Hoje não me apetece falar de futebol e, por isso, não vou falar do pão que saltou dos pezinhos açucarados de Lucho para a boca de Jackson, nem de Fernando a encher o campo, com Defour ao lado, à frente e atrás, nem da bicicleta que Mangala foi buscar à garagem, nem das falhas de Otamendi, que já começam a enjoar. Talvez esteja aborrecido porque o registo de Paulo Fonseca já não é o espelho do de Vítor Pereira. Ou talvez me apeteça simplesmente música.
Reparem no baterista. Quando não aguentarem mais o suspense, quando já não houver unhas para roer, imaginem o «vosso» treinador com uma peruca daquelas. Comigo resulta.
Um sorriso incerto, igual ao que me trouxe o golo de Jefferson há alguns dias, talvez um pouco mais aberto, mas igualmente irresoluto, entra pela janela do meu quarto. Belisco-me, desconfiado, confirmo que estou acordado e que lá fora está um céu completamente azul.
Ligo a televisão, recordo aquele momento em que a bola sobe até à eternidade: ouve-se um bruaá crescente, Vítor Pereira prepara o sprint da sua vida, as pernas de Jesus tremem, prestes a ceder, falta tão pouco, o céu e o inferno nunca estiveram tão próximos, a besta e o bestial lutam até à morte por aquela fracção de segundo, a bola cai, finalmente cai, Kelvin enche o peito de crença, aponta o pé esquerdo para a zona indefensável da baliza de Artur e... a puta da imagem falha.
Onde é que este(s) gajo(s) andaram até agora que nunca me tinham aparecido à frente? Ou será, onde é que eu tenho andado? Os Arcade Fire holandeses que são mais Arcade Fire do que os Arcade Fire.
Música: "Flame on my Head" Álbum: "Heavy Flowers", 2012 Interpretação: Blaudzun
Sempre que não há sistema, o Benfica é campeão. Sempre que o Benfica é campeão, não há sistema. E vice-versa, e versa-vice. Confesso que já tenho uma certa saudade do sistema. Isto das vitórias limpinhas não tem piada nenhuma.
Música: "Breakin the Law" Álbum: "The Babies", 2011 Interpretação: The Babies
Nada como um abraço do tamanho do sol, entre Pinto da Costa e o treinador revelação do século, para compensar o futebol que não se joga por cá (nem lá, em Israel e no Azerbaijão).
Lembrei-me de um fim de tarde de Verão, sentado em frente ao Atlântico e ao lado de quem me ensinou a verdade sobre o sol. É mais simples do que parece. Foi assim: sentámo-nos e esperámos, parcimoniosamente esperámos, esperámos pelo pôr-do-sol. E o sol lá se pôs, como não podia deixar de ser. E foi então que não percebemos o que fazíamos ali. A essência do momento, tudo aquilo que o precedeu e teve relevância, foi-se com o lusco-fusco. Talvez volte pela manhã, com um poema ensaiado na véspera:
Eis o rosto da noite, semicoberto, hipnótico, imagem por entre a névoa iluminando-se. Palco de sonhos evanescentes, refluídos? Pouco me importa, a multidão dos meus olhos acorre ao ambivalente espectáculo dos sentidos. Sei que me esperas, algures, num desses minutos que cantam. Na pausa do violino, no requiem do piano, encenas ainda a nossa dança. Sossega, hei-de encontrar-te. E será tarde para que nos amemos.
Ou talvez não. Mas o título é merecido.
Música: "I Don't Believe In Love" Álbum: "Girlfriend ", 2011 Interpretação: We Are Trees
Uma das vantagens de não ter visto o Sporting x Porto, de sábado passado, é não ter assistido, em directo, à enganadora - bela, mas inconsequente - posse de bola, uma imagem de marca do Barcelona português, que ainda recentemente bateu o recorde da Liga, com uns fantásticos 78%, no empate caseiro com o Olhanense...
Muito mais pragmático foi o Benfica, que se deu ao luxo de ter menos posse de bola e de fazer menos remates do que o Beira-Mar e lá está, em cima, a rir-se e a mascar chiclete. Por enquanto...
Também me quer parecer que os leõezinhos, que festejaram o 0-0 caseiro como se tivessem acabado de se sagrar campeões nacionais, depressa regressarão à dura realidade de terem de fazer mais do que chutar a bola para as costas da defesa contrária, para conseguirem mais do que um pontinho. Mas isso é problema deles.
