quinta-feira, maio 03, 2012

O legado de Vieira, Jesus e Costa

O sucesso desta tripla pode ser medido em várias vertentes, mas existe uma que tem reflexos inclusivamente na selecção nacional, para além de um significado interno que poucos querem reconhecer: o Benfica empregou apenas 3,13% do tempo de utilização disponível com jogadores portugueses, em 28 jornadas da liga portuguesa. É uma utilização de cerca de um terço de jogador português por jogo. Muito se teoriza sobre a inevitabilidade desta condição, contudo uma análise mais vasta à utilização de portugueses por parte dos clubes da liga mostra a enorme distância a que os outros clubes se encontram: Porto e Marítimo estão nos 18%; o Sporting nos 26%; o Braga nos 38%. Pode haver uma tentativa de indexar esta percentagem ao rendimento desportivo (de facto os dois primeiros estão abaixo dos 20%), mas os 23% da União comparados aos 67% do Beira-Mar ou os 33% do Vitória ao lado dos 24% do Nacional mostram que não se trata de uma correspondência directa ou decisiva (existem mais 7 equipas com percentagens entre os 36 e os 68% e a excepção Marítimo com 18%).

O drama desta realidade, para lá das consequências para a selecção, está em questões de identidade e de respeito para com a história do clube - algo que se estende ao Porto, embora, neste caso, a realidade seja ligeiramente diferente. Estamos a falar do oposto do que Vieira diz defender. Não basta olhar para a história e promovê-la; é preciso aprender com ela. E a história diz que o Benfica jogou a final da Taça dos Campeões em 1988 com 7 portugueses no onze; a história diz que o Benfica jogou a final da Taça dos Campeões em 1990 com 6 portugueses no onze, já para não falar nas conquistas de 60, com outro enquadramento.

Juntando a realidade do Porto (que com 18% de utilização segue um caminho idêntico, com as mesmas repercussões), a Taça dos Campeões de 1987 foi ganha com 8 portugueses no onze e a Liga dos Campeões de 2004 (há apenas 8 anos) com 9 portugueses de início (e poucos meses depois metade dessa equipa foi a base da selecção que ficou em segundo no Europeu).

Está na hora de alguém perceber que há variáveis como o sentimento, como o compromisso com uma camisola e um símbolo, como a mecanização de uma estrutura e de relações entre jogadores que dezenas de milhões de euros não compram (e que não pesam no passivo e muito menos nos montantes - mais de 400 milhões - que a SAD do Benfica construiu nos últimos anos). Quando perceberem isso, dirigentes e adeptos do Benfica (e dos outros) vão deixar a triste (e falsa) ladainha dos árbitros e assumir as suas próprias responsabilidades e, com sorte e trabalho, voltar a finais da Champions e, aí sim, respeitar a história do clube.

master kodro

19 comentários:

LDP disse...

Tudo muito bem.

Mas que comentário te mereceu a não inclusão de Quim, Carlos Martins e Amorim no lote de jogadores que foram á Africa do Sul, na altura?
Qualquer um deles com um papel importante na conquista do campeonato. Jogadores com a moral tão em alta que só podiam fazer com que a selecção fosse mais forte na competição. Pelo menos mentalmente.

Em vez tiveste Beto e Daniel Fernandes na baliza, Ricardo Costa, Pedro Mendes...

Repito, tiveste 4 jogadores portugueses campeões nesse ano. Quim não foi chamado nem para suplente do suplente. Carlos Martins ficou em casa a ver o mundial na tv e Amorim só não ficou também porque Nani se lesionou. Não chamar também Coentrão era um insulto ao insulto.

Na altura quais foram as tuas considerações sobre "jogadores portugueses e percentagens de utilização" em relação ao empobrecimento da Selecção? Lembras-te?

Infante disse...

Não são só as finais dos anos 60 que têm outro enquadramento; as de 88 e 90 também. Qualquer época pré-Bosman parece a pré-história hoje em dia.

Mas é óbvio que estou de acordo com o geral do post. Faz um bocado de impressão ver os melhores clubes portugueses a entrarem em campo com 1 ou 2 portugueses e às vezes mesmo sem nenhum.

E é bom ver que concordas que não existe correspondência directa entre o número de portugueses e a qualidade das equipas, ao contrário do que nos querem convencer os maus comentadores desportivos, de que o campeonato seria muito melhor se não houvesse jogadores estrangeiros, como se nós fossemos o Brasil ou a Argentina. O sucesso do Athletic Bilbao trouxe - e bem - a discussão dos méritos da cantera, mas infelizmente também trouxe ao de cima muito xenofobia parva.

O legado do Vieira + Jesus pode ser o de cuspir no jogador português, mas, na verdade também é o de um Benfica como já não se via desde os tempos dos 6-3 em Alvalade (o que também diz mais da incapacidade dos treinadores/dirigentes anteriores). Idem para o Braga que conseguiu as melhores épocas da sua história com equipas carregadas de estrangeiros.

