segunda-feira, junho 28, 2010

Portugal (de Queiroz), o hiper-defensivo

Confesso que estou baralhado com alguns conceitos que me têm aparecido à frente. Expressões como "autocarro", "retranca" e "à grega" foram usadas na caixa de comentários do 442 (nem imagino o que andará por aí fora) para ilustrar a exibição de Portugal contra o Brasil - e não só. Paralelamente, li elogios à mestria táctica de Eriksson (obviamente em contraponto à inépcia queiroziana) no jogo da Costa do Marfim contra Portugal.

Li, novamente nos comentários do 442, que jogámos com quatro centrais, dois laterais esquerdos e dois trincos contra o Brasil. Confesso que esta última foi a minha leitura preferida, principalmente a parte dos laterais, porque a dos centrais já tem barbas e a do Tiago-médio-de-contenção já se sabia que ia funcionar, assim que foi lançada num jornal, como aqui descrevi. Devo, desde já, eleger Tiago como o melhor trinco que passou pelo futebol português, quando marcou 13 golos numa época no Benfica, mas isso é só um pormenor certamente insignificante.

Do que gostei mesmo foi dos laterais Fábio Coentrão e Duda (por esta ordem de ideias, com 8 golos e 7 assistências na Liga espanhola desta época, estamos diante de um sério rival de Roberto Carlos na história do futebol espanhol), que, por acaso, se bateram no flanco com Maicon e Daniel Alves. Extremos, por certo (como se isso interessasse para alguma coisa).

Mas o que me intriga é se toda esta neblina defensiva tem suporte em algo de palpável. Presumindo que ninguém está triste por estarmos numa série respeitável de jogos sem perder e sem sofrer golos, presumindo que sabemos todos o que é que quer dizer jogar contra o Brasil, em competição, e fazê-lo com necessidade de pontuar para passar sem sobressaltos, vamos a alguns dados estatísticos. Podemos discordar da forma como são medidos e apreciados, mas sabemos que o são de igual forma para todos. Podemos dizer que não são a melhor forma de ilustrar a realidade, ao que respondo que são uma das únicas em que o preconceito não entra. Por favor, façam uma leitura de todos os dados em conjunto e não de apenas um.

Golos marcados Portugal acabou a fase de grupos como o melhor ataque do Mundial, a par com a Argentina. A meio dos jogos dos oitavos-de-final, sem termos jogado, ainda somos a terceira selecção com mais golos marcados. Foram todos com a Coreia do Norte? Foram. Fomos os únicos a jogar contra a Coreia do Norte? Não.

Remates No fim da fase de grupos (para nós), 14.º lugar entre 32 selecções, lembrando que oito já fizeram o jogo dos oitavos-de-final (não tive tempo para fazer as contas). Das 24 que ainda não jogaram (ou não jogarão) os oitavos-de-final, 5 têm mais remates do que nós, incluindo o ofensivo Chile (com mais três) ou a deliberadamente ofensiva Espanha (com mais 9, 3 por jogo). A Holanda tem menos quatro e, por exemplo, o Paraguai tem menos 10 (isto para não falar nos também qualificados Japão e Eslováquia, com menos 16 e 17, respectivamente).

Ataques Novamente 14.º, novamente com oito selecções que já fizeram os jogos dos oitavos (aqui, com a particularidade de os Estados Unidos, mesmo com mais 120 minutos, não terem feito mais ataques do que nós). O atacante Chile continua com mais 3, a Holanda tem menos 7 que nós.

Bolas entregues na área (jogáveis, obviamente) 10.º lugar, ou 5.º se apenas considerarmos as selecções que ainda não jogaram nos oitavos (atrás de Espanha, Itália, Camarões e Chile). Chamo a atenção que não estamos a tentar medir se elas são imprescindíveis, aproveitadas, de qualidade, ou não, mas apenas se Portugal joga à defesa, ou não.

