Há momentos difíceis de compreender em futebol. Vukcevic acabara de aplicar um excelente remate ao qual Nuno respondeu com uma não menos excelente defesa. Defendeu para onde deu. Deu para Postiga, completamente isolado, com o guarda-redes a tentar levantar-se do chão. Parece óbvio, não é? Lembrei-me do Gabriel Alves. Nuno Herlander Santos do Espírito Santo, 35 anos de idade, subjugado pela conjuntura que o limita a um quarto dos seus 188 cms de altura, numa luta inglória contra a gravidade, tenta elevar os seus 88 quilogramas para evitar que Hélder Manuel Marques Postiga, ponta-de-lança internacional português, 26 anos, 33 centímetros de perímetro de coxa, concretize o inevitável encontro marcado com o seu destino, o golo.
Mas o pior veio depois. Não sabemos o que se passou pela cabeça de Hélder Postiga nos momentos seguintes. É verdade que a bola não estava rente à relva, mas não há nada que explique a estranha dança que o avançado resolveu empreender. A bola estava ao alcance do seu pé esquerdo - Postiga flectiu essa perna. A perna direita, que devia apoiar o movimento, foi lançada para trás. Só se pode imaginar o que terá passado pela cabeça do homem. Terá pensado em algo que Paulo Bento tenha dito? "Futebol, pé, andebol, mão" ou seria "Andebol, pé, futebol, mão"? Na dúvida,
passou à ideia seguinte. Será que, como eu, também Hélder Postiga se lembrou de Gabriel Alves e baralhou um conceito, transformando "Rematou com o pé que tinha mais à mão" em "Rematou com a mão que tinha mais ao pé"? Nunca saberemos. A única certeza que tenho é que Hélder Postiga, face à situação adversa que se lhe deparou, escolheu a melhor opção. Tenho a certeza disso e os livros não me deixam mentir.master kodro