sexta-feira, novembro 21, 2008

O legado

Gostava que reflectissem nos mecanismos que levam a que estas situações se multipliquem nas caixas de comentários dos blogs:

nm: "queres mesmo falar da "bosta"? Não foi o Prof. Queirós que se queixou da "merda" depois de falhar uma qualificação e acabou por aceitar, ao que se parece, quando a "merda" é a mesma?"

[o contexto é uma resposta ao que escrevi: "O resto das críticas que se fizeram a Scolari vais continuar a ter que esperar, em princípio (nunca se sabe, cá estaremos se for caso disso), porque Queiroz não me parece ser gajo para agredir um jogador adversário, dizer que um comentador é uma bosta ou insinuar que os jogadores de outra selecção se doparam para explicar um resultado menos simpático."]

Queiroz: "É preciso limpar a porcaria que há na Federação".

nm: "capaz de reconhecer que se excedeu a insultar o presidente do Sporting quando não era seleccionador, mas também capaz de desconsiderar muitos dos que antes muito deram à selecção (Ricardo e Scolari, por exemplo).

"Queiroz: "«Não tenho ideias pré-concebidas ou preconceitos. Ricardo deu um contributo extraordinário para a selecção nacional e merece todo o nosso respeito. É uma opção técnica, o próprio Ricardo começou a não ser opção no seu clube, mas isso não significa que no futuro próximo ele não venha a ser chamado à selecção. Não risquei o Ricardo da selecção nacional"

yazalde74: "Voltámos ao antigamente, a sofrer 6 golos, a ficar 4 jogos sem ganhar... Mas com o brasileiro burro é que estávamos mal..."

Aconteceu duas vezes com Scolari, essa questão de ficar 4 jogos sem ganhar, a última das quais com o seguinte encadeamento: Kuwait (f); Arménia (f); Polónia (c); Sérvia (c)

Vale tudo, é? E porquê? Perguntem-se porquê.

master kodro

22 comentários:

leaoconselheiro disse...

Partidarismos. Uma coisa é a simpatia que se pode ou não sentir por um determinado personagem. Outra é deixar que isso condicione a forma como se analisam ou avaliam decisões e resultados.

Convenhamos, MK, e tal como foi já reconhecido por colegas teus aqui do blog, a opinião aqui deixada em relação a Scolari não foi particularmente imparcial. É natural que, com a mesma parcialidade, surjam agora opiniões em sentido oposto.

jose disse...

A questão de fundo é que há em Portugal imensos órfãos de Salazar. Scolari sabia o que fazia quando mandou a jornalista "se fuder".

nm disse...

Caro MK:

1) Quando Queiroz diz "A selecção não é uma casa nem um espectáculo com lugares marcados” os destinatários para mim são óbvios. Mas, provavelmente, eu é que sou ingénuo.

Para que conste, eu não questiono a justiça nem o acerto da decisão, que tem o meu apoio. Questiono, isso sim, a desconsideração pública que a afirmação representa quer para o Ricardo (como foi entendido pela generalidade da imprensa, já que a convocatória tinha ficado marcada pela ausência deste) quer pelo seu antecessor no cargo;

2) Eu falei em merda, o Queiroz em porcaria, tu prendeste-te aos pormenores, eu prefiro o essencial. Ou seja, a falta de coerência do Queiroz quando desata a questionar a "porcaria" quando falhou a qualificação em 1998 e agora já não viu problema nenhum no regresso.

3) Sobre os porquês, deixo-te a ti para responderes. Dou-te algumas hipóteses:

1) Cinco pontos em quatro jogos, incluindo um empate em casa com uma equipa da 3.ª divisão europeia e uma derrota também em casa com um dos adversários directos;

2)Qualidade das exibições a cair de jogo para jogo;

3) Mais preocupante, os sinais que tranparecem de pouca união do grupo, de pouco espírito de equipa, do que seja. Estão ali 11 jogadores, mas ninguém vê uma equipa;

4) Pessimismo galopante;

5) Decisões técnicas muito questionáveis;

Queres que continue?

nm disse...

Já agora, tu não percebeste o meu outro comentário, mas eu explico-te: uma vez que tu explicaste os motivos pelos quais não gostavas de Scolari, afirmando que não esperavas de Queiroz certas atitudes, eu apenas apontei um par de falhas de carácter do actual seleccionador. Mas, como disse, eu também já sou da opinião que devemos deixar de falar do Scolari. A começar pelo Queiroz, que bem gosta de dar umas ferroadas no outro, mas conseguir resultados é o que se vê.

nm disse...

