terça-feira, setembro 02, 2008

Os "profissionais" 3

0. A nata Hoje vamos dar descanso aos nossos "profissionais" (até porque Vânia Silva já deve estar a preparar aulas, Arnaldo Abrantes voltou a pegar no Gray por causa dos exames, Alberto Paulo está neste momento a resolver o problema de fusíveis da Sra. Ermelinda do 3.º esquerdo, João Costa foi ver se já começaram a demolição do campo de tiro da Figueira da Foz e Marco Fortes está à espera do treinador que sai da oficina de automóveis às 17.00, para treinar com orientação), para nos dedicarmos aos melhores do mundo e ao modo como eles lidam com a pressão de ganhar nos Jogos Olímpicos. Vamos mesmo falar dos melhores: campeões do mundo e medalhados em mundiais para ver se percebemos, de uma vez por todas, o que são desportos individuais.

1. Judo Um ano antes dos Jogos Olímpicos disputaram-se os Campeonatos do Mundo da modalidade, no Rio de Janeiro. Em comum entre as duas competições, incluindo masculinos e femininos, discutem-se 14 títulos e distribuem-se 56 medalhas (no judo há sempre duas de bronze). Querem saber quantos campeões do mundo conseguiram vencer o ouro olímpico? Dois. Dos 14 campeões do mundo em Setembro de 2007, dois não foram a Pequim, dois ganharam o ouro, um ganhou a prata, quatro ganharam uma das medalhas de bronze (portanto só metade ganhou uma medalha), um ficou em 5.º e quatro ficaram abaixo dos oito primeiros lugares (incluindo algumas eliminações nas rondas inaugurais). Sabem quantos dos 56 medalhados do Campeonato do Mundo conseguiram repetir uma medalha (de qualquer valor)? 22. O que faz de Telma Monteiro apenas uma gota no oceano dos 34 atletas que não conseguiram repetir a medalha dos Mundiais.

2. Atletismo A mesma ideia aplicada agora só aos vencedores dos Campeonatos do Mundo em Osaka, em Setembro de 2007. Dos 47 campeões do Mundo de Osaka, apenas 13 conseguiram repetir a vitória nos Jogos Olímpicos e outros 13 conseguiram levar uma medalha menos valiosa para casa. Um dos 13 que repetiram a vitória é português, Nélson Évora, pelo que a pressão dos grandes palcos, estatisticamente e apesar da amostra marginal, não parece afectar mais os nossos do que os outros. O campeão mundial de salto em altura não conseguiu ir à final (acabou em 21.º), o campeão mundial da maratona desistiu e, na final, a campeã mundial de lançamento do martelo fez dois nulos iniciais e fez um terceiro lançamento "patético", quem sabe se contou mal as voltas, a quase sete metros do seu record pessoal, e um dos favoritos à vitória no peso masculino, o americano Adam Nelson, fez três nulos na final... Vejam bem a falta de "profissionalismo" desta gente...

3. U.S.A. Track & Field Não há nação mais profissionalizada no atletismo do que os Estados Unidos. Para que se tenha uma noção do valor e da extensão da qualidade do trabalho produzido neste país, vamos pegar nos 100 metros e dizer-vos que, em 2008, houve 21 atletas norte-americanas que correram abaixo do tempo da oitava classificada nos Jogos de Pequim. Em masculinos, 10 conseguiram o mesmo. Basta um saltinho aqui para que se compreenda melhor a coisa.

A selecção americana de atletismo conseguiu 14 medalhas de ouro nos Mundiais. Desses títulos mundiais, apenas dois foram repetidos nos Jogos, os das estafetas 4x400. De resto, houve três medalhas de prata, um 9.º lugar de Gay nos 100 m (falhou a final), um 9.º e um 13.º lugares de Lagat nos 5.000 m e nos 1.500 m (repete-se, campeão do mundo nas duas distâncias), dois 12.º lugares nas estafetas 4x100 (desqualificados nas eliminatórias), um 7.º lugar de Hoffa no peso, um 33.º lugar de Walker na vara (sem marca, falhou as três tentativas na primeira altura escolhida) e alguns casos de atletas que não competiram nos Jogos por razões diversas, incluindo o falhanço (por lesão em competição) de Gay nas eliminatórias de 200 m dos trials norte-americanos. Estamos a falar de campeões do Mundo há um ano. Claro que houve outros títulos e medalhados, mas com aquela base de recrutamento, profissionalismo e condições de trabalho outra coisa não seria de esperar.

