro mais utilizado foi o Carriço que fez um terço do tempo possível...

Tenho a certeza que o Hugo Viana e o Hélder Barbosa se usassem outras cores estavam lá.

Jorge disse...

MK

Se o Porto, Sporting e Benfica so tiverem jogadores juniores estrangeiros em principio sera porque consideram esses jogadores serem de melhor qualidade que os portugueses e poderao formar equipas de melhor qualidade com esses jogadores.
Os jogadores portugueses iram jogar para outras equipas.
Teremos entao um campeonato em que os jogadores portugueses jogam contra equipas de melhor qualidade do que se nao houvesse estrangeiros. Isso e benefico para o seu desenvolvimento.
A parte mais importante do desenvolvimento de um jogador e o de competir com jogadores de qualidade superior, para que a fasquia seja elevada e o desafio seja maior.

master kodro disse...

Jorge, que eles consideram isso, não duvido. Mas diz-me o nome de três juniores estrangeiros que nos últimos 5 anos tenham saltado dessas equipas para os seniores (porque isto começou há algum tempo).

Jorge disse...

MK

Nao acompanho o futebol portugues de perto, portanto nao sei aonde andam os jogadores portugueses ou estrangeiros formados em Portugal, nem sei bem quem sao.
E dificil ver se a culpa e do que se passa a nivel de formacao ou do simples facto que o futebol e um desporto cada vez mais global, em que as equipas das ligas de topo recrutam jogadores de todo o mundo. Sendo Portugal um pais pequeno, e normal que o numero de jogadores nas equipas de topo seja pequeno. Alias acho que o numero de portugueses actualmente em equipas de topo e espectacular dada a dimensao do pais e o numero de jogadores jovens federados.
O importante e perceber que a qualidade de futebol de topo aumentou dramaticamente e nao da espaco para promessas, no entanto a qualidade de outras ligas (de paises outrora marginais ou segundas divisoes) aumentou e sao o lugar aonde parte da transicao se pode fazer.
As equipas portuguesas fazem isso com jogadores jovens de outras ligas e os nossos jogadores podem faze-lo noutras ligas.

Bruno Ribeiro disse...

O que eu não percebo - nem compreendo a falta de discussão - é como o João Tomás continua a ser ignorado. Mesmo sendo regularmente o melhor marcador português do nosso campeonato, a jogar no Rio Ave.

Continua a ser o único avançado nacional que demonstra ter o conhecimento do que o conceito de golo é. Deveria ser opção à frente do Nélson Oliveira - independentemente do facto de este ter um tremendo potencial que o tem - e mesmo do Postiga e do Almeida. Estes dois foram convocados pelo nome, e o Nelson pelos patrocínios.

A do Hugo Viana não se percebe, e a desculpa do P. Bento não é mais do que isso mesmo, uma desculpa.

Convenhamos que não é de esperar que passemos a fase de grupos, porque estamos num grupo complicadíssimo, com 2 favoritas ao título, e uma terceira equipa que já demonstrou que nos consegue bater. Se passarmos essa fase, a participação terá de ser considerada um êxito. Há que ser realista.