Acho perfeitamente acertada a referência ao legado. Para o bem e para o mal, Scolari deixou uma marca no futebol português. Seja porque foi injustamente atacado por muita gente, seja porque conseguiu alguns resultados, seja porque Queiroz faz questão de avivar o "fantasma", é natural que surjam as comparações. Mas nada do que Scolari tenha feito, nada do que os seus apoiantes ou os críticos de Queiroz possam dizer, nada disso pode servir de desculpa na hora de avaliar o trabalho de Carlos Queiroz. Ninguém no seu perfeito juizo pode ter muito de positivo para dizer destes primeiros meses de trabalho. Queiroz pode dar as entrevistas que quiser, pode dizer e desdizer que o que quiser, que a sua única saída é ganhar. E nós, pobres adeptos, olhamos para o campo, queremos acreditar que é possível, mas não é fácil.

Quanto às minhas críticas, limito-me a ser coerente. Desde o dia em que foi anunciado o nome do seleccionador que disse não estar certo que Queiroz fosse a pessoa acertada para o cargo. Agora, preferia mil vezes não ter razão do que vir a tê-la. Ainda ontem, quando começamos a ganhar ao Brasil, pensei "queres vir que isto vai começar a endireitar-se" e dei por mim a desejar que o jogo com a Suécia fosse já para a semana. Ainda bem que é só em Março, porque é óbvio que este clima é prejudicial à selecção, mas também não é menos verdade que, apesar do legado, o culpado maior será sempre o actual seleccionador nacional.

JABT disse...

leaoconselheiro, francamente... Que blasfémia!

BdB disse...

Bom, este tema do seleccionador é um bocadinho irritante na minha opinião e gostava de deixar aqui o meu ponto de vista.

Era um admirador confesso de Scolari e acho que deu muito a Portugal. Mas o seu tempo passou, deu-nos muitas alegrias e decidiu ir à sua vida. Considero que fomos buscar a melhor das opções disponíveis. Ou seja, não é por adorar Scolari que detesto Queirós. Se me dessem a escolher preferia Scolari, mas como não havia escolha, ficámos com o melhor.

Agora, sejamos honestos e reparemos que Queirós não tem o que Scolari teve numa série de aspectos, desde a qualidade individual de jogadores, a "tempo" ou experiência dos jogadores.

Isto não são desculpas e apesar das dificuldades, Portugal tem obrigação de se qualificar e eu ainda acredito que a qualificação é mais que possível. Aliás, bastará vencer a Suécia para termos 1 pé na África do Sul, porque todas as outras selecções vão perder pontos até final (e nós também!). E mesmo não vencendo a Suécia, aí sim ficamos na iminência de vencer tudo até final e agarrarmos na calculadora, mas continuamos na corrida.

Acho patéticas as críticas que se fazem a Queirós, que tem tentado arranjar uma solução para uma selecção que quer ser um outsider a considerar (deixem-se de lirismos estúpidos impingidos pelos jornais, não somos nem nunca fomos mais que um outsider, sempre que apanhámos selecções de topo levámos na tarraqueta) e tem de se apresentar jogo após jogo apenas com 9 jogadores em campo (falta um ponta de lança, e isso sinceramente por mim resolve-se com Nuno Gomes) e sem defesa esquerdo (e isso não se resolve...)

De resto, há que repor a verdade porque uma questão de 4 anos é fundamental: Queirós não falhou a qualificação para o Mundial 98, mas sim o Mundial 94. Ou seja, num momento em que Portugal estava afastado dos grandes palcos mundiais há 8 anos e a ultima presença tinha sido pouco mais que ridícula. Ou seja, num momento em que a nossa selecção tinha a geração de ouro ainda com o biberão na boca e meia dúzia de super craques para consumo interno. Futre estava já todo roto, penso.


Luciano Rodrigues
http://belenenses.blogspot.com

O Anti Lampião disse...

mais uma confirmação da utilização do doping em todas os escalões de formação do benfica
http://oantilampiao.blogspot.com/

master kodro disse...

leão conselheiro, mas é natural porquê, se vem de pessoas que criticaram as críticas a Scolari?

E é natural porquê se as pessoas que criticaram Scolari por erros que acham que ele cometeu continuam a criticar Queirós por erros que ele está a cometer?

E o que é que tem de natural que se escrevam coisas que não correspondem à realidade para fazer valer um ponto de vista?

Eu já nem quero discutir as frases, porque acho que não vale a pena. Já só quero perceber o mecanismo que leva as pessoas a inventar coisas, concedendo que muitas vezes é involuntário, e por isso mesmo pergunto-me como é que chegámos a este ponto.

E a única coisa que vem à cabeça depois de pensar muito no assunto é o seguinte: é o legado do clima de guerra que se criou em torno da selecção em que não se admitem críticas nem opiniões contrárias.

kovacevic disse...

