Num Europeu de grande nível, a Rússia produziu uma exibição soberba. É bom saber que ainda há treinadores que estudam as equipas adversárias, e Hiddink fê-lo com mestria. Semshov e Semak vigiaram de perto os criativos holandeses, bloqueando as acções atacantes laranjas; sabendo da falta de qualidade técnica dos médios defensivos holandeses (e também dos centrais) a Rússia apostou na pressão alta, criando enormes dificuldades ao primeiro momento de construção holandês; e por fim, Hiddink deu total liberdade ao duo da frente (Pavlyuchenko e Arshavin), baralhando as marcações e gerando espaços para o aparecimento dos médios e do incansável Zhirkov.
Demonstrando uma invejável condição física, a Rússia praticou um futebol maravilhoso, repleto de movimentações imprevisíveis, rápidos desdobramentos ofensivos, e uma gama de recursos atacantes que poucos apresentam numa só partida: notáveis diagonais; passes de ruptura; excepcionais desmarcações; jogadas à linha; cruzamentos ao primeiro poste, ao segundo poste, para a cabeça da área; remates de longa distância; tabelas excelentes; venenosos contra-ataques e movimentos colectivos precisos como um relógio suíço.
Como se não bastasse esta qualidade colectiva, a Rússia revelou ainda possuir um trio absolutamente demolidor. Zhirkov fez todo o corredor esquerdo com o mesmo rigor e a mesma acutilância durante os 120 minutos. Pavlyuchenko revelou-se um avançado completo (óptima capacidade física aliada a uma excelente técnica), combinando muito bem com os médios, descaindo sobre as alas (o que criou brechas na defesa holandesa) e marcando ainda um golo com mais uma execução perfeita. E, por fim, Arshavin, um talento prodigioso, forte candidato a melhor jogador deste Europeu e à mais cara transferência deste defeso. Jogando sempre a grande velocidade, deu um verdadeiro espectáculo de dribles, arrancadas imparáveis, passes teleguiados e belíssimas acções individuais.
Com tanta Rússia, pouco fica para dizer da Holanda. Pareceu demasiado dependente do quarteto da frente, preso de movimentos e francamente desinspirado. Engelaar prometera contra a Itália, mas hoje revelou grandes debilidades (em particular na fase de construção atacante). A Holanda forçou o prolongamento tirando partido de uma grave fragilidade russa – os lances de bola parada. Como outros já deviam ter percebido, o mais importante nestes lances não é ter jogadores altos, mas sim exercer um posicionamento correcto. Os russos falharam clamorosamente neste aspecto e os holandeses, quase sempre libertos, criaram dificuldades pelo ar. Contudo, esperava-se muito mais de uma equipa que praticou um futebol notável na fase de grupos.
P.S.: E que tal Hiddink para a selecção portuguesa? Ah, esqueçam... Não fala português, não faz rezas no balneário, nem aprecia Roberto Leal, por isso está fora de questão.
katanec
17 comentários:
Portugal teve mais 5 dias de descanso do que a Alemanha e perdeu. A Croácia teve mais 3 dias de descanso do que a Turquia e perdeu. A Holanda teve mais 5 dias de descanso do que a Rússia e perdeu. É caso para perguntar se o descanso ajuda ou estorva.
Fiz um post sobre a Rússia ainda antes deste jogo, pois já tinha ficado impressionado com o futebol que apresentaram frente à Suécia. Fiquei com a sensação que poderiam surpreender a Holanda. A análise que fiz pecou por defeito, hoje havia bem mais para dizer. Impressionante exibição contra a Holanda. Ao ritmo do mestre Hiddink...
Hiddink era só e apenas a SOLUÇÃO !!!
Não sei se o treinador é assim tão melhor que o Scolari. Estranhamente tenho a sensação que são parecidos, excelentes motivadores e bons a armarem a equipa do meio campo para a frente. O Hiddink contra a Espanha não tinha feito o trabalho de casa e mesmo hoje viu-se que a equipa não sabia o que fazer nas bolas paradas. Se os holandeses tivessem tido um aproveitamento igual ao dos alemães podíamos ter assistido a uma grande injustiça.
A questão das equipas que descansaram os jogadores estarem a levar na ripa mostra que se calhar o entrosamento extra que se ganha com mais um jogo a sério é mais importante que poupar o físico.
"Não sei se o treinador é assim tão melhor que o Scolari."
Hein? Ó Filipe, costumo gostar do que dizes mas esta é de bradar aos céus. Comparar Scolari a Hiddink é como dizer que a carcaça ressequida é igual ao pão da Aldeia; é como comparar um tremoço a uma farinheira; sei lá, é como dizer que o Paulo Coelho é tão bom como o Pirandello.
