quarta-feira, abril 29, 2015

A pele em campo ou o sexo dos anjos

Estive a ouvir, com uns dias de atraso, os comentários de Manuel Serrão ao jogo da Luz. Disse ele que não viu ninguém do Porto (nem do Benfica) a deixar a pele em campo. E lembrei-me, imediatamente, de duas coisas. A primeira foi dos vários múltiplos colapsos que os especialistas do futebol moderno teriam, se, por acidente, ouvissem aquelas palavras, porque, para eles, entendidos, comer a relva é estar organizadamente no sítio certo, na hora exata, de forma a chegar primeiro do que os outros onde quer que seja. A segunda foi da sequência que deu o primeiro título europeu ao Porto - e já explico porquê, a quem tiver a paciência de me ver recorrer, pela enésima vez, a este jogo histórico.

O futebol evoluiu muito, é um facto. Hoje é muito mais pensado e organizado, mas deixa cada vez menos espaço para a criatividade, para o génio e para fatores emocionais porque isso traz imprevisibilidade a um jogo que se pretende que seja executado na exata medida do que foi planeado. Ao resto chama-se aleatoriedade. O Porto não foi à Luz para jogar à Porto - aquele Porto que se decifrava intuitivamente através de um complemento que me dizem estar obsoleto e que não vinha nos livros. O Porto foi para ganhar de forma organizada e inteligente. Só que isso não chegou porque do outro lado esteve uma equipa capaz de prever isso e de se organizar em função disso. E não houve mais nada.

Olho 28 anos para trás e vejo Madjer a reentrar em campo, depois de ter sido assistido e de se ter tornado imortal, a deixar Winklhofer entretido a contar os dedos dos pés e a colocar a bola entre o cruzamento para Juary e o corte de carrinho de Nachtweih. O que aconteceu a seguir é história, mas só foi possível porque Madjer esqueceu as cãimbras, pôs o artista de lado e deu tudo o que tinha para chegar àquela bola e oferecer-lhe o final feliz que ela merecia. Deixar a pele em campo é isto e, se não é, devia ser intemporal e compatível com qualquer versão do futebol. E isto, de facto, não esteve presente na Luz.

1 comentário:

miguel.ca disse...

Pois é Litt, por estes dias a pele está muito cara e não se pode andar a deixa-la por aí senão depois vêm os saltos para outros campeonatos e se a pele não estiver polida e brilhante lá se vai o negócio, as comissões e essa treta toda.