Obrigado pelo comentário, Luciano.

leaoconselheiro disse...

Mk,

Acho que não é muito dificil de perceber porque é que é natural. Esta questão de Scolari/Queiros começa a ter contornos parecidos com o clubismo e, como com o clubismo, a parcialidade nem sempre é a melhor conselheira para o bom senso, havendo também aquela tentação de "esfregar na cara" do outro lado a nossa razão quando os factos parecem estar alinhados a nosso favor. Parece-me um caso simples.

Agora, Mk, devo dizer-te que da tua parte também já vi (e não andei a procurar) análises que, para mim, são no minimo forçadas e que denotam grande parcialidade na interpretação que fazes dos factos (estou a lembrar-me, concretamente, de uma discussão que tivemos sobre a falta de coerencia evidente que o Queiros revelou nas suas convocatórias, tendo em conta o discurso inicial)

leaoconselheiro disse...

Já agora, Mk, o que achas desta pérola na primeira página do Ojogo?

"Aos 16 anos, só por um triz Rui Costa não foi dispensado do Benfica. Por ser pequenino e franzino, como agora confessa o próprio. Se a infeliz decisão tivesse sido tomada, para além de não terem ocorrido todos os grandes momentos que proporcionou nos relvados da Luz, o mais certo é que hoje fosse outro o patrão do futebol encarnado. E, provavelmente, não haveria Quique Flores a dar instruções. Nem Reyes, nem Aimar, nem Suazo... "

Ou então deste resumo do jogo que supostamente justifica aquela primeira página da ABola com o Suazo

http://www.youtube.com/watch?v=XxyVqLJLPbk

A imprensa portuguesa continua a enviar insultos subliminares à inteligencia dos adeptos portugueses...

nm disse...

"Leão conselheiro, mas é natural porquê, se vem de pessoas que criticaram as críticas a Scolari?"

Ou seja, porque critiquei as críticas de Scolari, não tenho legitimidade agora para criticar Queiroz? Ou quem criticou Scolari fica agora muito incomodado se criticarem Queiroz?

Eu, como disse, de bom grado tiro o Scolari desta discussão. Critico (e não me parece que esteja sozinho) o Queiroz porque as sensações que esta selecção transmite são muito pouca positivas. E, sem desculpas esfarrapadas, como a falta de tempo, a falta de transmissão de testemunho ou as lacunas da equipa, o responsável é ele. Já agora, Queiroz queixa-se do clima que foi criado à volta dele, mas está longe de ser um clima sem precedentes. Quando Humberto Coelho perdeu com a Roménia nas Antas, na qualificação para o Euro 2000 (e eu estava lá), foi insultado como nunca vi um seleccionador português ser. Mas acabou por conseguir qualificar-se e acabou mesmo a fazer-nos sonhar na fase final. Espero, muito honestamente, que Queiroz também o consiga.

master kodro disse...

nm, tens toda a legitimidade para criticar Queirós, como eu a tenho para criticar Queirós, como eu a tinha para criticar Scolari. É precisamente aí que quero chegar. Porque é que não posso ter legitimidade para criticar Scolari, se toda a gente tem legitimidade para criticar toda a gente?

nm disse...

MK, por mim, tens e tinhas toda a legitimidade para criticá-lo. E os pontos que referes, sobre o carácter de Scolari, por exemplo, merecem reflexão. Agora, como nem tu nem eu nem ninguém terá verdades absolutas, haverá sempre quem queira fazer o contraditório.

Se tu estranhas o clima criado em torno de Queiroz, eu estranho a forma como Scolari é constantemente evocado para justificar muita coisa. Não me parece honesto, assim como não me parece aqueles que tanto criticaram no passado serem hoje bem mais meigos nas críticas sem que os efeitos da mudança tenham sido, certamente, os que desejavam.

master kodro disse...

Eu só posso falar pelas minhas críticas, nm. São as mesmas a nível de escolhas e critérios, nem mais meigo, nem menos meigo. O resto é diferente, pelo que já te disse e que tu próprio dizes que é diferente.

Podes ter a certeza que quando Queirós disser que um comentador é uma bosta, agredir alguém, insinuar que os adversários se doparam, prometer jogadores para os sub-21 que depois não disponibiliza, vai ter exactamente o mesmo tratamento da minha parte que teve Scolari.

O contraditório é sempre bem-vindo quando não inclua insultos - como foi o caso desta nossa troca de opiniões - e que contenha dados concretos e reais.

luissm disse...

Isto talvez seja um "tiro ao lado" do alvo do post, mas é capaz de ajudar.