"O que queríamos evitar no combate - a decepção e a derrota - passa a ser o único legado de nossa covardia. E, um belo dia, os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, a morte que nos livrasse de nossas certezas, de nossas ocupações, e daquela terrível paz das tardes de domingo." (Paulo Coelho)
"Por várias vezes, acordando no coração da noite ( mas neste caso, a noite demonstrava realmente não ter coração), aconteceu-me sentir no escuro, no silêncio, uma estranha estupefacção, um estranho incómodo ao recordar qualquer coisa feita durante o dia, à luz, sem prestar atenção; e perguntei, então, a mim mesmo se, na determinação das nossas acções, não concorrem também as cores, a vista das coisas que nos rodeiam, o ruído variado da vida. Mas é claro que sim, sem dúvida! E sabe-se lá quantas outras coisas! Não vivemos nós, segundo o senhor Anselmo, em união com o Universo ? Ora, é preciso ver quantas tolices este maldito Universo nos faz cometer, de que nós depois afirmamos responsável a nossa miserável consciência, pressionada por forças exteriores a ela, ofuscada por uma luz que vem de fora dela. E, ao invés, quantas deliberações feitas, quantos projectos arquitectados, quantos expedientes maquinados durante a noite não se mostram vãos e não se desmoronam e esfumam à luz do dia ? Como o dia é uma coisa e a noite outra, do mesmo modo talvez nós sejamos uma coisa de dia e outra de noite: uma coisa miserabilíssima, infelizmente, tanto de noite como de dia." (Luigi Pirandello)
É Bruno Alves versus Arshavin; Nito versus Zidane; Eu ou tu versus Eusébio.
A Rússia do Euro e o Zenit da Taça UEFA jogam o tipo de futebol que mais me faz estremecer de prazer. Combinações rapidíssimas e sempre orientadas para causar mossa na defesa adversária e não para arrancar olés da bancada. Quantas vezes se viu um russo ganhar a linha e fazer um cruzamento à toa só para poder dizer que cruzou? Hiddink é claramente o melhor treinador deste Euro e a Rússia ontem só não foi perfeita por causa dos tais livres laterais. Acho que ele faria um óptimo trabalho na selecção portuguesa, mas o estilo de jogo seria certamente diferente, pois não estou a ver Ronaldos, Nanis e Quaresmas a entrarem em combinações daquele tipo sem poderem fintar dois ou três adversários.
Se a Rússia defrontar a Espanha nas meias tem sérias hipóteses de chegar à final. Se apanhar a Itália cheira-me que está fod*da.
PS - Um dos momentos mais curiosos do jogo de ontem foi uma saída ricardesca do Akinfeev após um canto na direita. Aposto que se tivesse sido o Labreca a fazer aquilo tinha mamado um golo. Porquê? Porque, convenhamos, quando o Labreca faz merda daquela nunca é compensado pelos companheiros. Já no caso russo, como nenhum defesa se desconcentrou e descurou a sua marcação, tudo terminou num cabeceamento inofensivo ao lado.
Era pegar nos euros q se ganharam no Euro, pagar à federação Russa a indmnização devida e trazer Hiddink para a nossa Selecção.
Mais nada.
Aquele Arshavin....fosga-se!!!!
A Rússia só surpreendeu a quem não esteve atento. Mesmo no jogo com a Espanha os russos jogaram bem à bola. Tiveram azar e sofreram 2 golos na primeira parte por erros individuais, mas nessa primeira parte encostaram a Espanha lá atrás. Têm sido isto desde o início e merecem claramente estar onde estão. São a melhor equipa, em termos colectivos, deste Euro...
Quem escreveu?
"A Rússia tem bons princípios de jogo, não fosse orientado por Hiddink, mas individualmente pareceu-me das equipas mais frágeis do Euro. Sem Arshavin, por castigo, e sem Izmailov, por causa de conflitos com o presidente da federação russa, fica tudo muito mais difícil. Mas ajudava se Denisov e Kerzhakov tivessem sido convocados e se os irmãos Berezutski estivessem a jogar."
"Comparar Scolari a Hiddink é como dizer que a carcaça ressequida é igual ao pão da Aldeia; "
Olha que não. O Scolari à frente da selecção não teve problemas em aviar a Espanha nem a Holanda, tal como não teve problemas em aviar os checos. Onde se vê a fraqueza do Scolari é em aviar equipas que não têm apenas um plano A.
Scolari não ganhou à Inglaterra em tempo jogado (fomos sempre a penaltis). Scolari não ganhou à França, Alemanha nem à Itália (foi a feijões mas confirmou a regra).
A única vantagem que eu para já vejo no Hiddink foi ter despachado a Grécia. Só me vou dar por convencido de que ele é tacticamente superior depois do jogo com a Alemanha.