Não estaremos a pedir demasiado aos nossos "profissionais"?

master kodro

19 comentários:

cparis disse...

Quantos desses disseram que não iam competir "porque os outros eram muito fortes"?

master kodro disse...

Acho extraordinário que depois deste conjunto de informações seja essa a questão escolhida. Ainda mais extraordinário quando a atleta que disse isso, por desilusão no fim de uma prova em que não se qualificou para a final, competiu mesmo na segunda prova (só quem se interessa é que sabe que ela se preparou especialmente para a primeira). Mas essa escolha da questão só qualifica quem a fez, não a atleta, porque ela, apesar do que disse, foi. Aliás, nos últimos mundiais, conseguiu um 15.º lugar para Portugal, tal como já conseguiu, para Portugal, um título de campeã europeia júnior.

Pedro disse...

Outra vez o mesmo?
Mas desde quando é q as criticas tiveram a ver com medalhas? Tiveram sim a ver com atitudes (ou falta delas) e nunca com exigência de medalhas.

Mas sobre isso valia a pena ler o q Rosa Mota diz (e critica) sobre o caso. Penso q é alguem com toda a autoridade para falar do assunto. E ela não fala em medalhas, mas sim em atitudes.

psergio disse...

Mk, isto já começa a enjoar...

eu penso que 90% das criticas eram referidas ao que os nossos atletas disseram...
MAs já agora, quanto campeoes mundiais que não ganharam disseram que a culpa era do arbitro????
E qual dos atletas disseram que de manha era bom era na cama???
e quantos disseram que não competiam porque já sabiam que não iam ganhar???
e quantos dirigentes foram para pequim e os treinadores ficaram em casa???

kovacevic disse...

Gostei do texto. Excelente.

Ricardo disse...

A pesquisa é interessante e está muito bem explanada. Parece-me é que te desvias, enunciando e bem o histórico de vários atletas e resultados conseguidos, da razão primordial das críticas que foram feitas a alguns (A ALGUNS, NÃO TODOS) atletas portugueses. A questão está menos naquilo que conseguiram do que na forma algo ou, em alguns casos, muito leviana como foram encarados estes Jogos por parte de alguns dos nossos representantes. Ninguém pedia grandes resultados a amadores ou a gente com muito pouco apoio; o que se pedia - e não foi visto, em certos casos - era um total empenho e competitividade. E, já agora, que não fossem proferidos disparates - pedido largamente contrariado por alguns pobres coitados.

"a campeã mundial de lançamento do martelo fez dois nulos iniciais e fez um terceiro lançamento "patético", quem sabe se contou mal as voltas, a quase sete metros do seu record pessoal"

"Quem sabe?" Eu não sei. Tu talvez saberás como foi esse terceiro lançamento. A prestação da Naide Gomes foi, para mim, patética. Uma campeã que depois de dois nulos fica a contar os passinhos em vez de arriscar, peço imensas desculpas, não demonstra espírito vencedor na prova mais importante das outras, ou seja quando mais conta e mais se espera que ela se apresente forte ou, ao menos, se não conseguir ter uma boa prestação, corajosa.

Ricardo disse...

* mais importante de todas

Filipe disse...

Não adianta MK, a opinião pública continua a pensar que um indivíduo calão e sem atitude consegue os mínimos olímpicos. Não se tratou de um grupo de excursionistas escolhidos entre associações de amadores. Aqueles atletas tinham conseguido os mínimos olímpicos, e como a lista mostra, mesmo indivíduos com estatuto de campeões falham nestes momentos.

Essa coisa de os criticarem pelas afirmações é mais ignóbil do que criticarem-nos pelos resultados. São humanos, prepararam-se durante anos, e falharam. É uma frustração muito grande. Eu lido mal com esse tipo de coisas, felizmente o que faço não interessa minimamente os jornais nem a opinião pública.

Valha-nos Deus que um deles se lembrou de dizer uma piada. Felizmento o COP Encurtou-lhe logo a estadia e mandou-o para casa.

A única coisa que a mim me desagrada é quando questionam o valor da vitória dos adversários (tal como a Telma com os árbitros). Isso pode ser aceitável num certame local, não numa competição planetária.

Pedro disse...

Os gajos do raguebi não eram amadores? Os gajos do raguebi tb não eram gajos q tiveram q meter férias para ir ao mundial? Os gajos do raguebi não deram tudo o q tinham em campo?

Ninguem lhes pediu para ganhar aos All Blacks mas todos ficaram agradados com a postura, atitude, garra, vontade, etc.