Eu não quero continuar a falar do Scolari, já disse e redigo isso. Mas este "clubismo" tem um razão de ser.

Há quem diga que o Scolari se foi embora. Ponto final parágrafo.

Há quem, como eu, ache que ele só se foi embora porque não sentiu que o quisessem cá.

Talvez esteja errado.

Este grupo de pessoas exige que o seu sucessor tenha tão bons ou melhores resultados que ele.

Como isso não acontece, de cada vez que o seu sucessor contribui para maus resultados, vem aqui e a outros sítios onde Scolari foi bastante criticado e diz: "era esta treta que queriam??!".

Para mim é só isso.

Não acho, nunca achei, que o Scolari seja "Deus na terra", mas se era para mudar, que fosse para melhor.

Como neste blog se criticou um bom bocado o Scolari, este é um dos sítios para onde vimos dizer: "era esta treta que queriam?!"

Há gente mais raivosa que diz isto sem conseguir ver os vossos posts... talvez por sentirem à partida que a escolha que foi feita nunca teria sucesso.

Eu só continuo a clamar pela saída do CQ antes que isso nos custe a WC2010. Vocês acham que só o devemos despedir depois de estar tudo perdido (mesmo achando que ele anda a fazer burradas, sem ter uma almofada de sucessos atrás que permita desculpá-lo).

Não acho que haja muito mais que isto.

master kodro disse...

luissm, ele já nos explicou porque é que se foi embora, publicamente. Porque a Federação, embora tenha tentado, não conseguiu oferecer as condições financeiras que o Chelsea lhe ofereceu. Saiu da selecção por questões financeiras. São opções que têm que se respeitar.

Quanto ao resto, não acho mesmo nada que ele deva sair antes do fim da qualificação. Se não achei que Scolari, com dificuldades na qualificação anterior e a manchar o nome de Portugal, que representava, com uma agressão a um jogador adversário, devesse sair na altura, muito menos agora, apesar dos múltiplos erros e maus resultados.

Ricardo disse...

Luciano,

excelente comentário. Lúcido, inteligente e certeiro. Também agradeço.

luissm disse...

Luciano,

Eu não agradeço, desculpa.

Há muito que não consigo agradecer a quem me diz que, tirando o Scolari, o CQ é o melhor que a FPR consegue arranjar.

Como disse ontem (não sei se aqui se no sector) o CQ tem toque de Midas, mas ao contrário.

luissm disse...

ups... FPF e não FPR.

Estava a ver coisas de rugby e enganei-me :).

nm disse...

Caro Luciano

Os jogadores que o Queirós tem à sua são os mesmos que o Scolari tinha há meio ano. Não desaprenderam a jogar de certeza. Ou essa qualidade (ou falta dela) também serviu de desculpa para a eliminação prematura do Euro? Talvez a equipa pudesse ter mais qualidade e mais experiência se o melhor avançado centro de que dispõe Queirós, o único que encaixa no jogo da selecção, não fosse atirado para o banco ou para a bancada. Só para citar um exemplo, em que, pelos vistos, estamos de acordo. Ou talvez alguns jogadores tivessem mais qualidade se Queirós soubesse tirar melhor partido deles, mas o que se pode esperar de um treinador que inclui Danny nas suas opções para ponta de lança e considera que Nuno Gomes não o pode ser? E nem vale a pena falar do meio campo utilizado contra a Arménia ou da experiência de jogar sem "pivot" defensivo contra o Brasil. De resto, as lacunas da equipa, são as mesmas que existiam antes. Se as críticas são patéticas agora, não seriam menos há uns meses.

A falta de tempo é uma falsa questão. Queirós tem de facto pouco tempo para operar uma revolução, mas, até por isso, teria sido mais prudente aproveitar melhor o trabalho que já tinha sido feito. Mudar aos poucos, e não cair na tentação de mudar muita coisa, para logo começar a fazer recuo atrás de recuo. O curioso é que só agora, em Portugal, um seleccionador se lembrou da falta de tempo para preparar uma equipa, algo que não acontece com quem organiza competições. Portanto, esse tipo de argumentos só serve, mais uma vez, para ser usado para afastar (ou será avivar) o fantasma Scolari, mas nada de válido trás para este debate. Com tempo ou sem tempo, o balanço é até agora negativo, para ser simpático.

E, sim, não acredito agora como não acreditava antes que Queirós fosse a melhor opção disponível. Quem foi capaz de contratar o treinador campeão mundial, pode certamente contratar uma opção melhor que a de Scolari. Mesmo que ela fosse estrangeira e pouco consensual, mas isso já era pedir demais a quem precisava de salvar a cabeça no rescaldo da participação no Euro.