O que me interessa é o regresso de Jackson aos golos, e de James à sua melhor forma, e ver novamente Mangala a voar acima dos mortais, e que Varela faça mais do que ser tacticamente disciplinado a defender, na grande maioria dos jogos - isto porque já se percebeu que Atsu terá o mesmo longo e tortuoso caminho que teve de percorrer James, se tiver sorte... E, claro, que o Porto regresse rapidamente a um futebol consequente que traga vitórias, nem que seja com 20% de posse de bola.
Música: "Same Mistake" Álbum: "Hysterical", 2011 Interpretação: Clap Your Hands Say Yeah
«Three guns and one goes off, one's empty, one's not quick enough» e visualizo a cena do cemitério: «search the graves while the camara spins». O vilão, o alvo fácil, ainda meio zonzo por causa do prometido contrato milionário (ninguém lhe disse que teria de cavar - azar), espera chegar, ver e arrancar para o céu da Europa. O mau da fita, está visto, é o clube, que no fim acaba enterrado em dívidas porque não conseguiu disparar a tempo, por falta de liquidez. O bom é o intermediário (seja ele dirigente, empresário ou as duas coisas). É o mais rápido no gatilho, ninguém o consegue apanhar, sai sempre a lucrar e, de vez em quando, num acto de benevolência assinalável, dispara sobre uma corda e cai um Jardel (em potência) na frente de ataque. Depois, desaparece lentamente de cena, no seu cavalo dourado.
Ainda não editados, mas já merecem um cantinho no 442. Senhoras e senhores, a next big thing da música leiriense: First Breath After Coma. Mais sobre eles aqui.
Música: "The Escape" Interpretação: First Breath After Coma kovacevic
Não, não vou falar dos novos mesmos hábitos de Maxi Pereira nem da encarnada imunidade diplomática de que eles gozam, até porque hoje há violinos a dançar na rua e é um daqueles dias em que apetece ficar na cama, a ouvir a chuva a cantar na janela, enquanto se come umas torradas e vê o Cirque du Soleil, ou se sonha mais um bocadinho com a Scarlett Johansson.
Claro que nem sempre foram estas as prioridades. Recordo, por exemplo, um dia tão cinzento como o de hoje, mas insuficiente para quebrar o entusiasmo de onze primaveras - porque nessa altura era sempre primavera - acabadas de fazer. O importante era aquela coisa quadrada, longe da geometria da vida, pousada por baixo das escadas.
O miúdo estremeceu. Não lhe parecia nada aquilo que tinha pedido. Rasgou o papel, abriu a caixa e lá estava ela, redonda, desafiante, pronta para ser estreada. A outra estava velha, dava para pegar pelas orelhas de couro descosido. Esta era novinha em folha e brilhava quase tanto como os seus olhos de criança.
Vestiu a camisola azul e branca e saiu para o pátio, imaginando estar a entrar naquele majestoso estádio azul que o tio lhe tinha mostrado algumas semanas antes, durante um jogo que o Porto acabaria por perder para o Benfica. De pronto, marcou um golo na baliza imaginária que ficava entre a pia e o enésimo vaso que, pacientemente, alguém tinha colocado naquele ponto estratégico.
Quando somos pequenos, tudo nos aparece ampliado. Depois, lentamente, há coisas que vão mingando: as vitórias do Benfica no Porto, os sonhos, com a Scarlett e os outros - aqueles que se sentam à mesa connosco -, a camisola deixa de nos dar pelos joelhos e passa a ter as cores que o trabalho exige, e o pátio passa a ser apenas o pátio, com o seu exacto tamanho, embora um pouco mais desgastado e já sem o tanque de lavar a roupa.
Mas há outras coisas que permanecem enormes, imunes ao desgaste do tempo, como aquela bola petulante que, nesse mesmo dia, haveria de entrar, com estrondo, pela janela do vizinho benfiquista.
Música: "Just the Same But Brand New" Álbum: "Actor", 2009 Interpretação: St. Vicent
«Here comes everybody», o título do tema de uma banda que eu tive o prazer de conhecer recentemente e que não deverá estar longe daquilo que pensava Ricardo Ferreira, sempre que via James, Jackson e Cia. a atacar, como se não houvesse amanhã, a sua baliza.
Ganhar 5-0, num jogo em que Vítor Pereira teve de fazer 3 substituições forçadas, é obra. Não houve uma única exibição negativa, na equipa do Porto. Foi um recital de futebol ofensivo, do princípio ao fim, que não deu quaisquer hipóteses à equipa de Pedro Martins. Parabéns aos jogadores. Parabéns ao treinador. Muitos jogos assim.
Música: "Here Comes Everybody"
Álbum: "Future Perfect", 2004 Interpretação: Autolux