Jogo com a Alemanha? Então já dás como certo que Espanha ou Itália vão à vida com a Rússia? Afinal, sempre confias em Hiddink :)
Pode acontecer tudo, a Rússia pode ficar já pelas meias-finais. O trabalho que se vê nas equipas de Hiddink, desde a Coreia 2002, passando pela Austrália 2006, chegando a esta Rússia 2008 é um trabalho de grande qualidade. Gostava de ver o Scolari pegar numa dessas 3 equipas e conseguir fazer o trabalho do holandês. Ou seja, pegar em equipas que, por não terem valores indiscutivelmente superiores no plano individual (aqui a Rússia está acima das outras duas), são muito fortes como conjunto. O que salva ou salvou Scolari, aliada a alguma sorte e à capacidade indiscutível que tem de explorar a união de grupo, foram as individualidades de grande qualidade que teve com Brasil e Portugal. Dá-lhe uma equipa de segundo escalão europeu ou Mundial e vais ver que não faz nada. Ao contrário de Hiddink. A comparação, repito, não me faz sentido nenhum. O holandês é incomparavelmente superior.
Tal como o Ricardo, também penso que comparar Scolari e Hiddink é comparar uma sandes de coirato de uma sandes de presunto pata negra. É verdade que Scolari deixou obra feita no Brasil e em Portugal, mas, atendendo aos jogadores à sua disposição, não fez menos, mas também não fez mais do que aquilo que se esperava dele. Além de que muito do método de trabalho de Scolari resulta do folclore, das bandeiras, dos cantores pimba, das nossas senhoras, etc. Funciona em países como Portugal e Brasil, é certo, mas tenho dúvidas sobre se terá o mesmo efeito noutros.
Já Hiddink deixou obra feita na Holanda, Coreia do Sul, Austrália e Rússia. Em todas essas selecções se viu o dedo dele. Se a Coreia teve sorte e algumas ajudas em chegar onde chegou, a verdade é que aquela foi a equipa mais competitiva que eles alguma vez tiveram. No caso da Austrália foi delicioso como Hiddink, ao mesmo tempo que era campeão holandês pelo PSV, levou os cangurus a eliminar o Uruguai no playoff para o Mundial. E na fase final sabemos como foram eliminados. Já a Rússia pratica o futebol colectivamente mais espectacular e eficaz do torneio. Quem se lembra de como esta selecção levou 7-1 de Portugal há uns três anos, só tem admitir a evolução que houve entretanto.
Por acaso via esta Rússia a ganhar à Itália (aquele Luca Toni é um cepo, não só falha os golos dele como os dos colegas) e ir à final. Assim já não me parece que vá jogar frente à Alemanha. Vamos a ver se ao contrário do Scolari o Hiddink aprende com os erros.
"Quem se lembra de como esta selecção levou 7-1 de Portugal há uns três anos, só tem admitir a evolução que houve entretanto."
Sim, levou uma cabazada da Espanha, mas não foram 7-1.
O que não percebo é achar que não há nada de extraordinário em levar um país com 10 milhões de habitantes a três fases finais de competições europeias ou mundiais e passar sempre a fase de grupos.
Eu continuo a achar esta selecção muito inferior à que tinha Figo, Rui Costa, Paulo Sousa e João Pinto.
Fui eu, jaho, quem escreveu isso. O que é que pretendes insinuar?
O teu ps, mais uma vez, ridiculariza a "questão" Scolari.
Não há volta a dar mesmo.
Mas sabes se o Hiddink não é praticante de ioga? E olha, ia jurar que já o vi de bigode...
Mas tenho de concordar contigo numa coisa: não fala português, e isso é mesmo importante, parece-me evidente.
Filipe, como eu disse, acho que Scolari não fez nem menos, nem mais do que aquilo que se esperava dele. Se é verdade que levou Portugal a ter a melhor participação de sempre num Europeu e a segunda melhor de sempre num Mundial, também é verdade que este ano igualou a pior participação de sempre num Europeu.
Tens razão quando dizes que não é fácil ter sucesso continuado num país do tamanho do nosso, mas é duvidoso que a geração actual seja pior que a anterior. Se fores analisar os 14 jogadores utilizados frente à Alemanha, concluis que, exceptuando Ricardo, todos os outros jogadores estão ligados ou a um dos três grandes portugueses ou a alguns dos maiores clubes das melhores ligas europeias. Antes do Portugal-Alemanha li uma estatística curiosa: os 23 convocados portugueses já tinham ganho algo como 13 títulos europeus de clubes (8 Ligas dos Campeões e 5 Taças UEFA), enquanto os alemães só tinham 1 (Lehmann ganhou a Taça UEFA pelo Schalke em 1997). Por isso é descabido dizer que Scolari não tinha um grupo muito forte à disposição.
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