Porrada Autocarro que se preze, dá traulitada (tirando os rapazes da Coreia do Norte). Alerto para um raciocínio inverso ao das anteriores variáveis, para as oito selecções que têm um jogo a mais - e aqui destaco a Alemanha que, mesmo assim, tem menos faltas cometidas do que nós. Das 24 que ainda não jogaram, cinco fizeram menos faltas do que nós. A Holanda fez mais 4 e o Chile mais 19, para usar as selecções que serviram de modelo nos índices anteriores (uma por ser tradicionalmente ofensiva, outra por ser quase unanimemente considerada uma das mais ofensivas deste Mundial).

E deixo uma pergunta: considerando que, tal como os outros, não jogamos sozinhos; considerando que nos devemos comparar aos outros, porque é com eles que competimos; considerando que nem todos jogaram contra a Coreia do Norte e que nem todos jogaram contra o Brasil; onde é que está a retranca?

Começámos o Mundial contra o nosso adversário directo para a qualificação, que apresentou uma estratégia defensiva que nos criou dificuldades e mostrou valor para nos estragar a estreia e o Mundial. Queiroz concedeu o empate pretendido pelo adversário e devolveu, como favorito: agora façam melhor do que nós contra a Coreia e contra o Brasil. Faz o melhor resultado da selecção em fases finais e anula o jogo contra um real favorito ao título (que acabou o jogo com tantas dificuldades como nós sentimos contra a Costa do Marfim). Isto não é retranca. Isto é estratégia. Aliás, a única possível, dada a conjuntura, se o objectivo for ter algum tipo de sucesso. Com a mitologia agregada a algumas das intervenções que vou lendo, fico na dúvida se é esse o objectivo, porque não são opções que são criticadas.

ps - Aqui no 442, sentimo-nos - os três - muito confortáveis com as nossas posições sobre os dois últimos seleccionadores. Foram sempre criticadas as opções e os critérios, ferozmente criticadas em ambos os casos, quando foi caso disso. Mas esta conversa fica para outra altura, apesar do que também se vai lendo a este propósito. A seu tempo.

master kodro

15 comentários:

pitons na boca disse...

Muito bom o trabalho estatístico.

É evidente que cada um tirará as devidas ilações. O nuno, por exemplo, irá dizer que são só números e escapar-lhe-á todo e qualquer propósito de análise que o texto pressupõe. ;)
Só há um pequeno aspecto que quero salientar: nos remates contabilizados por Portugal estarão os 2347 remates que o Cronaldo fez a 45 metros da baliza (principalmente contra o Brasil e com uma taxa de sucesso surpreedente contra um GR como o Julio Cesar), o que por si só, "escondido" assim no meio dos números, passaria despercebido. :)

Coisa que noto, nesta ultima década, é que há cada vez mais uma maior necessidade por parte que muita e muita gente, de ver os seleccionadores num espectro que apenas contempla o preto e o branco, ou seja, incondicionalmente a favor ou contra sem haver espaço de manobra para as cores cinzentas intermédias.


Muito bom post a nível estatístico (aliás, como é habito quando assim fazem por estas bandas).

master kodro disse...

Só quero dizer que não tive trabalho nenhum com as estatísticas - a FIFA é que o fez todo.

master kodro disse...

Ou quem as trabalha para a FIFA...

SwordOfTheGods disse...

"Autocarro que se preze, dá traulitada" - Não concordo com este ponto. A estratégia do "autocarro" é tapar linhas de passe, eventualmente recuperarando a bola para partir para o contra-ataque. As traulitadas não ajudam, pois fazer faltas e conceder livres não ajuda nada numa estratégia de contra-ataque. Obtêm-se melhores resultados jogando "limpo".

Rearviewmirror disse...

"Autocarro que se preze, dá traulitada" -- Pode dar e pode não dar, dando como exemplo (respectivamente) o Leixões e a Naval, na temporada passada nos jogos com o BEnfica na Luz.

Do resto, tudo certo no post.
E mais: se jogarmos de peito feito contra a Espanha, perdemos o jogo.
Se jogarmos como o fizemos contra o Brasil, passamos a eliminatória, porque basta uma jogada/triangulação mais bem conseguida num contra ataque para desbaratar aquela defesa (que é o ponto fraco daquela equipa)

master kodro disse...