E ir ao mundial de raguebi tb não é para todos. Podiam lá ter chegado e ir "pás putas"....mas não foram pois não?

master kodro disse...

Sem comentários.

pitons na boca disse...

Querem lá ver. Claro que o Marco Fortes estava a falar a sério. Nunca ele tinha falado tão a sério na vida dele. E depois veio o Coelhinho...

-Não, não, o Coelhinho foi com o Pai Natal e Palhaço no comboio ao circo!

Ou seria Suchard Express?

Espero que depois disto fiquem mais esclarecidos.

(MK, eu também tentei, mas não vale a pena)

Jorge disse...

O mal de Portugal e que esta cheio de atletas de sofa que querem que os outros realizem os seus sonhos.

E incrivel a pressao que se poe nos atletas em Portugal.
Os EUA fizeram uma das suas piores performances em atletismo de que eu me lembro e por estes lados nao vi grandes criticas aos atletas.
Alias nem quando as estrelas da NBA perderao conta equipas de meio da tabela os jogadores foram tao criticados como vejo atletas amadores se-lo em Portugal.

Leão de Alvalade disse...

Isto pode ajudar a perceber melhor. 500€/mês e querem mais? Já agora isto

master kodro disse...

Obrigado pelo contributo, leão de alvalade. Não sabia que a fogueira tinha chegado a esse ponto. Para mim são muito importantes as palavras de Moniz Pereira, provavelmente a maior figura da história do desporto português.

Bada Bing disse...

João Querido Manha responde:

http://www.record.pt/noticia.asp?id=803144&idCanal=477

cparis disse...

jorge,

Não digas disparates. Qual foi a pressão que se colocou ao Marco Fortes, ou à Jessica Augusto? Lê o que um editor da ESPN escreveu na altura

http://sports.espn.go.com/oly/summer04/basketball/columns/story?id=1860013

E há mais no mesmo sentido, basta procurares.
Quanto ao público americano, fã da NBA, esse não criticava porque pura e simplesmente está-se a borrifar para os Olimpicos (equivale à Supertaça para os portugueses). Mas a nível desportivo, houve bastantes criticas e pressão. O treinador americano dizia: "I'm humiliated".

cparis disse...

Ainda bem que a escolha da questão só me qualifica a mim. Tal como a escolha das palavras dela só a qualificam a ela. Tal como as tuas críticas à Vanessa só te qualificam a ti.

Acho bem que oiças o que outros, tipo Moniz Pereira ou Rosa Mota dizem. Pessoalmente o simples facto de Moniz Pereira ter dado uma conferência de imprensa ao lado do Marco Fortes é demonstrador do seu alto nível. Tratou o atleta como profissional e não como coitadinho.
Gostava de ter visto alguém do COP a fazer isso no dia a seguir a ele ter dito aquelas infelizes declarações. Preferia isso mil vezes a terem-no mandado para fora.

PS: Vanessa apesar do que disse, trouxe a medalha. Obikwelu não foi aos 200 metros mas, pelo que disse, toda a gente percebeu. Jessica correu(obrigada), tal como Marco que veio para casa, e desistiu passava dos 3000 metros. Natural.

O que não é natural é que critiques uns atletas pelo que dizem e não gostes que se critiquem outros pelo que dizem.

Jorge disse...

Cparis:

Em primeiro lugar devias comentar de uma forma mais correcta.
Em segundo lugar, segui quatro jogos olimpicos em Portugal e quatro jogos olimpicos nos EUA, para alem de outras competicoes, e sei bem mais do que estou a falar do que tu.
Finalmente, eu referi-me especificamente a criticas dirigidas a atletas e a pressao posta sobre os atletas. Podias ter lido o que eu escrevi e o artigo cujo link colocaste e talvez tivesses percebido.
Este ano a estafeta 4x100 foi perdida nas eliminatorias porque um atleta deixou cair o baton. A quente os comentadores da NBC criticaram a federacao americana de atletismo por ter estado um longo periodo antes dos olimpicos sem direccao. Podem ter ou nao ter razao, mas a reaccao imediata foi a de criticarem a organizacao e nao os atletas envolvidos.
Le o artigo da ESPN, se bem que seja so a opiniao de um dos milhares de jornalistas desportivos deste pais, e ve se percebes.

master kodro disse...

Acho extraordinário que já te tenhas esquecido do que escreveste não sobre declarações mas sobre os atletas e as suas prestações. Relativamente às palavras de Moniz Pereira, lê bem todas as palavras e pode ser que encontres lá uma surpresa. E daí, talvez não encontres.