segunda-feira, julho 07, 2008

Wimbledon? Nunca ouvi falar.

Não sei como explicá-lo.

Tu que és comuna até à medula, vais ao Avante sem ser por causa dos concertos, das bubas, dos fumos ou das gajas, achas que a Coreia do Norte não é uma ditadura, que as FARC são uma ONG de cariz humanitário e que Estaline promoveu a paz e a concórdia no mundo, foca-te nos métodos de Rumsfeld, centra-te nas palavras de Alberto João Jardim num qualquer comício, pensa nos dentes brilhantes de Paulo Portas à entrada de um mercado.

Tu que és do CDS, não do PP com as suas modernices neo-retro-gayzola, que tens 5 gravatas azuis e amarelas, listadas na oblíqua, chamas-te qualquer coisa Maria, defendes que um míssil israelita num hospital palestiniano é um acto praticado em legítima defesa e não bates uma porque achas que estás a fazer um aborto, pensa nos perdigotos de Odete Santos, ouve o tom de voz de Francisco Louçã a falar dos lucros da banca, concentra-te na boca do Garcia Pereira a soletrar PCTP-MRPP.

Tu que és do Benfica, lembra-te do Fernando Couto e do Jorge Costa. Ou do Luís Filipe. Tu que és do Porto, pensa na Leonor Pinhão, no Cunha Leal e no Barbas. Tu que és do Sporting, pensa no Simão do outro lado, pensa no Carlos Martins do teu lado e do outro lado, pensa no Farnerud em qualquer lado, que não seja o outro. Se fores o Paulinho Santos, pensa no João Pinto. João Pinto, pensa no árbitro de 2002. Coroado, pensa no Caniggia. Sá Pinto, pensa no Artur Jorge. Zéquinha, não penses. Scolari, pensa no minino. Agora todos, pensem no Barbas. Ou no Rui Santos.

É mais ou menos isso, tudo junto, que eu penso do rapaz que escapou a uma carreira num ringue de boxe, ou a fazer maratonas, ou a ser lenhador no Alasca, ou bombeiro na Califórnia, o rapaz que faz parecer Rehagel um mestre da estratégia ofensiva, o rapaz que eu vi a erguer não sei bem o quê, que é pertença de outrem, ainda por cima. Um larápio, em suma. E com um aspecto sebento. E deve ser amigo do Nuno Gomes, porque está sempre a tirar as cuecas de dentro do respectivo. Na volta, conhece a Isménia. Adiante.

O pior foi quando convenci a minha maria (que não é um gajo do CDS) a fazer um novo depósito naquela casa conhecida, especializada em 'emoções desportivas', que a Santa Casa e os casinos não apreciam, não sei porquê. O último depósito - outra vez, o último -, porque aquilo que estava a acontecer não estava realmente a acontecer, porque não podia ser, porque um serralheiro, um carpinteiro, um boxeur só se pode dar bem no tijolo, quando muito no piso duro de um ringue. O tempo deu-me razão e logo duas vezes. Primeiro, porque parecia que a coisa estava mesmo a virar. Depois, porque tive a confirmação inequívoca que o penúltimo depósito devia ter sido mesmo o último.

É um desporto muito estúpido, o ténis, não é? Agora que o rapaz teve a infinita sorte de lhe cair do céu um título em erva, posso finalmente reconhecer qualquer coisa, sem grandes problemas, e num espírito de imenso fair-play que me caracteriza, principalmente quando estou a dormir: o gajo é um boi.

master kodro

13 comentários:

JPS disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Excelente texto.

Herói disse...

"Zéquinha, não penses."
palminhas de pé!muito bom mesmo :)

Henrique Maia disse...

"João Pinto, pensa no árbitro de 2002. Coroado, pensa no Caniggia. Sá Pinto, pensa no Artur Jorge. Zéquinha, não penses. Scolari, pensa no minino. Agora todos, pensem no Barbas. Ou no Rui Santos."


Brilhante.

Miguel disse...

Muito bom Master! Muito bom!

galvao99 disse...

Nas palavras do Federer, é uma rocha. E é mesmo. Sólido, talentoso, bonito, ambicioso, cheio de bazófia, fortissimo psicológicamente. É o Cristiano Ronaldo dos Espanhóis.

Anónimo disse...

Estreio-me a comentar neste blog e só consigo dizer que este texto é absolutamennte espectacular.

master kodro disse...

Obrigado, pá.

Hugo disse...

Muito bom mesmo

José Leal disse...

Passadas muitas semanas decidi passar por cá.

E o texto está muito bom, muito bom.

Tive imensa pena de não poder ver o jogo.

E sim, por acaso não vou muito com o estilo do Nadal. Parece que devia haver ali mais alguma coisa, algo mais original.

verdao(sl) disse...

venho aqui com assiduídade. normalmente não comento. mas hoje, depois de ler este post, sou obrigado a dizer: excelente!

atribodofutebol disse...

É a primeira vez que comento neste blogue. O "post" é, de facto, muito bom. Quanto à aposta, fica uma lição para o futuro: num encontro Nadal-Federer é abusar da sorte apostar no segundo. Por mais talento que tenha (e é muito). Sobretudo quando do outro lado está um jovem com aspecto de culturista, mas que é provavelmente o jogador mais bem preparado física e mentalmente que já pisou um "court" de ténis.

Saudações desportivas

Bruno Pinto disse...

Portentoso post!