Por isso vos pedi para juntarem todas variáveis e não analisarem nenhuma isoladamente. Por exemplo, a Nova Zelândia é a equipa com menos remates - 15, a 9 da seguinte -, menos ataques - 11, a 8 da seguinte -, e a terceira com mais faltas feitas (menos uma do que a Austrália, média ligeiramente menor do que o México). E depois, por ali, aparecem Suíça, Costa do Marfim (e a excepção Chile). Não tem que ser, como é óbvio, mas normalmente até é. Não estou à procura de respostas definitivas e imediatas, mas apenas de pistas.

RDS disse...

Sinceramente não percebo o objectivo deste post, nem o que devo concluir com todos estes números (não tendo no entanto a intenção de beliscar o trabalho do autor, ou tão pouco a sua respeitável opinião).

Portugal joga muito defensivamente? Sim, obviamente.

Portugal é pior que o Brasil? Sim, claramente.

Portugal é pior que Espanha? Sim, claramente. Pelo menos da melhor Espanha...

E por isso faz todo o sentido que sejamos defensivos, humildes, assertivos e acima de tudo OBJECTIVOS. E quem sabe se não ganharemos (somos melhores que a Suiça a atacar e a defender)...

CQ é para mim um treinador fraco, e um péssimo seleccionador.

Será porque está a jogar de forma pragmática, preferindo resultados a exibições? Não, de todo. é mau treinador por tudo o que já fez no futebol. É mau seleccionador porque não tem carisma, discurso e é tudo menos um líder.

P.S. - foi um bom aguadeiro em Manchester? Foi. E tenho pena que Fergunson não seja o nosso seleccionador...

RDS

Francis disse...

Ganhamos logo e tá tudo a declarar amor eterno ao gajo e aos gajos...bola é ganhar, como dizia o outro, salir a ganar...ah porra era español...

Bola prá frente e fé em Deus.

É da maneira que voltamos aos Kardecs aos Maniches e aos Klikcreszaks ou lá como se chama o keeper do FêCêPê.

RDS disse...

Portugal (de Queiroz) o hiper-ofensivo!

futebol total, mentalidade ofensiva, e o tudo por tudo depois do golo sofrido!

Viva Queiroz!

RDS

SamM disse...

Viva o professor de Educação Fisica!

Jogada de mestre aos 60 minutos.. Até o Tadeia na RTP adivinhou a borrada...

Mas o melhor foi ver o Pepe a rir-se desbocadamente no final do jogo...

Jorge disse...

Claro, qualquer treinador de jeito poria estes jogadores (trocando o Eduardo pelo Quim) a jogar de forma a encostar esta Espanha as cordas e ganhar este jogo a caminho da primeira final da historia de Portugal.

joão disse...

dizer que o duda não é defesa esquerdo é um achado que ainda ninguem se tinha lembrado e todo este tempo todo o espertalhão do queiroz andou a jogar toda a qualificação sem defesa esquerdo e nimguem deu por ela.
o que toda a gente parece ter esquecido é que portugal empatou dois jogos a zero feito merecedor de uma qualquer italia catenacio.

Pedro disse...

Serve de muito encostar a Espanha para depois estragar tudo com subsituições patéticas...

Para chegar à final é preciso primeiro passar os oitavos...outros conseguiram-no...

master kodro disse...

Espectacular. Estavam à espera da derrota para vir comentar. E com um bónus de um comentário - mais um - sobre o Duda.

Treinador de Sofá disse...

O jogo defensivo é só para quem pode e sabe (Itália) ou para quem não sabe mais. Queiroz não o sabe e a selecção nunca jogou assim antes. Também não concordo com a ideia que se jogarmos de peito aberto, seria um descalabro. Parece que estamos todos siderados com a vitória da Suíça frente a esta Espanha, e que valeu mais Benaglio (muito bom o ex-nacionalista) que impediu o golo (tal como Eduardo hoje). A outra diferença é que hoje D.Vila acertou e não fez disparates como fez contra a Suíça. Uns apelidam esta manobra de Queiroz uma estratégia (possível) dado a conjectura. Eu chamo isto de medo e os resultados estão à vista.