A coisa é um bocado mais complicada do que "mais portugueses = melhor equipa".
Em relação à identificação e ao amor à camisola, pois, também é mais fácil dizer isso quando falamos dos gigantes europeus. Mas quando falamos de clubes de um campeonato de segundo plano - que não são mais que "Médios +" na Europa - a coisa torna-se mais complicada. À primeira oferta, lá vão eles à conquista de novos mundos.

Acho que a questão financeira é mesmo o melhor argumento que se pode dar a favor da cantera. Em vez de se gastar balúrdios em jogadores que podem não valer esse dinheiro, tentar ver se há algum na cantera que renda mais ou menos o mesmo em campo e que renda bom dinheiro numa transferência. Ganha toda a gente.

Considerações líricas sobre a história e a identificação são bem bonitas quando já se joga no topo (daí uma certa hipocrisia com a história do Barça perfeito e cristalino).

Pedro disse...

LDP onde está a tua critica ao Scolari por ter deixado Vítor Baía de fora de duas grandes competições, sendo ele campeão português e europeu?

Hipócrita.

LDP disse...

Calma pedro. Eu dei UM exemplo baseado numa época desportiva. Não disse que SÓ havia aquele exemplo.

Em vez de perder tempo a insultar gratuitamente, usa essa tua força a procurar o que foi dito sobre o Baía aqui, há coisa de 2/3 meses.

Eu segui a temática do post ao falar em quatro jogadores com presença assídua num onze campeão mas que não foram chamados. E, de acordo com a preocupação patenteada pelo kodro, gostaria de saber a sua opinião sobre isso. Já tu quiseste somente pessoalizar e insultar-me, usando o Baía como veículo. Quem é o hipócrita afinal?

master kodro disse...

Infante, o acórdão Bosman é relativo a jogadores comunitários, o que neste caso específico se aplica ao Witsel e aos 4 espanhóis. Falta explicar os outros 13, que são todos titulares e suplentes utilizados com frequência (e os outros todos que andam por aí). Tens razão que por ser português não tem que ser melhor. Mas pelos valores que se pagam, muitos dos melhores estariam cá, sem períodos de adaptação (para além dos da casa).

LDP, o Quim pôs todo o apuramento em perigo no primeiro jogo com a Dinamarca, um dos melhores jogos que a selecção fez nos últimos anos. Indirectamente, ofereceu a Queiroz todo o sobressalto que foi a fase de qualificação, travou a renovação que Queiroz iniciou e transformou o Queiroz num treinador defensivo. E se alguém tiver dúvidas sobre isto que reveja o Portugal x Dinamarca. Eu teria feito o mesmo, provavelmente.

Sobre o Carlos Martins, é um dos meus jogadores preferidos e não havia 10 suplente, portanto, mesmo não me lembrando, posso dizer-te já que o teria levado eu (e nessa altura havia benfiquistas a dizer que ele era uma merda e outros que tinham mudado de opinião porque ele tinha mudado de cores).

LDP disse...

Concordo quase plenamente, kodro. Mas atenção que eu não falei de um Quim titular na Africa do Sul...

Mas Beto? Daniel Fernandes? (já agora onde é que este gajo anda hoje?)

LDP disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno disse...

O motivo que levou a ausencia do Quim na convocatória para o Mundial da A.Sul foi após a goleada sofrida contra o Brasil.
Acho que foi após esse jogo,que o CQ fez esta declaração:
- "Já sei quem é que não vai para a selva comigo"

Presumo que nesse lote estava e esteve incluido o Quim.

master kodro disse...

Tens razão, Nuno. Fui verificar e o Quim ainda fez mais dois jogos oficiais depois da cena com a Dinamarca.

miguel_canada disse...

Esta conversa sobre o tema "cantera vs estrangeirada" é uma discussão que aparece frequentemente no blog "Reflexão Portista" e das variadas vezes que o tema vem à baila, a conclusão do mesmo pé invariavelmente a mesma e é assim que as coisas são doam a quem doer.
Qualquer administrador de uma SAD prefere contratar um jogador estrangeiro em vez de aproveitar um talento da cantera por uma, e apenas uma, razão muito simples. Uma transacção comercial gera comissões, luvas, pagamentos, sacos azuis, dinheiro no bolso de muita gente. O aproveitamento da cantera gera merda nenhuma e infelizmente, nos dias de hoje, já nem Pinto da Costa e sua tribo de sanguessugas põem o clube ou os reais interesses da equipa à frente da conta bancaria.
Castro é muito melhor do que Souza ou Defour, o Hélder Barbosa e o Ukra eram bem melhores do que o Mariano González ou o Cebolóide, o André Pinto é bem mais interessante do que o Mangala mas, se não gera comissão é carne para canhão!

master kodro disse...

Pois é, Miguel. Há muito profissional da comissão...

Joao disse...

O melhor mesmo é pôr os putos das formações a jogar num qualquer país da América Latina para ver se alguém por cá repara...

miguel_canada disse...

É por isso que a historia das equipas B seria fundamental que acontecesse para que houvesse um real e competitivo campeonato onde esses miúdos pudessem ter mais uma janela de oportunidade de puderem continuar sonhar com a equipa principal mas como infelizmente em Portugal tudo que seja para o bem do futebol Portugues acaba na gaveta da discórdia por pormenores secundários, vamos ter que continuar a ver as nossas equipas recheadas de Gonzales, Rodriguez e Eriveltons!

Infante disse...

OK, Miguel, mas em termos de aproveitamento de jovens, exactamente em que é que as equipas B seriam diferentes das legiões de emprestados que existem agora? É que estes apesar de tudo jogam na Primeira Divisão. Uma Equipa B teria de jogar na Liga de Honra.

É que vários desses miudos já têm "janela de oportunidades em futebol competitivo". Mas se nem o facto de os jovens brilharem em Rio Aves, Olhanenses, Académicas, etc, lhes garante um regresso ao plantel principal, como é que as equipas B, jogando num patamar inferior, iriam conseguir isso? Parece que estás a culpar apenas a Liga de todo este problema. Mas queres que eles vão com uma carabina obrigar os dirigentes/treinadores a utilizarem jogadores tugas?

Quanto ao resto, uma vez mais, compreendo – e apoio - a defesa da cantera em relação sobretudo às finanças (esta a principal razão). Mas... em relação à qualidade? Acham mesmo que este tem sido um grande problema do campeonato português, falando exclusivamente em termos de qualidade? É que eu sinceramente acho que não. Ou, pelo menos, não temos dados para dizer que é. O campeonato português, não sendo a maravilha que muitos pensam, é hoje bem melhor do que era há 10, 15, 20 anos.

Filipe disse...

MK, isso funciona para os dois lados. O Benfica tem agora menos portugueses do que nos 4 anos em que ficou em terceiro e quarto a fazer uma média inferior a 2 pontos por jogo.

Por muito desanimadoras que tenham sido estes três épocas a equipa rendeu bastante mais que nos 5 anos anteriores. O Benfica melhorou bastante, o problema é que o FCP acompanhou essa subida de rendimento. Isso e ter um mentecapto a orientar a equipa.

Carlos disse...

Antes:


Jorge Jesus, treinador do Benfica, comentou desta forma o empate frente ao Rio Ave e a consequente atribuição do título de campeão ao F.C. Porto. O técnico deixou poucas considerações sobre a perda de pontos na segunda metade da temporada:

«Como se perde um campeonato? Não conseguimos fazer mehor que o Porto, é o vencedor deste campeonato. Estivemos muitas jornadas à frente, perdemos alguns pontos num momento em que estávamos na Champions, não que isso sirve de desculpa. Não vale a pena estarmo-nos a desculpar com as arbitragens. Não vale a pena agora estar a falar nisso, não quero falar no passado.»

F.C. Porto é um justo campeão? «Os vencedores, quando ganham, é porque têm mérito e chegaram em primeiro. Já falámos de várias questões relacionadas com o campeonato, não me quero desculpar com elas, falar sobre elas agora.»

Depois:


Jorge Jesus, em entrevista ao jornal «A Bola», fala nas arbitragens como um dos motivos para a vitória do F.C. Porto no campeonato.

Em resposta a uma pergunta sobre a influência das arbitragens em alguns jogos, o treinador do Benfica responde o seguinte: «Se fizer as contas e a relação aos pontos perdidos nesses jogos (V. Guimarães, Académica, F.C. Porto e Rio Ave), com os erros cometidos, faz toda a diferença. São erros que valem o campeonato. (…) Levo três anos no Benfica e uma das coisas que sinto é que para ganharmos um campeonato aqui temos de jogar não apenas contra a equipa adversária. Temos de fazer sempre muito mais, porque fazer o suficiente não chega».

E acrescenta: «Sem os casos destes jogos e de outros, não tenho dúvidas de que o Benfica teria sido campeão. (…) Digo-lhe mais isto, os erros de arbitragem afetam desde logo a motivação dos jogadores nos jogos seguintes e, em consequência, o rendimento deles».

master kodro disse...

Filipe, o Benfica gastou 30 milhões por época em contratações e uma loucura em salários (e renovações) nas últimas três ou quatro. Por isso é que acaba em segundo (ou primeiro) nos anos recentes. A parte trágica é que luta até ao fim, em dois dos último três anos, com o Braga que não deve nunca ter gasto 2 milhões.

É o efeito João Gabriel, Carlos. Toda a estratégia de Vieira está montada nisto desde o princípio. O público-alvo apanha sempre o refrão.

miguel_canada disse...

Carlos, mas o Jajus...coitado, esqueceu-se de um pormenor interessante. É que não foi só o benfica que perdeu pontos com erros de arbitragem. O Porto também os perdeu e para o efeito que o jajus quer elevar, não se pode esquecer de os contabilizar também.
Mas é como o Kodro diz, primeiro falou com a voz da razão, com aquilo que em consciência sentia e depois falou sob as ordens do ordinário do Gabriel e da politica de "atirar poeira aos olhos dos adeptos mais burrinhos para disfarçar a própria incompetência".

Rearviewmirror disse...

O Benfica gasta uma loucura, mas os records orçamentais são batidos ano após ano pelo FCP.

Vá-se lá saber porque razão a comparação é sempre "o Benfica e o outro"